Tourada na Espanha

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A tourada, junto ao flamenco, é uma das marcas de identidade da Espanha. Sobre o ritmo falarei mais adiante, porém sobre as touradas posso adiantar algumas informações. No mês de maio, a temporada taurina chega ao auge em Madri por causa das festas do padroeiro da cidade, São Isidro. Igualmente, na capital espanhola está localizada a Plaza de Toros mais importante do mundo, Las Ventas, onde todo toureiro que se preze deve passar ao menos uma vez na vida.

Mas, afinal, o povo aqui gosta ou não gosta? Os mais jovens, nem tanto; mas a atividade ainda rende dinheiro e muita gente a apoia. Os defensores dizem que as touradas fazem parte da tradição espanhola e os detratores argumentam que certos costumes tem que acompanhar os tempos e ser abolidos. É importante frisar que as touradas são proibidas na Catalunha e nas ilhas Canárias.

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Aspecto de Las Ventas em dia de tourada: bandeiras da Espanha e barraquinhas de comida.

No entanto, mesmo para quem é contra a fiesta nacional é impossível escapar de todo movimento em torno do evento. Os maiores jornais do país tem coluna diária sobre o tema e os canais públicos de televisão promovem debates do tipo “mesa-redonda”. Há bares que colocam telões para a clientela assistir confortavelmente e as touradas são transmitidas ao vivo, com direito a narração, replay e melhores momentos. Nas grandes livrarias é possível encontrar sessões de tauromaquia com biografias de toureiros famosos e tratados sobre o tema.

Assim que cheguei a Madri, resolvi assistir uma tourada para poder formar opinião. Como a minha ignorância na matéria era grande acabei indo em outubro, no fim da temporada, não a uma corrida de touros e sim, às novilladas. A corrida de toros, tourada em português, envolve animais acima de 600 kg e a novillada é para reses abaixo deste peso. São os toureiros em começo de carreira, mas muito promissores, que participam das novilladas. Vamos dizer que eles são a divisão de base que estão a ponto de passar para o time profissional.

Para começar, a Plaza de Toros é dividida como um estádio de futebol. Tal qual o Maracanã, o que determina o preço é a visibilidade da arena: há os lugares mais altos e no sol, baratos; e lugares na sombra e baixos, mais caros. Como a novillada não é tão importante como a corrida, os preços eram iguais para todos e estavam em conta. Fiquei embaixo, na sombra, que pode chegar a custar 250 euros em dia de “Fla x Flu”, se você conseguir ingresso. Não há conforto, pois a construção é de cimento. Se você quiser sentar em algo mais macio tem que alugar almofadinhas.

 

O objetivo da corrida de toros ou da novillada é o mesmo: matar o animal. Como? Cada toureiro tem que provocar o bicho e para isso, é ajudado pela “quadrilha”: três colegas que o assistem e os “picadores” que vão espetar o touro com lanças pontiagudas. O toureiro terá três tempos ou tercios, que duram uns oito minutos, para exibir suas habilidades e matar o touro.

O ritual é bem definido. Primeiro entram dois cavaleiros que fazem uma saudação ao camarote real, ao presidente e aos árbitros; em seguida, entram os toureiros acompanhados de suas quadrilhas, os picadores, as mulas que retiram os cadáveres e o pessoal da limpeza. Saudações feitas às autoridades e ao público, começa o espetáculo e soltam o bicho. A quadrilha e o toureiro o provocam. Esta parte é emocionante. Incrível ver um homem se medir com um animal que pesa meia tonelada! Mas soa o clarim. Fim do primeiro tercio. Entram os picadores. Um deles deve ferir o touro no dorso. Detalhe: os olhos dos cavalos dos picadores são completamente vedados, pois o touro investe contra ele impiedosamente. Após este primeiro ferimento, os quadrilheiros espetam as banderilhas no bicho. O sangue jorra e o touro fica fraco, cansado e enfurecido. Fim do segundo tercio.

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Toureiros, picadores, manutenção e, por último, os muleiros

Sem ajuda da sua quadrilha, toureiro e touro se enfrentam. O toureiro utiliza sua capa rosa para atraí-lo e o provoca com gritos. O toureiro exibe sua maestria manejando a capa, enganando o touro, pois este pensa que homem está por detrás do pano. Cada gesto parece uma dança, um balé e seria lindo, realmente, se o oponente não estivesse todo ensanguentado. Troca-se a capa rosa pela vermelha e com esta, a espada. O objetivo é cansar mais o touro e enfiar a espada no seu dorso, nos buracos abertos pelos picadores, direto ao coração. São três tentativas. Se o toureiro alcança na primeira é a glória. O touro morre imediatamente, o povo aplaude, acenam lenços brancos e ele percorre a arena agradecendo, recolhendo rosas, moedas e algum bilhetinho apaixonado atirado pela plateia. Se não consegue é vaiado e xingado como atacante que perde pênalti. Tive oportunidade de presenciar as duas situações acontecerem.

Este é um resumo de tudo que vi. Confesso que torci descaradamente para os touros e vários turistas não aguentaram ficar até o final. E vocês? Já presenciaram uma tourada? Gostaram ou não? Deixem um comentário sobre a experiência.

6 Comentários

  1. Eu não conseguiria – e nem gostaria – de assistir a uma tourada :/ não sei como as pessoas ainda gostam de ver, e torcem! Na minha opinião é um espetáculo de tortura, medieval, e já tá tarde pra ser totalmente proibido… Mas cultura é cultura né! E mudanças são difíceis de ser aceitas na cabeça dos tradicionais… Ainda mais quando rola (muito) dinheiro de turismo envolvido. Dinheiro sujo, só o que eu acho. rsrs

  2. Isso – tourada- é uma das coisas mais repugnantes que existe. É uma absurdo que isso ainda aconteça. É crime. Independente de ser tradição ou não. Crime é crime, seja atual ou não. Qual a mensagem que essa prática passa? Machucar animais só pelo prazer egoísta e insano do ser humano. Não passa nada construtivo para ninguém, menos ainda para as crianças. Ainda bem que na Catalunha e nas Ilhas Canárias isso é proibido, em alguns lugares a humanidade existe.

  3. Absurdo total…! Ainda bem que a energia que mandamos para o universo é a mesma que recebemos..!
    Ninguém entende porque coisas ruins acontecem em nossa vida, doença incurável, ou um estupro e etc. Com certeza mais ou mais tarde será inevitável estes toureiros, começarem a colher o próprio plantio. Esta é a lei do retorno, o mais certo da vida na Terra.

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