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Os imigrantes, o cartão de crédito e a honestidade na Áustria

Os imigrantes, o cartão de crédito e a honestidade na Áustria.

Meus leitores já devem ter percebido que gosto de observar a sociedade onde vivo.

As crônicas são a melhor maneira de transmitir tudo o que vejo, ouço e sinto por aqui.

Não fugindo à regra, lá vai mais uma impressão minha sobre a terra de Mozart, mas hoje, a peculiaridade é de que falarei não sobre os austríacos, mas sobre os “imigrantes” que a Áustria acolheu. Vamos lá!

Dias chuvosos são convidativos a levar os filhos a brincarem em espaços fechados. Eu, particularmente, gosto do restaurante da Ikea – loja de departamentos sueca -, que tem no centro de seu refeitório um espaço onde as crianças podem brincar livremente. Você alimenta seu/sua filho(a) e, depois, ele(a) voa da mesa direto para esse nicho, cheio de brinquedos e painéis eletrônicos. Você consegue comer com um pouquinho mais de tranquilidade ao mesmo tempo em que tem seu/sua pequeno(a) diretamente no seu campo de visão e cuidado.

Muito bem, nesse dia em especial, fiz algo que jamais faço: após pagar, coloquei o cartão de crédito sobre a bandeja, para ser guardado quando estivesse já na mesa e, pior, com um guardanapo em cima.

Quem tem filhos sabe, é um olho no peixe, ou seja, na minha comida e outro no gato, no caso, meu pequeno. Terminei de comer, recolhi a bandeja junto ao depósito e chamei meu filho para continuarmos nossa jornada. Deixei-o em outro espaço infantil, também pertencente a loja, mas fechado e onde adultos não podem entrar. Eu precisava de, pelo menos, duas horas para fazer compras, visto que as férias estavam se aproximando e necessitávamos de alguns itens para praia.

Sempre faço pesquisa de preços, então, peregrino de loja em loja – já que estava dentro de um shopping – até encontrar a melhor oferta. Depois de rodar por alguns estabelecimentos, encontrei o que queria. Coloquei as mercadorias na sacola e dirigi-me ao caixa. Quando estou me preparando para pagar, abro a carteira e? Cadê cartão? Choque e o costumeiro apagão de segundos, em que você não sabe direito o que está acontecendo. Fui furtada? Perdi? Onde? Como? Passado o frio na espinha, voltei a realidade e refiz mentalmente todos os passos que havia dado até ali: almoço, espaço infantil e… dei-me conta: esqueci o cartão em cima da bandeja com o guardanapo sobre ele. Saí, literalmente, correndo shopping afora.

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Quem conhece a rede de lojas Ikea sabe do tamanho – imenso – delas, pois vendem desde cama, mesa, banho até decoração, alimentos, brinquedos e produtos elétricos. E o restaurante, obviamente, precisa absorver o fluxo intenso e grandioso de consumidores, ou seja, meu prognóstico era de que eu jamais encontraria meu cartão de crédito novamente e, como boa brasileira, já estava previamente calculando o prejuízo com os eventuais gastos que seriam feitos, caso tivesse caído em mãos erradas. E abro um parêntesis: aqui, há modalidades de cartão em que é suficiente encostar na máquina pagadora que o produto já está quitado. Sem senha, sem nada, ou, como o meu caso, apenas inserir o código. Aqui também não se exigem documentos quando se paga com qualquer tipo de cartão, pois isso configura constrangimento ao cliente. Como assim? Ninguém duvida que eu seja eu mesma, então, pedir um documento para comprovar o óbvio – na cultura deles -, é inaceitável, sobretudo vindo de uma loja. Nem mesmo a polícia pode exigir documento dos cidadãos sem um motivo justificado prévio.

Aqui, a lógica social é invertida: primeiro eu confio e, se você fizer algo que quebre essa confiança, então, aí sim, não confio nunca mais.

Toda essa palestra para que vocês compreendam o quão fácil seria – quebrando-se, obviamente, a senha – fazer a festa com um cartão de crédito encontrado por aí.

Ok. Chego, então, ao restaurante da loja, em desespero, dirijo-me a moça responsável por recolher os carrinhos de bandeja e explico a situação. Muito gentil e com um fortíssimo sotaque não-alemão, ela me pede calma e que aguarde ali mesmo por enquanto. Tratava-se claramente de alguém não nascido na Áustria, pois o sotaque lembrava ou o sérvio-croata ou até mesmo o turco. Ela se dirigiu à cozinha e eu a segui, não consegui atender ao pedido de ficar ali esperando, de tão nervosa que estava. Lá de dentro, veio um rapaz, sorridente, que falava com a moça em um idioma o qual não pude identificar. Tratava-se, portanto, de mais alguém que estava tentando uma vida melhor na Áustria. Ele veio, viu que eu estava desesperada e me mostrou o cartão. Alívio absoluto!

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Na hora, ofereci uma gratificação à moça e ao rapaz. Ambos, no primeiro momento, relutaram muito a aceitar. Eu insisti. Eles resistiram novamente. Eu expliquei que, para mim, o gesto de honestidade deles era muito importante, pois eu vinha de um país onde a probabilidade de isso ocorrer era baixíssima. Até que na terceira tentativa, aceitaram. E o rapaz, dirigiu-se a mim para agradecer e o máximo que ele pôde pronunciar foi um “Tanke”, quando o correto seria “Danke”. Isso, na minha ótica, naquele momento, era o que menos importava. A lisura de comportamento era a linguagem que eu mais compreendia naquela hora.

Despedimo-nos sorridentes e cada um seguiu sua rotina.

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Dessa passagem, reforcei minha confiança na honestidade humana. Esse é o normal, o certo a se fazer e, não, o contrário. O contrário, sim, é o absurdo!

E, para aqueles que têm problemas com “estrangeiros”, que acham que eles vêm para cá – ou para qualquer outro lugar – “arruinar” com a economia ou “roubar” postos de trabalho dos cidadãos locais, deixo esse singelo exemplo: dois “imigrantes” salvaram meu dia. Sou imensamente grata a esses dois seres humanos, porque ao fim e ao cabo, é isso o que todos somos: seres humanos!

E sempre lembrando: um dia, o imigrante pode ser eu – e é isso mesmo que eu sou atualmente e, por essa razão, escrevi essa palavra entre aspas durante todo o artigo, porque eu também sou uma imigrante -, ou pode ser você.

Então, empatia, expansão de consciência e tolerância são sempre os melhores conselheiros quando nos deparamos com pessoas que não vêm do mesmo lugar que nós, que não falam a nossa língua, que não compartilham da nossa cultura. O diferente não significa perigoso!

Até a próxima!

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4 comentários

Nádia Dezembro 19, 2017 at 5:52 pm

Querida Ana,

Adoro suas crônicas e como descreve o dia dia Austríaco, me faz sentir um pouquinho aí, adoro a Austria.
Parabéns, continue compartilhando conosco história, aventura e cultura.

Feliz Natal ?

Resposta
Ana Dietmüller Janeiro 2, 2018 at 6:03 pm

Alô, Nádia.

Muito obrigada por ler e comentar.

Pode deixar que histórias pra contar é o que mais tenho.

Grande abraço!

Resposta
Wathina Farkas Março 15, 2018 at 7:05 pm

Menina adorei sua publicação…

Obrigada por compartilhar suas experiências..

Abraços!!!

Resposta
Ana Dietmüller Março 16, 2018 at 3:19 pm

Alô, Wathina.

Muito obrigada por ler e comentar.

Grande abraço!

Resposta

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