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Tráfico de crianças em Missouri

Decidi sair do Brasil por diversos motivos, um deles, certamente o primordial, é a escassez de segurança, a impossibilidade de usufruir do direito de ir e vir, de trabalhar e ter. No Rio de Janeiro não podemos caminhar nas ruas com o celular à mostra, evitamos usar vestimentas e acessórios de marcas famosas, nos privamos de tudo aquilo que julgamos chamar atenção, tementes aos criminosos que agem livremente em qualquer lugar e a qualquer hora do dia.

Não esqueço a última vez que andei de Uber na minha linda cidade, o motorista disse: “–Senhora, não coloque o cinto de segurança, se houver um assalto poderá descer com mais agilidade.” Eu estava com a minha filha de 1 ano no banco de trás e compreendi mais do que nunca os portadores de síndrome do pânico. Entendi também o porquê da maioria dos cariocas não utilizar a cadeirinha de bebê, por receio de assaltos e falta de tempo para retirar seus filhos, tê-los sequestrados ou tornarem-se mais um caso “João Hélio”.

Ao chegar em Kansas City (Missouri), senti-me no paraíso, deparei-me com pessoas caminhando e correndo tranquilamente nas ruas com suas joias e equipamentos digitais de última geração, despreocupadas. Fui informada que ao discar 911 a polícia ou assistência médica é encaminhada imediatamente. Logo fiquei motivada a comprar um carro mais confortável e elegante sem a apreensão de ser roubada à mão armada, já que o índice deste tipo de crime aqui é quase nulo. A princípio achei que tinha encontrado a utopia que todo cidadão brasileiro almeja, entretanto, nenhum lugar é perfeito, e todo angu tem caroço!

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Nas primeiras semanas, como todo habitante normal, comecei a assistir ao noticiário local, e a nova realidade e novos medos me invadiram, havia me livrado de muitos males, mas era hora de encarar novos: tráfico de mulheres e crianças. O estado de Missouri fica bem no meio do país, consequentemente, tem duas rodovias interestaduais que o cruzam, a I-70, que vai de Utah até Maryland, e a I-35, do Norte ao Sul – iniciando em Minnesota (próximo à fronteira com Canadá) e vai até o sul de Laredo, no Texas ( fronteira dos EUA com México). Há outras rodovias interestaduais, porém essas são as mais importantes pois ligam fronteiras internacionais de ponta a ponta. Devido a essa facilidade de transição ágil entre estados e países, já que essas rodovias não possuem paradas obrigatórias, os criminosos que traficam drogas e humanos  escolhem Missouri como alvo.

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A primeira notícia a chocar-me foi a de uma criança que foi sequestrada ao descer do ônibus para entrar na escola. Grandes males acontecem em pequenos segundos, a agilidade de um ser maligno surpreende qualquer um. Na semana seguinte, minha cunhada contou-me que um menino havia sido sequestrado dentro do supermercado Walmart, ele estava no carrinho de compras. Poucos dias depois fui à missa com a minha sogra, sentei no último banco, minha filha estava brincando no meu colo quando uma senhora sentou ao meu lado e não tirou os olhos dela. A princípio não maldei, até que ela disse: “–Sua filha é muito linda. Não tire os olhos dela nenhum segundo, há uma máfia de tráfico de crianças e mulheres na região, meu neto foi sequestrado ano passado dentro de um hospital, checaram as câmeras e viram uma mulher levando-o. Nossa família ainda sofre muito, até hoje não tivemos notícias, os policiais estão fazendo tudo o que podem, mas até agora não o encontraram.” Fiquei atônita ao ouvir o relato da pobre avó e tentei confortá-la até que a missa começou e ficamos em silêncio. Minha pequena ficou irritada e precisei sair para acalmá-la. Para a minha surpresa, a mulher me seguiu. Achei o ato suspeito e voltei para dentro da igreja grudando na minha sogra, e para o meu alívio e cisma, ela não retornou, continuou lá fora e não a vi mais.

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A partir deste dia fiquei neurótica, via olhares maldosos de estranhos para a minha filha em todos os lugares. A maioria certamente era fruto da minha neurose, mas alguns, provavelmente, eram de fato maliciosos. Um belo dia, estava no parque de diversão Worlds of fun e fui abordada por um homem estranho. Ele elogiou a minha menina e começou a perguntar quantos anos ela tinha e a data do seu aniversário. Maliciei de imediato e observei que ele estava sozinho em uma fila de brinquedos para crianças de 2 anos. Desconversei, sai de perto, e minutos depois o vi em outra fila novamente sozinho, apressei o passo e fui para o outro lado do parque. Pensei em ir embora, mas refleti e conclui que se eu não deixei a cidade do Rio me enlouquecer, onde morre mais vítimas de assalto e bala perdida que na guerra da Síria, então eu não deixaria que aquelas situações em Missouri tirassem a minha alegria de viver. Precisamos ser cautelosos e observadores, mas não podemos deixar o nosso medo nos privar de viver. Dias depois, meu marido e eu fomos fazer compras no Country Club Plaza, andávamos calmamente empurrando o carrinho com a nossa bebê quando uma mulher excêntrica nos parou no meio da rua e começou a fazer perguntas atípicas sobre a nossa filha, como por exemplo, se ainda usava fralda e se já falava. Dei as costas imediatamente, puxei o meu marido para dentro de uma sorveteria e disse: “Se ela vier atrás de nós, ligarei para o 911 sem hesitar!”.

É preciso muito discernimento para aprender a lidar com situações que não estamos habituados. Ao pesquisar bastante sobre o assunto, encontrei o site Snopes, onde há um artigo que adverte sobre falsos rumores espalhados a respeito da epidemia de sequestro de crianças em Kansas. Além do mais, Missouri é um estado muito bem estruturado, inclusive há um sistema de alertas que avisa toda a população através de mensagens de celular, estações de rádio e TV quando algo alarmante acontece, tais como Silver Alert (alerta prata) designado quando algum idoso desaparece devido a doenças degenerativas, Amber Alert para a abdução infantil e Severe Weather Alert (alerta de tempo severo) para notificar previsão de catástrofes meteorológicas. Juntamente com o alerta, as informações sobre os desaparecidos e criminosos aparecem para que toda a população possa ficar atenta e auxiliar na busca.

Não há lugar perfeito para se viver, há pessoas de má fé capazes de todos os tipos de atrocidades em qualquer lugar do planeta, mas saber que estamos em um ambiente bem estruturado e que nos dará toda a assistência caso precisemos, conforta um pouco os nossos corações.

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