Áustria – A Condessa, o brechó e as bombas: outra visão sobre consumo e desapego

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Mickey: aproximadamente 50 anos. Pertenceu ao pai. Legos e caminhão: aproximadamente 20 anos. Pertenceram aos irmãos. Piano: novo.
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Logo que mudei para Viena, as andanças da vida me fizeram conhecer uma moça que tinha algo de peculiar em seu histórico: ela era uma condessa! Sim, para um brasileira, parece uma coisa meio conto de fadas/monarquia, mas aqui na Europa isso não é incomum.

Ela jamais se apresentou como tal, mas os nomes germânicos que têm na sua formação a partícula von são, na sua imensa maioria, oriundos da nobreza, isso dispensa maiores apresentações, é público, notório e qualquer cidadão que more aqui, ou na Alemanha, sabe disso (ao contrário da Alemanha, que conserva as distinções até hoje, na Áustria, desde 1919, por força de lei (Adelsaufhebungsgesetz), são proibidas quaisquer diferenciações de tratamento a membros da nobreza austríaca, inclusive essa distinção junto ao nome. Exemplo prático: o neto do último imperador chamava-se apenas Otto Habsburgo, e, não mais, Otto von Habsburgo). Pois bem, quando trocamos a primeira correspondência eletrônica, vi o nome completo de Marie, que nascera na Alemanha. No nome havia, portanto, um von e eu já sabia com quem me depararia.

Frequentávamos a casa uma da outra, íamos nos aniversários uma da outra, cozinhávamos juntas, passeávamos juntas, enfim, amizade normal de duas mulheres da nossa geração. Pessoa educadíssima, de hábitos simples e vida tranquila.

Passados os dias, ela me informa da sua gravidez! Ao se aproximar o nascimento, marcamos um último passeio. Enquanto andávamos, ela me dispara uma série de perguntas, no mínimo curiosas, levando-se em conta sua origem familiar: “Ana, você sabe onde se vendem roupas de bebê, usadas, aqui em Viena? Não vou comprar nada novo, porque seria desperdiçar dinheiro bom em produtos que terei de doar daqui 2 ou 3 meses por conta do crescimento da nenê. Se você souber também de local onde se vende carrinho e berço, usados, eu agradeço.” Eu respondi  às perguntas, mas meu pensamento – à época, talvez ignorante, talvez estereotipado, hoje, graças a Deus, não mais – só me martelava o seguinte: “Uma condessa pedindo endereços de brechós???!!”. Sim, dona Ana, qual o problema nisso? O que tem a ver a elevada condição social da Marie com a inteligência que ela emprega na utilização do seu dinheiro?  E, mais importante: a decisão é pessoal, privada e merece respeito! Dei-me conta, nesse momento, de que meus conceitos velhos,”mofados” e de realidades estáticas precisavam, imediatamente, de reciclagem. Eu não tinha o direito de achar isso ou aquilo, ou de julgar a decisão de Marie, fosse ela condessa, fosse ela plebeia!

Nós mesmos, em casa, já havíamos adotado essa prática da compra de produtos usados através da Internet. Fora as roupas do nosso Pinguinho, que vieram todas de presente do Brasil, tudo o que não fosse material de higiene, alimento e uso pessoal fora comprado de segunda mão. Isso – descobri convivendo, sobretudo, com minhas amigas – é uma atividade bastante corriqueira, pois o pensamento comum é: não investir na rápida desvalorização do dinheiro. A quantia que é poupada (e, por experiência própria, atesto que se pode poupar muito: o carrinho usado, que compramos por 60 Euros, custou 850 Euros, quando novo, segundo a família que nos vendeu), alguns pais aplicam no banco, investem em alguma viagem ou em algo que, verdadeiramente, necessite ser comprado novo.

Carrinho: usado, comprado já com 5 anos de uso.
Carrinho: usado, comprado já com 5 anos de uso. Fonte: acervo pessoal

Há pessoas que compram tudo novo? Claro que sim – e não há mal nenhum nisso – mas o que quero trazer é que a sociedade, de fato, raciocina o dinheiro. Não faz as compras por impulso, por moda ou por pressão. Eles são livres para fazer o que quiserem com o poder de compra que têm. Essa é a grande verdade! E ninguém se sente constrangido em dizer que comprou o carrinho no site de usados, ou reaproveitou o bercinho que foi do papai. Tivemos vizinhos que mobiliaram a sala do apartamento novo apenas com móveis usados, pois, segundo eles, com duas crianças na faixa dos 2 e 4 anos de idade, precisaram pensar na potencialidade de depreciação do mobiliário, o que não valeria o investimento em móveis novos. Quando as crianças contassem lá com seus 6 aninhos, aí, sim, referiram que comprariam tudo novo. Raciocínio igualmente interessante! Um dos amiguinhos do meu filho usou o carrinho que foi do pai, o qual foi também aproveitado por sua irmãzinha mais nova.

Por detrás de toda essa cultura de reaproveitamento de produtos há um fator preponderante: o estado de conservação das coisas. O povo tem uma obsessão por bem conservar seus bens, seja sob o ponto de vista estético, ou de limpeza. As coisas, usadas, oferecidas à venda têm o aspecto de recém saídas da loja: na sua imensa maioria, sem rasgos, sem manchas, sem sujeira alguma. Óbvio que você precisa examinar o que está comprando, e eu, antes da primeira utilização, fazia sempre uma limpeza reforçada e desinfecção, mas não mais que isso, como tirar manchas, costurar coisas, jamais! E, por experiência própria, digo que eles têm muito orgulho desse capricho, o que se vê pelos produtos anunciados.

Fatiadora de pão/frios: tem mais de 40 anos de uso. Cozedor de ovos: tem mais de 30 anos de uso.
Fatiadora de pão/frios: tem mais de 40 anos de uso. Cozedor de ovos: tem mais de 30 anos de uso. Fonte: acervo pessoal

Os próprios brinquedos do nosso pequeno: a maioria, ou foram do pai, ou dos irmãos, hoje, adultos. O primeiro bercinho foi do pai. Utensílios de cozinha, que usamos diariamente (foto acima), eram usados pela minha sogra para fazer a merenda escolar do meu marido. Estão inteiros, agora servindo o netinho.

Mickey: aproximadamente 50 anos. Pertenceu ao pai. Legos e caminhão: aproximadamente 20 anos. Pertenceram aos irmãos. Piano: novo.
Mickey: aproximadamente 50 anos. Pertenceu ao pai. Legos e caminhão: aproximadamente 20 anos. Pertenceram aos irmãos. Piano: novo. Fonte: acervo pessoal

E tudo aquilo que não é eleito como recordação de família, após não mais servir, doamos para a Cáritas da Áustria. Desde roupas, brinquedos, assento para carro, tudo! É a forma que temos de, de alguma maneira, retribuir e agradecer por tudo o que temos.

É evidente que a qualidade dos produtos de 40, 50 anos atrás é bem diversa da que temos hoje, mas o que pretendo ressaltar é a noção de conservação e desapego e não de descarte e consumo iminentes. É um exercício difícil no nosso século XXI? Talvez, mas não custa tentar.

Meu sogro costumava referir que alguém – como ele e toda a sua geração – que sobreviveu à guerra, via o mundo com olhos totalmente diferentes. O que ele queria dizer com isso? Que durante um conflito bélico, a conservação e valorização de tudo o que se tem é vital, pois amanhã, ou daqui a pouco, você pode não ter mais nada. E com ele, foi exatamente o que aconteceu, pois, de manhã foi para a escola e, quando retornou, não tinha mais casa: bombas haviam caído sobre ela! Uma criança pequena, seus 3 irmãos, pai e mãe, em questão de horas, ficaram a mercê do medo, da fome e da falta de tudo, e não esqueçam do tipo de inverno que faz aqui!

Uma pessoa que passa por esse tipo de experiência desenvolve um senso diferenciado de valorização e cuidado com as coisas. A nação inteira passou por isso! Talvez daí venha essa necessidade de bem guardar, limpar e conservar, mas isso é apenas uma cogitação minha.

E antes que me atirem paus e pedras, quero deixar bem claro que não estou exaltando a penúria nem a extrema austeridade; não estou sugerindo que se faça igual e muito menos pretendo destruir os sonhos das mamães em comprar um enxoval novo para os pimpolhos, até porque nem só de coisas usadas nós vivemos, pois também adquirimos artigos e brinquedos novos, assim como tudo mundo. Não é esse o ponto! A questão é que, sem sombra de dúvida, essas vivências acabaram por reciclar totalmente meu modo de ver e sentir as coisas, e, a partir delas, passei a refletir melhor sobre consumo saudável e racional, naquilo que faz sentido para mim, para minha família e para nossas finanças.

Simples e em paz assim!

12 Comentários

    • Olá, Rose Marie!

      Muito obrigada por ler e comentar.

      Quando nos deparamos com uma realidade totalmente diferente da nossa, acho interessante compartilhar a experiência! Não significa que devamos fazer igual ou parecido, mas o simples fato de saber que existe algo absolutamente outro no mundo, já é suficiente para nos entendermos como humanidade cheia de diferenças, de semelhanças, mas, no final de todas as contas: humanidade.

      Obrigada de novo e até o próximo artigo!

      Abraço!

  1. Concordo com sua abordagem e acho interessante e louvável esse desapego. Procuro também emprega-lo em meu dia-a-dia, mesmo morando no Brasil. Mas, …

    Vejamos. Para se comprar coisas usadas, alguém comprou, em algum momento, um objeto novo. Ou seja, em uma sociedade que todo mundo, até pessoas com posses, só compra coisas usadas, de onde vem as coisas novas?! Bem, isso é possível se considerarmos que tais coisas novas podem vir de esbanjadores de países vizinhos, Mas, …

    Em uma sociedade onde todos só compram coisas usadas, que vieram de localidades vizinhas, como pode haver e prosperar indústrias?! Sim, porque as indústrias produzem coisas novas, não coisas usadas! Bem, isso é possível também, se os esbanjadores dos países vizinhos compram as coisas novas produzidas pelas indústrias locais de seus vizinhos.

    Esse sistema pode perdurar por um bom tempo, talvez para sempre. Mas, apesar de concordar e também reutilizar bens (em minha casa eu sempre fico com o celular usado, trocado por um novo pela esposa), acho que há um valor e um prazer implícito ou intangível, impossível de ser quantificado ou monetizado, que só um bem novo e último tipo proporciona. Talvez esse sentimento seja incutido em nossa mente pela publicidade (apesar de achar que um homem das cavernas também sentia-se assim ao adquirir um novíssimo machado de metal adquirido na aldeia vizinha, em substituição a seu velho e usado machado de pedra), mas o importante é que não haveria a sociedade e a economia ocidental como conhecemos hoje se não fosse essa renovação periódica de estoques.

    • Olá, Francisco.

      Muito obrigada por ler e comentar.

      Concordo contigo. É necessário, sim, a inovação e, consequentemente a compra dessa inovação, mas meu ponto de destaque no artigo foi o de que os austríacos pensam bastante antes de fazer um dispêndio e, naquilo que é possível reaproveitar, se eles quiserem, eles não gastam. Só quis ressaltar que o consumismo na sociedade local não é impensado. Quando querem comprar novo, eles o fazem e quando querem reaproveitar, também o fazem.

      Meu intuito foi abordar o equilíbrio deles no momento de consumir e, via reflexa, o exagero de algumas sociedades em consumir de forma não muito saudável.

      Mas teu ponto de vista é pertinente, sim.

      Abração e até o próximo artigo!

    • Oi, Linda.

      Muito obrigada por ler e comentar.

      De fato, quando a gente muda de “vida”, sobretudo em uma cultura totalmente diferente da nossa, é inevitável o aprendizado.

      Mais uma vez, muito obrigada.

      Abração e até o próximo artigo!

  2. Oi Ana, gostei muito do texto e do “tom” sensato que você imprimiu nele.
    Sou especialista em Educação para Consumo e percebo o quanto as pessoas precisam desse tipo de exemplo para se sentirem seguras em consumir menos e serem felizes por isso. Paradoxo?! Sim,
    Observo que muitas pessoas encontram no consumo a satisfação de suas ansiedades e, numa sociedade em que adquirir produtos é muito fácil, atrelado ao fato de muitos produtos terem sinônimo de status, fica difícil a autorregulação, desenvolver hábitos sustentáveis, etc.
    Se me permite, vou utilizar seu texto com professores e alunos,

    • Prezada, Maria!

      Muitíssimo obrigada por ler, comentar e, mais importante de tudo: “trabalhar” com o artigo. Fico extremamente feliz em poder, de alguma forma, auxiliar na formação de pensamento saudável dos nossos jovens e, humildemente, do nosso corpo docente. Venho de uma família de professores, sei o quanto essas iniciativas são importantes!

      Tens toda razão, Maria. Em outro artigo meu, acerca das festas de aniversário infantis (http://www.brasileiraspelomundo.com/austria-a-industria-das-festas-infantis-121333525), embora tenha, igualmente, usado o que tu chamas de “tom sensato”, sofri críticas e até ofensas dos defensores das “gastanças” para se fazer um aniversário de um aninho, mas também – e com muita satisfação – recebi mensagens de agradecimento por poder empoderar as pessoas a não aderirem ao consumo impensado e desenfreado. Se quiseres, podes também utilizá-lo, com muita satisfação!

      Tenho uma teoria muito própria acerca da nossa evolução – brasileira – de pensamento: apenas e tão-somente a educação fará isso! Parabéns por saber utilizar o que de melhor a Internet tem, que é a rápida divulgação do conhecimento.

      Podes utilizar os textos, sem nenhuma restrição! Fico muito satisfeita e extremamente lisonjeada como “escrevinhadora” militante que sou!

      Um imenso abraço e até o próximo artigo!

  3. Estou lendo e amando os seus textos. Eu sou uma brasileira morando nos Estados Unidos a mais de dez anos. Sou cadasa com 3 filhos (e acho que ainda nao completamos nossa familia). Nao tenho do que reclamar vivendo aqui, e posso me relacionar (relate) com muitas coisas que voce escreve das suas experiencias na Austria. Eu tambem penso muito como ensinar aos meus filhos a nao serem materialistas e derem mais valor a experiencias e as pessoas.
    Na verdade apesar de nunca ter ido a Austria, tenho cidadania Austriaca por descendencia e meus filhos tambem tem cidadania e passaporte asutriacos (eles tem 3 passaports: USA, Austria, e Brasil). Nessas ultimas semanas tenho tido um sentimento muito forte que devemos nos preparar para morarmos na Austria por um tempo. Acho que seria uma experiencia unica e por que nao? Lendo seus textos so me da mais momentum para seguir em frente com meus planos. Nao estamos procurando por oportunidades profissionais. Ja estamos muito bem profissionalmente e acho que nao conseguiriamos nada melhor ai (meu marido tem um doutorado in advocacia e eu estou fazendo um mestrado em enfermagem que similar a um curso de medicina). Nossos planos seriam passar um ano de ferias em Vienaa com nossos filhos para que eles possam aprender alemao na escola ai, e passarmos tempo viajando em familia. Apesar de que eu gostaria de ter alguma oportunidade profissional, especialmente para ensinar na universidade. Bom, obrigada por compartilhar suas experiencias.

    • Olá, Nathalia!

      Muitíssimo obrigada por ler e comentar.

      Fico muito feliz que te identifiques com as coisas que escrevo.

      No que tange a passarem uma temporada aqui, creio que seria uma ótima experiência, pois, pelo que comenta meu marido (que morou muitos anos aí, nos EUA), são modos de pensamento e culturas totalmente diferentes.

      O país é lindíssimo e as coisas funcionam, mas em um ritmo em que é possível viver, trabalhar e aproveitar.

      Para as crianças seria, de fato, interessante, sobretudo aprender alemão.

      Se vierem, desejo uma excelente estadia e que curtam muito o que a Áustria tem de melhor a oferecer.

      Grande abraço e até o próximo artigo!

  4. Olá Ana,

    Adoro seus textos. Parabéns !!!
    Creio, todos os brasileiros deveriam ter acesso a eles e assim aprenderem um pouco mais sobre desperdício, consumo responsável, qualidade de vida e cooperação familiar.
    A educação ainda arcaica e valores machistas faz com que fiquemos a mercê de um passado que não funciona nos dias de hoje.
    Parabéns pelos comentários reais sobre o dia dia que faz, pelo menos para mim com que me sinta mais próxima da Áustria. Adoro !!!!
    Muitas felicidades para você e sua família, sucesso !!!
    Abraço apertado, aqui do Brasil ( Guarulhos – São Paulo )

    Nádia

    • Alô, Nadia!

      Eu é que adoro receber comentários como o teu! Muito obrigada por ler e comentar!

      É, nosso tempo requer constante reciclagem (não só de lixo) e o Brasil ainda precisa evoluir em alguns quesitos, mas tenho fé que esse dia chegará!

      No mais, tudo o que eu puder compartilhar de experiência boa e adequada, podes ficar certa de que não hesitarei em fazê-lo.

      Muito obrigada pelo carinho!

      E até o próximo artigo.

      Grande abraço!

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