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Dica de passeio: restaurante Nocti Vagus em Berlim

Dica de passeio: restaurante Nocti Vagus.em Berlim.

Quanto mais velha, mais caseira eu fico. É fato! Não que eu não me divirta numa festa barulhenta, mas parece que a cada ano que passa, aumentam as minhas razões para ficar no aconchego da minha casinha.

Preocupada que eu me esconda numa caverna para sempre, minha cunhada decidiu me presentear com um cupom para um restaurante às escuras.

Apesar de ser caseira, ela sabe que eu adoro passar por experiências novas e que, como era presente, eu ia me obrigar a levantar do meu sofá e não fazer a desfeita de ignorar o presente.

Foi uma experiência tão diferente e divertida que eu decidi indicar a quem more ou esteja por Berlim e queira conhecer.

O restaurante se chama Nocti Vagus e fica em Prenzlauerberg, um bairro no centro da cidade, próximo a diversos pontos turísticos.

Se você é um bicho escondido na caverna, como eu, vou te convencer a sair através deste texto.

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O começo

No primeiro ambiente do restaurante parece tudo muito normal, igual a qualquer outro, mas assim que começam as explicações, dá uma mistura de curiosidade, empolgação e apreensão, porque aí você tem uma ideia do quão dependente se sentirá daquela pessoa que vai servir a sua mesa na total escuridão.

Restaurante Nocti Vagus, Berlim - foto por Bárbara Poplade Schmalz
Restaurante Nocti Vagus, Berlim – foto por Bárbara Poplade Schmalz

Eu fui com o meu marido, e ele é do tipo de pessoa que não perde a oportunidade de fazer piadas. Eu queria alguém para rir comigo, e foi ótimo porque, às vezes, você precisa ouvir uma voz conhecida.

Ainda na parte iluminada do restaurante, nos sentamos numa mesa, o garçom nos ofereceu uma sopa e com um sorrisinho disse: “Aproveitem, esta é a última refeição da noite que vocês vão enxergar.”

Ele também trouxe o menu, disse que precisávamos escolher uma bebida e qual seriam os pratos do jantar que sempre inclui: uma entrada, um prato principal e uma sobremesa.

A primeira opção eram três pratos vegetarianos, a segunda opção tinha carne vermelha, e a terceira era um menu surpresa onde você simplesmente não tem noção nenhuma do que está sendo servido.

Esta foi a minha escolha porque, como diria o filósofo Simba do filme Rei Leão: “Eu rio da cara do perigo.”

Depois de termos escolhido os pratos, nos disseram que Doren seria nossa garçonete e que estaria sempre por perto para nos atender e nos conduzir à toalete ou à saída, sem que trombássemos em tudo à nossa volta.

O que eu posso falar da Doren? Essa pessoa que nem conheço e considero pacas! (Risos)

Antes de explicar o porquê de Doren estar no meu coração para sempre, eu preciso contar que enquanto esperávamos com a nossa sopinha, um grupo de mulheres foram chamadas para a mesa e, em menos de 2 minutos, uma delas estava de volta dizendo que não conseguia, que queria ir embora.

Na hora, eu confesso que julguei a coitada. Que pessoa medrosa! Nessa idade e com medo do escuro, pelo amor do guarda!

Mas como o mundo dá voltas, quando chegou a minha vez eu entendi o que ela passou. Fomos levados para uma sala, à meia luz, onde esperávamos Doren.

De repente, a porta para a pura escuridão se abre, e de lá sai uma voz animada nos cumprimentando e pedindo que entrássemos com o braço estendido, para que encontrássemos o ombro de Doren (a voz na escuridão), que nos conduziria a passos de formiga para a mesa.

A primeira coisa que eu senti foi aquele medinho de escuro, da infância, me dizer: “Tinham esquecido de mim? Tô de volta, galera!” Mas tudo ficou bem assim que eu sentei e grudei a minha mão no ombro do meu marido, sem confessar aquele vergonhoso medinho de escuro que eu estava passando, claro.

E então, em meio àquela confusão de vozes, talheres batendo no prato – que realmente parecem mais altos e incomodam muito mais do que quando estamos usando todos os nossos sentidos –, Doren, com a simpatia em forma de voz, nos explicou onde acharíamos nossos copos e talheres, e indicou a colher de sobremesa como o ponto fixo para acharmos tudo na mesa.

Claro que não faltou uma sessão de piadas óbvias que a Doren já deve ter ouvido milhões de vezes, mas riu assim mesmo, talvez de pena de como podemos ser tão bobos.

E daí para frente, nós nos sentimos o tempo todo como crianças que estão no processo de desenvolvimento da noção de espaço.

É incontrolável a necessidade de mexer em tudo que está na mesa, estender as mãos em todas as direções e, de repente, acertar a cara do seu marido, ou dedos no molho do potinho ao lado do pão, oferecer uma cerveja e sem querer esfregar o copo na bochecha da sua esposa e, claro, rir muito de tudo isso.

Todos os pratos eram uma delícia e nós achamos que nosso paladar é tão maravilhoso que sabíamos exatamente o que tínhamos comido, só que não!

Erramos tudo! Ok, quase tudo. Eu acertei cuscuz e ruibarbo, de resto, se Doren não me contasse no final, eu ia achar que comi carne vermelha, rúcula misturada com gengibre e uma sobremesa de ruibarbo com sorbet de limão, quando na verdade… comi uma ave que eu nem sei o nome em português, um mix de folhas com uma raiz “chique-mique”, que eu nunca ouvi falar na minha vida, e a maior decepção da habilidade das minhas papilas gustativas: sorbet de toranja com folhado de ruibarbo e raspas de chocolate, que eu só percebi depois que me contaram.

Em meio à toda essa aventura, por alguns instantes, uma cantora e um pianista se apresentaram, e enquanto eu dançava de jeito vergonhoso, simplesmente porque ninguém estava vendo mesmo, Doren cantava perto de nós e dava quase para sentir que ela estava dançando. Se ela estava mesmo ou não, eu não sei porque descobri que não posso confiar nos meus sentidos, mas parecia que sim, que éramos capazes de notar o movimento à nossa volta.

Quando estava extremamente silencioso, meu marido resolveu falar alto: “Doreeeeeeeen!”

Que não, não tinha sumido e na mesma hora respondeu: “Estou indo!”

Era só um teste Doren, obrigada. Disse o piadista da família e bum! O universo castigou porque o talher dele caiu no chão e Doren de longe disse: “Eu ouvi, já sei onde está! Vou trazer outro.”

Foi assim que percebemos que aquela voz simpática que nos atendia, tinha uma habilidade incrível com todos os seus sentidos e, no fim, do jantar, de volta na salinha à meia luz, a voz simpática se transformou numa mulher loira, sorridente e que nos explicou ser deficiente visual.

Na mesma hora eu só consegui pensar que tive a oportunidade de estar por algumas horas no mundo dela, onde é preciso, em muitos momentos, simplesmente confiar nas pessoas em volta, enxergar com as mãos e os ouvidos, e acalmar o sentimento de solidão na risada de outra pessoa, ou prestando atenção na conversa da mesa alheia.

Telefone +49/30/74749123

Línguas: alemão e inglês.

 

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