Espanha – Transição continental: de Malta à Espanha

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Ciudad de las Artes y las Ciencias -
Ciudad de las Artes y las Ciencias - foto de acervo pessoal
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Quando decidimos deixar o Brasil e partir para um novo país, uma avalanche de sentimentos nos toma. Sair de uma zona de conforto e deixar família e amigos, cultura, ritos e idioma, nos coloca a prova se realmente vale a pena. Porém, do outro lado pesa o desejo por novas descobertas, aventuras e muita vontade de vencer e de provar a si mesmo que podemos ser fortes como um leão, mesmo quando, por muitas vezes, o gatinho indefeso nos aplaca.

Sentimentos similares são compartilhados pelos forasteiros que não se satisfazem ou que são levados ao movimento de mudança; aqueles que têm tatuados em seus corpos a famosa expressão alemã wanderlust (eu, literalmente a tenho), têm uma sensação de desconforto nas pernas e um desejo incontrolável de seguir um rumo, em qualquer direção. Um eterno recomeço. Não se sentir pertencente a um lugar que não seja o seu próprio corpo.

Vivenciei recentemente uma nova experiência: sair de um pais com características tão diversas do Brasil, mas que adotei com todas as suas estranhezas e, por isso, aprendi a amar e a me adaptar, e recomeçar em outro lugar. Não voltar para casa, mas buscar um novo lar, mesmo que temporário. Uma espécie de tester da AirBnB, experimentando habitações por um tempo limitado e com uma história material que cabe em duas malas.

Deixar Malta, não foi simples e menos doloroso, mas claro que não se comparou a primeira partida. Reviver os mesmos jantares e encontros de despedida, repassar por lugares prediletos para guardar a imagem na memória, refazer as malas…tudo isso gerou uma incerteza, a tal pergunta implacável: “Será que estou tomando a decisão certa?”. Mas, por outro lado, o vírus epidêmico dos “pés flutuantes” me trouxeram até a Espanha.

Minha vida não é uma ficção que me permite girar o globo e apontar um próximo destino com os olhos fechados. Bons e fortes argumentos e vantagens me trouxeram a Espanha.

Sou neta de um espanhol que fugiu da Guerra Civil. Meu avô, assim como muitas famílias, se fixou no Brasil, e através da Lei da Memória Histórica promulgada em 2007, pelo então primeiro ministro espanhol José Zapatero, obtive o direito à dupla cidadania e ao tão almejado passaporte europeu. Alem disso, já havia residido na Espanha, quando fiz meu primeiro intercâmbio aos 20 anos de idade. Facilidades, não superior ao amor pela terra de cores e festas, me trouxeram até aqui. Por fim, realizei meus planos de seguir meus estudos e minha vida no país que meu avô foi obrigado a abandonar, mas que nunca deixou de amar.

Em princípio, minha idéia era ir direto a Granada, mas conversando com uma amiga francesa que estava com viagem marcada para Valência, resolvi segui-la, assim me sentiria um pouco mais amparada, pelo menos nas primeiras semanas. Cheguei em Valência no início de novembro último, em princípio para estudar 6 semanas em uma escola de idiomas e melhorar minha gramática e escrita espanhola, porém acabei ficando.

Não era minha primeira vez na cidade, mas vir a passeio e viver são coisas bem diferentes…O início foi bem parecido com Malta. Estudar em uma escola com estrangeiros, falar e ouvir muito inglês, participar de festas com muita música e bebida, são coisas que nos abstém da cultura e costumes locais; é como viver apartado de uma rotina que se mantém a sua volta.

Conheci pessoas maravilhosas, mas que estavam de passagem. Em Malta, minhas maiores amizades foram com residentes e trabalhadores que tinham sua rotina estabelecida e viviam como autênticos malteses, mesmo não nascidos na ilha. Em Valência, conheci pouquíssimos brasileiros; mesmo acompanhando os grupos de redes sociais, aos poucos (bem lentamente) estou me inteirando dos valencianos e do seu dia a dia.

Acredito que a formação de uma rede de amigos, quando se vive em outro país, se diversifica de acordo com a origem e o intuito da mudança. Mulheres que acompanham seus maridos transferidos a trabalho, aventureiros que largam seu país em busca de uma melhor qualidade de vida, mesmo para viver ilegalmente, encontros frutíferos pela internet que resultam em abandono não só de estado civil, mas de todo o resto para estar ao lado da pessoa amada, estudantes e “wanderlusters”…cada um com seu motivo e com direções distintas.

Em Valência, estou me readaptando, me reinventando para parecer o mais local possível em um país, que apesar dos laços e proximidades, não é o meu. Malta está a apenas 1.300 quilômetros daqui, pertencem ao mesmo continente e pertencem a comunidade européia, mas as semelhanças param por aí. Ambos possuem praias e climas agradáveis, mas cada uma com a sua proporção.

Dizer que me arrependi ou que talvez não fosse o momento exato é meio precipitado, mas garanto que meu coração está na Espanha. É o mais próximo de um lar que pude chegar.

Minha saga por Valência continua e assim, aos poucos, minha rotina vai tomando forma e vou incorporando o estilo de vida valenciano, que proporcionará artigos talvez mais funcionais, mas sem perder a sensibilidade de quem vive e escreve com a alma.

Uma coisa posso antecipar: Valência é uma cidade encantadoramente linda, onde o medieval e o contemporâneo caminham lado a lado.

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