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Um espanhol totalmente cubano: o cubanês

Um espanhol totalmente Cubano: o cubanês

O idioma falado nessa ilha lembra o espanhol. Mas aí você me diz: o idioma oficial é o espanhol. Sim, mas do espanhol mesmo fica só a lembrança, o que é forte na ilha é o “cubanês”. Os cubanos se esforçam para não deixar o cubanês sair quando falam com estrangeiros, mas quando estão falando entre eles, esqueça, mesmo que tenha se formado em espanhol, não vai entender o que estão dizendo.

E, pasmem, mesmo para as pessoas que têm como idioma nativo o espanhol, como um peruano, um mexicano, um colombiano, elas têm dificuldade em entender o “cubanês”.
Aliás, Cuba é “muito cubana”. Deixa eu me fazer entender. Existem muitos estrangeiros que vivem por aqui e, de verdade, os cubanos são muitos abertos, como nós brasileiros, em assimilar, conhecer e incorporar em seus hábitos novas culturas, diferentemente de outros povos.

Eles são muito nacionalistas, sim. Entretanto, isso não impede sua curiosidade e seu desejo de conhecer o novo. Vejo a ansiedade deles em me conhecer e aprender comigo coisas diferentes. É impressionante! Porém, é totalmente antropofágica a maneira como assimilam. Porque viver em ilha já é um fator isolante e aqui temos a dificuldade na importação o que deixa tudo muito caro. E assim com o pouco que trazemos de matéria prima de nossos países, eles dão o jeitinho deles fazendo tudo à moda cubana, ou seja, com matéria prima da ilha. Conclusão, os novos costumes se tornam uma mescla de influência de outros países com coisas que são muito cubanas. Se vocês pensam que só nós abrasileiramos tudo, sabe de nada inocente! Venha a Cuba!

Leia também: Nossa língua portuguesa

O melhor exemplo disso é o idioma. A colonização espanhola deixou o idioma espanhol e, a partir dele, eles fizeram o “cubanês”. Sei que isso acontece em muitos países de colonização espanhola que acabaram incorporando expressões e palavras muito particulares. Mas isso aqui é mais do que simplesmente adquirir novas palavras, ou qualquer outro complemento, parece um novo idioma, de verdade. Um youtuber cubano, Frank Camallerys, explica isso muito bem em um vídeo do seu canal, Como hablamos los cubanos, apresentando algumas frases e palavras só compreendidas pelos cubanos.

Passei por muitas situações que me fizeram ter essa percepção, apesar de morar em Havana há tão pouco tempo. Tive alguns problemas estruturais na casa assim que cheguei e, por isso, me embrenhei no mundo da prestação de serviços, de materiais de construção e tive que me virar para entendê-los, mesmo eles se esforçando para falar em espanhol.

Em uma dessas andanças para encontrar cano, cimento, tinta… conheci uma espanhola que estava vivenciando a mesma coisa, a dificuldade em entender o que diziam. Agora imaginem se estava difícil pra ela, “dona” do idioma, eu estava no limbo entre o desespero e a vontade de fazer dar certo tudo o que eu precisava fazer.

E é claro que você que chega na ilha a passeio vai entender tudo porque, nas zonas turísticas, tudo tem que ser entendível. Então, não se preocupe. Mas é uma boa experiência fazer uma imersão nesse novo idioma e curtir bons momentos falando com eles e tentar entender as conversas entre eles, eles amam conversar, sobre todos os assuntos. Eles são super antenados com tudo que está acontecendo no mundo: sim, os cubanos, em geral, são bem informados e têm alto nível cultural, além de serem muito receptivos e amáveis.

Pra você que já quer chegar, chegando e familiarizado com o idoma local, uma expressão que eles usam sempre é: ¿Asere, qué Bolá?  – ¿Amigo, cómo estás? (“O que está fazendo, amigo?”, “Onde iremos curtir uma balada, amigo?”, “Quais as novidades, amigo?”). Começar uma conversa assim é mais típico para os homens, pois não é bem visto para as mulheres. Mas é tão comum que encontrará em nomes de restaurantes, em camisetas, em grafites pelos muros da cidade…

É uma maneira de entrar no mundo totalmente cubano! E foi assim que Barack Obama se conectou com Cuba quando esteve na ilha, usando o ¿Qué bolá?, via Twitter, para avisar da sua chegada, gesto registrado em matéria pela BBC.

Q´Bolá como nome de bar e restaurante, usando o cubanês como identidade nacional
Q´Bolá como nome de bar e restaurante, usando o cubanês como identidade nacional – Foto: acervo pessoal

O Asere, que Bolá poderia equivaler em português com: “Fala, velho!”, “E aí, cara!”, “Beleza, meu irmão!”. O Bolá é totalmente cubanês, assim como muitas outras palavras do idioma que ainda não conheço, mas é uma das mais famosas fora do mundo cubano. Não se pode dizer que é um verbo, apesar de funcionar como um e ter vários significados, assim como asere, igualmente famosa, principalmente por estar registrada em várias canções de sucesso, podendo significar: sócio, amigo, irmão. Esse idioma é muito versátil e mais musical que o espanhol, em minha humilde opinião, como podemos sentir nesse refrão:

Que bolá aseré que bolá! Mi hermano como te va?

Qué bolá aseré que bolá! Donde tú me llamas? Donde tu tas?

Qué bolá aseré qué bolá! En la luchita que no hay más ná!

E não só na música, mas também em outros segmentos como cinema, na literatura, nas novelas, nas artes como um todo, enfatizando bem a pronunciação como identidade, o cubanês saiu das ruas e tomou todos os espaços e movimentos culturais do país. O filme Habanastation, safra contemporânea do cinema cubano, mostra dois meninos conversando no pátio da escola e no diálogo um diz ao outro: ¡Asere!, ¿tú has jugado play station?(Amigo, já brincou alguma vez com playstation?).

Existe um escritor cubano, Lorenzo Lunar, que escreveu El asere ilustrado. Isso mostra que antes o que julgavam ser linguagem de rua, vulgar e informal, passou a ter valor de identidade nacional. E assim a vida anda, e assim a vida muda e a cada dia eu me encanto mais com esse país que é apaixonado pelo meu país.

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