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Visitando o Brasil após quatro anos

Por que demorei tanto?

Como dizia Guimarães Rosa, “O correr da vida embrulha tudo”. Trabalho, pesquisa, mais trabalho e mais pesquisa. Atividades corriqueiras do dia a dia embrulham tudo e nos fazem adiar o que não coube na to do list.  A gente vai adiando conseguir dar conta do trabalho e quando vê, passaram-se anos. A gente vai adiando as coisas para conseguir fazer tudo e quando percebe, já se passaram anos.

Ficar tanto tempo longe não foi uma escolha, foi acontecendo. Diante de escolhas e conquistas, fui adiando a ida ao Brasil. Nesse tempo de espera, recebi a visita da minha mãe e de amigos queridos, mas confesso que estava perto do meu limite de saudade de casa. Então, depois de adiar, de mudar os planos várias

Mudanças por toda a parte

É fácil achar que a vida mudou apenas porque moramos fora. Para quem ficou no Brasil, morar fora parece glamour e para nós que estamos fora, a vida no Brasil parece mais fácil. “Ah. você tem sua família aí pertinho!” , “Vai dar tudo certo, você conhece todo mundo aí!”. A verdade é que mudanças são inevitáveis e não dependem de geografia. Algumas mudanças acontecem devagar e sutilmente, podendo ser imperceptíveis para quem está lá no mesmo lugar. Porém, essas mudanças se tornam intensas para nós, expatriados. Tudo porque as mudanças mexem com nossas referências. Aquele restaurante que eu amava, fechou. Mudaram a fachada do meu antigo prédio. Não dá mais para caminhar tranquilamente na rua. Não fazem mais aquela pizza que eu gostava. Não conheço esse artista famoso que os amigos falam tanto. As referências são outras e precisamos nos adaptar.

De um lado, o expatriado percebe que está por fora das músicas, das gírias, das piadas internas, das novidades das novelas. O que fazer se você perdeu as referências? Não se desespere porque a mudança chega para todos. Talvez seus amigos e família estejam sentindo a mesma coisa.

Leia também: Afinal, quem não tem saudade?

Por outro lado, ouvi dos amigos e familiares que eu não tinha mudado. Continuava a mesma menina magrela e sorridente. “A única diferença é que agora você é casada”. “Agora você é doutora”. “Li seu texto no BPM, nossa, não tem licença maternidade lá, né?” “E a BRASCON? Eu quero participar!”. Então, a verdade é que mudei muito, mas ocupo o mesmo lugar nas relações de afeto. O tempo e a distância não mudam os vínculos afetivos, apesar das referências terem mudado. 

Photo by rawpixel on Unsplash

Minha casa

Chegar em casa no Brasil teve um grande simbolismo. Cresci numa casa de onde via a igreja pela janela do meu quarto, igual à música “Paisagem na Janela”. Via uma igreja, um muro branco, vários pássaros voando, uma grade e um velho sinal. Quando voltei, a janela e a vista estavam iguais. Parece que as coisas pararam no tempo, no melhor sentido. A vista da minha janela trouxe um alento que não sei descrever em palavras. De todas as vistas de todas as janelas do mundo, com certeza esta é a mais bonita. Foi ali que comecei a me questionar sobre o que existia atrás das montanhas que eu via. Ali, também, eu decidi que precisava ir embora e ver pessoalmente o que só sabia por livros e filmes.

Ao retornar, porém, entendi algo que já ouvi de outros expatriados: a sua casa não é mais lá. Veja bem, a casa aonde cresci e morei “a vida inteira” com meus pais, sempre será a minha casa. Mas não é mais aonde eu moro, não é mais meu endereço. Quando senti isso, fiquei triste a princípio. Minha mãe, no alto de sua sabedoria disse: a casa é e será sempre sua, mas dessa vez você veio para visitar. Não é mais aonde moro, mas é o meu lar. Um lugar do mundo aonde pertenço mesmo não morando lá porque a referência não é o lugar e sim as pessoas que habitam nele.

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Recomeço

Foi dífícil fazer a mala para voltar para casa nos Estados Unidos. Confesso que chorei bastante. Rever meus primos, tios, amigos, conhecer meus priminhos, os filhos das amigas, rever meus afilhados… haja coração! Gostaria de ter ficado mais tempo. Dez dias não foram suficientes. Um mês talvez também não seja. Nestes anos fora me mantive produtiva trabalhando muito e batendo metas. Priorizei a vida profissional e negligenciei a pessoal. O burnout chegou e agora pelo bem da saúde física e mental preciso desacelerar. Por isso, infelizmente não consegui ver todo mundo que queria. Não consegui ir a todos os lugares. Perdi o casamento de um grande amigo. Infelizmente, não deu para fazer tudo, mas precisamos entender que isso também faz parte da vida. 

A visita rápida serviu para diminuir a saudade e reascender o amor pelo Brasil, pela minha cidade pequena, por minha Niterói amada e lembrar que o que me fez ir embora: a vontade de contribuir com eles. O amor pelo Brasil é algo difícil de explicar para os estrangeiros. A gente desembarca no aeroporto no Rio, sente a brasilidade e já abre um sorriso. As coisas estão longe de serem perfeitas, mas acredito que juntos podemos melhorar. Até meu marido gringo se apaixonou pelo Brasil e perguntou “como vamos fazer agora nessa neve, nesse frio?”. Respondi: “Vamos planejar a próxima viagem”. Até breve, Brasil!

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8 comentários

Claudia Fevereiro 9, 2019 at 5:57 pm

O que eu sinto agora é um sentimento de não pertencer. O Brasil vai ser sempre minha casa, mas ao mesmo tempo não pertenço mais lá. E tb não pertenço aqui. Cresci em outro lugar e as diferenças culturais só têm ficado piores com o passar do tempo. Por exemplo, outro dia vi uma moça com uma bota branca estilo paquita, e não tinha ninguém perto de mim que ia entender essa referência… Muito estranho isso ….

Resposta
Carleara Weiss Fevereiro 12, 2019 at 9:09 pm

Oi Claudia! Entendo esse sentimento… nossas referências mudam muito quando não moramos mais lá. Talvez por isso você sinta que não pertença mais ao Brasil. Por outro lado, é difícil sentir que pertencemos a outro lugar devido a tantas diferenças culturais, como você mesma disse. Acho que só o tempo e talvez construindo elos no outro país irão te ajudar. No meu caso, conviver com a família do meu marido ajuda bastante. Tomara que essa sensação de estranheza melhore para você! Grande abraço,
Carleara

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Mariana Tissi Fevereiro 11, 2019 at 12:51 am

Até breve Carle! E nesse breve, a Gi vai conhecer vocês e eu vou poder revê-la!

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Carleara Weiss Fevereiro 12, 2019 at 9:10 pm

Até breve, Mari! E ansiosa para esse breve ser logo para estar com vocês!

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Crenir Fevereiro 12, 2019 at 10:28 pm

Muito orgulhosa de você Carleara, parabéns você merece tudo de bom!!!!!!!!!!!! Que Deus te abençoe e sucesso!!!!!!!!

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Carleara Weiss Fevereiro 13, 2019 at 4:19 pm

Crenir! Que alegria ver seu comentário! Obrigada por ler e obrigada POR TUDO! Tenho muita gratidão por tudo o que você e sua mãe fizeram por mim. E tenho o mair orgulho da sua trajetória. Você é muito especial.
Que Deus continue te abençoando!

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Neide Fevereiro 14, 2019 at 11:00 pm

Oi prima, lamentei muito não poder te dar um abraço por ocasião de sua visita. Mas creio que não faltará oportunidade. Tenho estado às voltas entre o cuidado com minha mãe e os estudos. Tentando me adptar entre o trabalhio,estudos e cuidados e afazeres de casa. Mas não lamento, Deus dá o frio conforme o cobertor. Espero algum dia poder te dar um abraço com todo o sentimento de orgulho que sinto por você. Um beijão.

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Carleara Weiss Fevereiro 15, 2019 at 4:43 pm

Prima, nossa visita foi muito rápida. Esperamos voltar em breve com mais calma. Sei também que os cuidados com a tia, e a rotina do dia a dia estão tomando seu tempo. É importante estar presente nessas horas. Apesar da distância, estou daqui mandando forças. Orgulho da guerreira que você é! Cuide dela e se cuide também!

Beijos

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