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Machismo e violência contra a mulher no Chile

Infelizmente, o machismo e violência contra a mulher no Chile é bastante visível.

Andar pelas ruas e escutar homens assobiando, usando expressões chulas para referir-se a alguma parte do corpo da mulher que não pode reclamar ou se defender para não ser ainda mais agredida com xingamentos e ofensas do tipo mulher frígida e anormal (como se o normal fosse aceitar esse tipo de comportamento!) também é bastante comum em território chileno. Esse tipo de comportamento não é exceção por aqui, o mesmo acontece no Brasil, na Argentina, na Índia e em outras partes do mundo como se fosse uma epidemia.

O Chile, historicamente, é um país bastante machista e conservador, tanto que ser mulher atualmente é uma luta diária para romper com uma série de estigmas, mulheres que pensam por si mesmas e tem opinião própria ainda são vistas com muito assombro. Infelizmente, como em vários países, a mulher ainda é considerada um objeto ou uma propriedade privada.

Este tipo de situação é tão comum que até pouco tempo atrás, o piropo (como se denomina, em gíria chilena, o assédio às mulheres nas ruas) era considera parte da cultura local, como se fosse algo intrínseco que todas as mulheres deveriam aceitar como elogio. Tanto que as cifras de agressão física e psicológica nos relacionamentos são bastante altas. Há alguns anos, vi uma reportagem em um jornal local sobre o assunto e mostrando, inclusive, que quando a agressão acontece em espaço público, as pessoas em volta não reagem para defender a mulher, como se fosse algo que ninguém pudesse se intrometer, como se fosse um “problema” de casal, algo que deve ser mantido e resolvido em privado.

As estatísticas mostram que no ano de 2016 foram registradas 93.545 denúncias de violência familiar segundo dados da Subsecretaría de Prevención al Delito. Desse total, 72.172 foram realizadas por mulheres. Isso que estamos falando dos dados de mulheres que fizeram alguma denúncia, existem muitos casos que nem sequer entram nas estatísticas já que a vítima tem medo ou se sente intimidada em denunciar ou há muitos casos em que a denúncia é retirada pelos mesmos motivos. De acordo a Red Chilena contra la Violéncia hacia las Mujeres, até meados de 2017 foram registrados 43 femicídios (homicídio produzido contra a mulher pelo fato de ela ser mulher) e 1 suicídio femicida (situação em que a vitima tira a sua própria vida devido à violência de gênero).

Em maio de 2016, houve um caso de violência de gênero que chocou e continua abalando a sociedade chilena pela frieza da agressão e por revelar publicamente as raízes do machismo nas instituições do país desde o tribunal à mídia local. Nabila Rifo foi perseguida por seu ex-companheiro, Mauricio Ortega, que carregava um bloco de concreto, a agrediu na cabeça e arrancou seus olhos. Abandonou a mulher à própria sorte, a qual foi encontrada em plena via pública com o crâneo e os dentes fraturados e sem os olhos.  Segundo a própria vítima, ela se fez de morta para evitar ser assassinada pelo agressor.

Como se não bastasse toda a violência sofrida, Nabila ainda foi humilhada ainda mais em diversas situações. A primeira delas ao ouvir, em um canal de TV local, uma entrevista com uma amiga do agressor que afirmava que a própria Nabila era responsável pela violência sofrida. É bastante comum esse tipo de argumento que tenta inverter a ordem dos fatos e buscar na vítima algum motivo que a torne culpada. O estranho é escutar isso de outra mulher que não mostra nenhuma sensibilidade.

Durante o julgamento do agressor em que diversas testemunhas foram chamadas para depor, Nabila ainda foi obrigada a presenciar a exposição de toda sua vida ginecológica quando o advogado de defesa de Mauricio Ortega chamou ao tribunal o seu médico ginecologista o qual apresentou todo o seu histórico de consultas em detalhes. Este mesmo histórico caiu em mãos de pessoas de um canal de TV local que o divulgou ao vivo para todo território nacional. Não basta toda a violência sofrida por Nabila durante as agressões por seu ex-companheiro, ela ainda teve que ser exposta, julgada e criticada pelos olhos de uma sociedade conservadora e machista, mesmo por mulheres com pensamento machista que buscavam alguma forma de justificar a violência (como se fosse possível alguma justificativa!) e culpar Nabila pelo acontecido.

No dia seguinte, este mesmo canal de TV pediu desculpas públicas e foi multado pelas autoridades locais após a grande repercussão nas redes sociais. Porém, o estrago já havia sido feito, Nabila agora tem que lidar com mais esta ferida.

Como se não bastasse Nabila sofreu mais um golpe, desta vez por parte da Corte Suprema cujos juízes, todos eles homens, decidiram por reduzir a condenação de Mauricio Ortega de femicídio frustrado para delito de lesões graves. O argumento utilizado aponta que não ficou demonstrada a intenção de matar do agressor. Ora, o agressor profere um golpe no crâneo da vítima com um bloco de concreto e lhe arranca os olhos e não houve intenção de matar???

Mas Nabila não estava sozinha, várias representantes de organizações não-governamentais protestaram na frente da Corte Suprema com gritos de ¿Dónde estaban cuándo las mataban? (Onde estavam quando as matavam?) e tingiram de vermelho a fonte d´água em frente ao edifício da Corte como forma de mostrar a indignação das diversas vítimas de violência de gênero e a cumplicidade da justiça chilena frente a este e tantos outros casos de mulheres agredidas ou mortas por seus parceiros e agressores que assim como Nabila devem conviver com a injustiça e a humilhação que não encontram apoio nem mesmo nas instituições públicas.

Infelizmente no Chile ainda não existe uma lei que tipifica de forma explícita e específica a violência de gênero. As agressões sofridas por mulheres acabam sendo incluídas na lei de violência intrafamiliar. De qualquer forma, o caminho mais adequado para mudar essa realidade é através da denúncia. Existem diversos meios para se fazer uma denúncia que pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha conhecimento das agressões diretamente nos tribunais de família, nas fiscalías ou Ministério Público, nas delegacias dos Carabineros ou da Polícia de Investigação (PDI) ou também através do FONO VIOLENCIA (800 104 008) de forma anônima e  a qualquer hora do dia ou por meio do número 149 Fono Família de Carabineros.

O caso de Nabila será levado a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) com o objetivo de buscar justiça diante da redução da condenação do agressor determinada pela Corte chilena.

Leia sobre a cidade das escadas no Chile!

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3 comentários

Solon Mota e Silva Outubro 14, 2017 at 2:07 am

estive 3 vezes no Chile e não vi assédio e ataques a mulheres,tão comuns no Brasil.talvez veio depois da decada de 80.

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Rana Fevereiro 9, 2018 at 1:43 am

Moro no Chile agora 2018 e existe muuuuito assédio contra mulheres sim, homens de todas as classes falam coisas desagradáveis e até pegam na mão sem nenhuma autorização. É nojenta as abordagens.

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Lorena Fontes Março 9, 2018 at 4:15 pm

Tô chocada com o caso da Nabila. Como ela teve força pra suportar tudo isso? Eu teria desistido, muita humilhação e injustiça.
Ser mulher é um desafio diário.

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