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Racismo e preconceito nos Estados Unidos

Aquele que não falamos o nome: Racismo e Preconceito nos Estados Unidos.

Quando me mudei para os EUA, além da alegria pelo doutorado, minha preocupação foi como enfrentar o preconceito racial. Tive a preocupação de não aplicar para universidades em estados com histórico de racismo, com a Carolina do Sul, por exemplo. Esses lugares simplesmente não entraram na minha lista, mas claro que não foi o bastante para me livrar do racismo. Existe (muito) preconceito no Brasil também, mas aqui nos EUA o preconceito é notório a ponto de termos separação física. É comum vermos bairros negros (ou asiáticos ou latinos) onde a maioria dos moradores é negra ou de uma determinada etnia. Não é mera coincidência que estes também sejam os bairros mais pobres.

De um lado, existe o estereótipo racista como “negros não gostam de trabalhar”, “negros vivem de assistência do governo” ou ainda “não são inteligentes o suficiente para ir para faculdade”. Do outro lado, a comunidade negra briga para provar o contrário e muitas vezes bate com a cara na porta. Muitas portas são fechadas pelo preconceito. Os negros não são os únicos sofrendo com racismo. Indígenas (Native American) e Latinos também sofrem preconceito e precisam brigar por um lugar ao sol.

Então, o que acontece num relacionamento interracial? Para começo de conversa, casamentos inter-raciais já foram proibidos nos EUA. Isso mesmo, legalmente proibidos. Um exemplo disso é que o ano de 2017 marca 50 anos da batalha judicial Loving vs. Virginia onde Joel (branco) e Ruth (negra) Loving  receberam o direito de se casarem legalmente. Há apenas 50 anos! Hoje, casamentos interraciais representam apenas 17% dos casamentos americanos.

Eu e meu marido fazemos parte desta estatística. À primeira vista, somos um casal de Caucasian e African American (como o negro é chamado aqui). Sendo brasileira e vinda de uma família portuguesa, indígena e africana, tenho tradições, religião, jeito de falar e de vestir que são diferentes do negro americano. Então, em 3 minutos de conversa identificam que sou negra, mas não sou African American. E daí vem o “what are you? ” Que seria “qual a sua raça? ” Ou “qual a sua etnia? ”. E tenho que explicar minha árvore genealógica para o deleite e estranheza do ouvinte.

No dia-a-dia, o preconceito racial varia muito. Desde olhares tortos de pessoas vendo um cara ruivo com uma negra até lugares que a gente evita ir para não ter dor de cabeça. Somos alvo de comentários dos brancos (“o que esse cara está fazendo? ”), e dos negros (“esse cara está roubando uma das nossas”, ou “essa menina está enfraquecendo a raça”). O preconceito existe de todos os lados. Algumas pessoas fazem piadas para mim (“you like some cream on your coffee”  “você gosta de leite no seu café”)  ou para o meu marido (“once you go black you can never go back“depois que você experimenta preto não tem volta”). A verdade é que estas “piadas” têm o racismo embutido e não vejo nada de engraçado nisso.

O racismo é normatizado nos EUA. Apesar do meu preparo emocional para encará-lo no trabalho e na sociedade, me surpreendo com ele em lugares que considero seguros. E é aí que dói mais. É como se as pessoas se policiassem no começo para não falarem nada preconceituoso perto de mim. Mas com o tempo, as pessoas relaxam, “esquecem” que sou negra, e falam o que vem à cabeça, sem filtro. Outro dia, um amigo recomendou evitar trabalhar no bairro tal porque é cheio de pretos. Respondi que me sentiria em casa neste bairro. Acabei gerando um intenso mal-estar, porque insinuei que ele era racista. E não era? É possível ser racista mesmo tendo amigos de outras etnias? Infelizmente, tenho sentido mais racismo desde que o novo presidente começou seu mandato por aqui, mas isso é assunto para outro texto.

Apesar do aumento dos relacionamentos interraciais nos EUA, temos um longo caminho para reduzir o preconceito. Talvez minhas amigas brasileiras de pele clara também tenham que explicar de onde seu sotaque é. Talvez elas também pareçam “exóticas” por serem brasileiras, fruto dessa miscigenação que é tão nossa. Como brasileiras, convivemos com a adaptação cultural e o choque entre as tradições mundo afora. Porém, acredito que minhas amigas brasileiras de pele clara em relacionamento com americanos brancos não passem pelas mesmas situações que eu e meu marido passamos como biracial couple (casal inter-racial). 

O preconceito racial está impregnado na sociedade, mas é algo tão ruim, tão feio que muitas vezes evitamos falar sobre ele. Ou como meu marido dizia no começo do namoro: talvez se não falarmos dele, ele deixe de existir. Eu acredito que quanto maior o debate, maior a possibilidade de entender nossas diferenças e superá-las. Não é só por um olhar torto no restaurante, mas também por um tratamento duvidoso nos ambientes profissionais, igrejas e qualquer outro lugar. Isso não pode ser considerado normal!

Como eu e meu marido lidamos com isso? Com muita conversa, amor e paciência. No começo do namoro, meu marido se revoltava quando alguém era preconceituoso, mas ficar indignado não basta. Hoje em dia, pensamos e procuramos uma alternativa cada vez que o problema acontece. Abrimos o diálogo sobre “aquele que não falamos o nome” para nossa família e amigos. Nem sempre é uma conversa agradável, porque não é fácil admitir que todos nós temos preconceito. Manter o diálogo sobre o que nos afeta é a única forma de aprender a respeitar o outro. Só temos a crescer com isso, e assim contribuiremos para uma sociedade mais justa aqui e em qualquer lugar do mundo.

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16 comentários

Mariana Dezembro 4, 2017 at 7:42 am

Ontem eu assisti ao filme Mudbound no netflix, que trata exatamente da segregação que existia nos Estados Unidos em meados da Segunda Guerra. Chorei copiosamente. Força!

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Carleara Weiss Dezembro 4, 2017 at 1:47 pm

Obrigada, Mariana!
Este filme é incrivel mesmo. Outro avassalador é “Twelve Years a Slave”. Vale a pena assistir, mas prepare pra chorar também.

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Ariane Gray Dezembro 8, 2017 at 4:09 am

Lendo o seu texto me veio à cabeça a sensação que tenho toda vez que conheço alguém ou converso com a cabeleireira ou lojista rapidamente aqui (moro na Florida, casei a pouco tempo com um americano depois de 2 anos de relacionamento) e notam meu sotaque, perguntam de onde sou, como vim parar aqui… e quando falo que sou casada com um local recebo aquele “oh ok…” chatinho, rançoso de “so mais uma latina desqualificada que arrumou casamento pelo green card”. Acho engraçado como eles se acham o objetivo dourado de todo ser humano na terra como se não existisse nenhum outro lugar bom… go figure :/

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Carleara Weiss Dezembro 9, 2017 at 5:43 pm

Sinto muito por você também ter passado por isso! Esse julgamento (sobre o casamento e green card) é horrível, mas infelizemente existe muito. Não se deixe abater, estamos juntas! 😉

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Marcelle Santos Junho 11, 2018 at 11:13 pm

Olá! Primeira vez aqui e gostei bastante do texto. Sou um jovem mulher negra e pretendo acplicar para os EUA esse ano para iniciar a graduação ano que vem. Tenho bastante receio sobre a questão do racismo fora e é bom ver que minhas preocupações não são banais. Estou pesquisando bastante sobre as unis e a diversidade dentro delas. Se tiver alguma dica para mim, lerei contente. 🙂 Força mana!

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Carleara Weiss Junho 12, 2018 at 4:27 pm

Obrigada por ler o texto! De fato, o racismo aqui não é tão velado quanto no Brasil. Pode assustar, mas não é motivo para desistir do seus sonhos.
Veja aqui algumas dicas sobre estudar nos EUA e se mander involvida com a comunidade científica enquanto estiver aqui.
https://www.brasileiraspelomundo.com/passo-a-passo-para-fazer-mestrado-ou-doutorado-com-tudo-pago-nos-eua-162028316 Texto da Paula Martins.
https://www.brasileiraspelomundo.com/brascon-e-o-empoderamento-da-comunidade-cientifica-brasileira-481279173 Texto meu.
Se precisar de dicas, pode entrar em contato comigo através do email [email protected]
Boa sorte! Força! Estou na torcida por você 🙂

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Lucas Junho 14, 2018 at 2:13 am

Ainda existe preconceito contra italianos nos EUA?

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Carleara Weiss Junho 14, 2018 at 2:37 pm

Oi Lucas, acredito que exista uma certa resitência pelo histórico da máfia italiana, mas não exatemente preconceito.

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Felipe Araújo Braga Julho 24, 2018 at 1:19 pm

Carleara, algumas perguntas…
O racismo é mais evidente no sul? No norte e no oeste dos EUA também há muito racismo?
O racismo nos EUA é maior do que no Brasil?
No ambiente universitário – que se pretende mais “esclarecido” – há racismo? Não é comum estudantes negros terem amigos brancos? Eles andam juntos? Nós brasileiros somos associados ao preconceito contra latinos? Pessoas pardas são classificadas logo como negras?
Desculpe tantas perguntas, é que fiquei curioso mesmo!

Resposta
Carleara Weiss Julho 25, 2018 at 3:35 pm

Olá Felipe,

O racismo está em toda a parte, mas os estados do sul são historicamente mais racistas que os do norte.
Acredito que o racismo no Brasil seja tão ruim quanto é aqui. A diferença é que no Brasil é mais “disfarçado”.
Infelizmente existe muito racismo no ambiente universitário, apesar de ser um ambiente “mais esclarecido” como você mencionou. Existe amizade entre diferentes raças e etnias, mas não impede de acharem que o negro, indígena, latino etc é inferior.
Pessoas pardas são negras. Não importa se a pela é clara, se for miscigenado com negro é negro.
Brasileiros são latinos e também são alvo de preconceito, porém bem menos que outros países como a Venezuela, por exemplo. Latino não são considerados brancos. Porém, os latinos com pele clara, ainda que miscigenados, tendem a sofrer menos preconceito.

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Silvia Novembro 17, 2018 at 12:20 pm

Estou por esses dias na Flórida, Miami Beach. Acidentalmente fomos parar numa dollar tree perdidos em um bairro até então desconhecido. Parecia que, como num passe de mágica tínhamos saído do estado, mas não: existe uma Flórida para negros e outra para brancos. É triste, mas em Miami Beach os negros apenas estão nos balcões de supemercados e lojas de departamento, onde inclusive não é possível encontrar um norte americano branco trabalhando como eles. O racismo aqui é cruel, o negro tem um lugar social. (Horas é mais horas em pé, em um emprego sem ou com pouquíssima seguridade social, uma vida bem sacrificada e diferente do que imaginamos para um 1° mundo).Muito parecido com o Brasil, que tem isso suavizado pela miscigenação. E apesar do maior poder de compra, a desigualdade social é gigantesca. Os negros não vivem os efeitos do primeiro mundo revestido em qualidade de vida propagado mundo a fora. Definitivamente, esse não é o país que o Brasil deveria sonhar em se transformar.

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Carleara Weiss Novembro 17, 2018 at 2:52 pm

Silvia,
Concordo com seu comentário. O negro tem um lugar social e a segregação social e racial dos Estados Unidos é gritante. É lamentável que tenhamos que viver segregados, mas sempre me animo quando vejo pessoas se indignando contra esse situação e se posicionando a favor da igualdade. Essa é a única solução para vivermos numa sociedade justa para todos, sem distinção.

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Sidney Janeiro 17, 2019 at 2:48 am

Nossa, como me sinto aliviado em ver seu depoimento e saber que eu não estava errado, que sim, o mundo é racista. Em uma viagem para Paris, entrando em uma farmácia me deparei com um segunça pedindo para revistar minha mochila. Fiquei muito chateado, pois percebi que aconteceu apenas comigo e com as pessoas que estavam comigo. Detalhe, no Brasil sou considerado “branco”. Sou descendente de italianos, portugueses e negros, mas minha pele é clara. Cabelos dito “lisos”. As pessoas que estavam comigo eram descendentes de índios e negros. Nesse momento, após a revista da minha mochila o segurança começou a nos seguir na farmácia, em todas as sessões que nós iamos estava ele lá, fingindo ser solicito, como quem queria se livrar logo da gente. Depois disso minha estadia naquela cidade não foi a mesma e pude perceber como existe racismo no mundo e como ele é normatizado. No Brasil ainda existem leis contra o racismo, mas infelizmente em outros países não. Fiquei muito triste, com muita raiva e decepcionado.O pior lugar da europa pra mim!

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Carleara Weiss Janeiro 17, 2019 at 2:41 pm

Olá Sidney, fiquei impactada com seu comentário. Sinto muito que você tenha enfretado essa situação. Infelizmente, o racismo existe e está cada dia mais evidente que não podemos nos silenciar diante dele. Também me sinto decepcionada quando algo assim acontece (e acontece MUITO nos EUA). Se existe algo positivo nisso tudo é saber que não estamos sozinhos e que podemos mudar nosso comportamento após sentir quão ruim o racismo é, e que não pode ser normatizado. Fique bem!

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Deyvid Fevereiro 28, 2019 at 12:34 pm

Sou negro e doutorando aqui no Brasil e em breve irei para Orlando realizar meu sanduíche. Nossa, considerando que não sou fluente no inglês, estou ainda mais temoroso em relação ao racismo.

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Carleara Weiss Fevereiro 28, 2019 at 9:40 pm

Oi Deyvid,
Em primeiro lugar parabéns pelo doutorado e pelo sanduíche. Tenho certeza de que será uma experiência incrível.
Em segundo, obrigada por ler o blog e deixar seu comentário. Infelizmente, a realidade é essa, mas não é o fim do caminho. Racismo é um problema, uma luta diária que é difícil, mas não é impossível. Você não está sozinho. Vai dar tudo certo. Estou na torcida!
Abraços,
Carleara

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