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Sewell: A Cidade das Escadas

Sewell: A Cidade das Escadas

Que a Cordilheira dos Andes é mágica e imponente todo mundo sabe, porém ela não se resume a neve e estações de esqui. Encrustada em uma das cadeias de montanhas mais extensa do planeta, a 2.200 metros acima do nível do mar está a cidade de Sewell, também conhecida como Cidade das Escadas. Declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciências e Cultura), o antigo acampamento mineiro é hoje um destino turístico para quem gosta de historia, arquitetura e, principalmente, de locais que fogem dos roteiros tradicionais.

Apesar de ser um patrimônio da humanidade, o local ainda é pouco conhecido. Eu tive o privilégio de visitar a cidade por 4 vezes e em cada uma delas fiquei impressionada com os trabalhos de restauração e as novas descobertas que surgem dos mesmos. Neste artigo, conto para vocês um pouco da história dessa singular cidade dos Andes.

Localizada a 60 Km da cidade de Rancagua, Sewell é hoje uma área de propriedade da empresa nacional do cobre, a CODELCO (Corporación Nacional del Cobre), mas nem sempre foi assim. Tudo começou no ano de 1905 quando o engenheiro de minas norte-americano, William Braden, recebeu autorização para explorar a área que hoje é conhecida como mina El Teniente, a maior mina subterrânea de cobre do mundo, convertendo-se no primeiro assentamento mineiro-industrial do Chile.

Nessa época, o Chile era o grande exportador mundial de salitre e o cobre só veio ganhar importância com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Desta forma, o que era um simples acampamento mineiro foi adquirindo contornos de uma cidade e sua expansão teve início com a construção do setor conhecido como “Población Americana” no final do ano de 1910. Como o nome diz, este setor abrigava as famílias de técnicos e engenheiros vindos dos Estados Unidos para trabalhar na mina. Em 1911 foi construída a linha de trem que conectava Sewell a cidade de Rancagua facilitando o transporte do minério até o porto de Valparaíso e daí exportado para o mundo, principalmente, para a Europa.

Acervo pessoal: Centro de Eventos da “Población Americana”, Sewell, 2015.

Com o aumento da demanda de cobre, a cidade de Sewell foi se desenvolvendo e em 1916 já abrigava 9.000 habitantes. O auge populacional aconteceu em 1960 em que se atingiu a quantidade de 15.000 habitantes. Em 1918, a cidade já possuía escolas, cinema, 14 clubes e associações culturais e esportivas e no ano seguinte, foi inaugurado o hospital da cidade. Nesta época, a cidade adquiriu tamanha importância que as estreias de cinema e teatro aconteciam em Sewell e depois na capital do país, Santiago.

Acervo pessoal: Clube de Boliche Restaurado, Sewell, 2015.

Sewell também é conhecida como a cidade das escadas, isto acontece porque, diferente das cidades comuns que se desenvolvem ao redor de uma praça central, a cidade de Sewell se desenvolveu ao redor da escadaria principal que conecta os distintos setores da cidade e era o grande espaço público do local e grande centro de circulação de pessoas. Esta configuração se deve ao próprio traçado montanhoso da cordilheira onde a cidade foi instalada o que permitiu uma construção única e uma das mais originais do mundo.
O acampamento mineiro recebeu o nome de Sewell em 1915 em homenagem ao primeiro presidente da Braden Copper Company , Barton Sewell, quem incentivou fortemente a William Braden para que investisse no Chile. O curioso é que Barton nunca chegou a conhecer a cidade que leva seu nome. 1

Sewell foi uma cidade que enfrentou vários desafios, a dificuldade com o clima implacável e de frio intenso da Cordilheira dos Andes, o isolamento de outros centros urbanos, a grande quantidade de pessoas que se distribuíam e tinham que aprender a se organizar em um espaço pequeno e as diferenças culturais entre a maioria da população de operários chilenos e um pequeno grupo diretivo de norte-americanos constituem elementos que atribuíram as características culturais bastante particulares da cidade.

Acervo pessoal, Sewell, 2010

No década de 1950, começou-se a estudar a possibilidade de deslocar os habitantes de Sewell para a cidade de Rancagua devido à poluição gerada pela extração de cobre o que estava produzindo uma série de doenças, basicamente, de fundo respiratório na população local. Esta ideia só se concretizou entre 1968 e 1980 quando, por fim, foi possível remover todos os habitantes. Hoje em dia a exploração de cobre continua, porém com tecnologias mais avançadas que impedem a contaminação por ácido sulfúrico como aconteceu no passado.

Como parte da política de nacionalização das minas de cobre iniciada em 1967, o Estado chileno adquire em 1971 a maior parte das minas de cobre do país e em 1976 a mina El Teniente passa a ser propriedade da CODELCO.

A visitação a cidade não pode ser feita em carro particular, mas apenas com empresas de turismo autorizadas pela CODELCO, isto acontece porque a mina El Teniente é ainda ativa e continua a ser explorada, portanto existem algumas normas de segurança que precisam ser respeitadas. Por isso, a visitação turística só acontece nos fins de semana ou feriados e dependendo das condições climáticas. Para quem se interessar em visitar a cidade, segue o link oficial de Sewell com os dados das empresas de turismo autorizadas. guias turísticos em sua maioria são pessoas que nasceram em Sewell ou filhos de quem viveu lá, portanto, além de um panorama histórico, se pode ter uma experiência repleta de anedotas e memórias pessoais que atribuem à visita um caráter mais íntimo e bastante emotivo. Com certeza, vale a experiência de conhecer uma das cidades mais peculiares do mundo.

1 -Fonte: Sewell: La Ciudad de las Escaleras. Codelco Chile, División El Teniente. Enero, 2006.

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