Filipinas – O desafio da gravidez e parto do outro lado do mundo

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À la Leila Diniz, em frente à Sentinela da Liberdade, no Rizal Park.
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A paixão é como Deus, que quando quer me toma todo o pensamento.

Dirige os meus movimentos, meu passo é dela, meu pulso é todo desse poderoso sentimento.

Este é meu segundo texto para o Brasileiras Pelo Mundo e, novamente, inicio com uma canção. É que a música tem o poder de definir precisamente algumas emoções. Pois foi com esse sentimento de paixão que eu saí do Brasil, grávida de 5 meses, rumo às Filipinas, para encontrar meu marido, que viajara 2 meses antes de mim.

Ele é do Serviço Exterior Brasileiro e foi removido para lá por ao menos dois anos. Quando descobri a gravidez, a remoção já estava certa. Eu tinha duas escolhas: ter o bebê no Brasil, perto da família e com o conforto de um pré-natal em minha língua materna, ou me aventurar rumo ao desconhecido e parir no sudeste asiático somente para estar perto do homem que amo, pai do meu filho. Adivinhem o que escolhi?

Em outubro de 2014, lá estava eu desembarcando no aeroporto de Manila, após uma viagem super cansativa que consiste em 14 horas de São Paulo até Doha – e mais 9 horas até a capital filipina.

Vencido o jetlag, era hora de começar a busca por uma obstetra. Na verdade, já havia pesquisado no Google ainda no Brasil e encontrei um blog de uma brasileira que morou nas Filipinas e teve bebê por lá. Deixei um comentário perguntando sobre a médica, imaginando que ela nunca fosse responder. Qual não foi minha surpresa quando recebi uma mensagem super simpática com o nome da obstetra e todas as boas referências do mundo.

Dr. Henson era o nome da médica. Marquei uma consulta para a semana seguinte. Ela foi gentil e me passou segurança, o que é muito importante. Mas preciso confessar que um pré-natal em inglês não é mole. Isso porque eu sou aquela típica pessoa que se formou na Cultura Inglesa, tem diploma de Cambridge e achava que dominava o idioma. Contudo, encarar todo um novo universo com um vocabulário super específico faz você se sentir meio analfabeta. Sério. Apelei para gestos, para palavras em português, até desenho eu devo ter feito.

A minha sorte é que ela é uma espécie de obstetra dos expatriados. Então, tem bastante experiência com eventuais ruídos de comunicação e diferenças culturais. Isso ajudou muito.

O acompanhamento foi tranquilo, com uma consulta por mês, em geral. Só no finalzinho da gravidez é que passou a ser quinzenal. O que observei da médica é que em nenhum momento ela pareceu querer induzir uma cesárea. Eu falei que queria parto normal desde o primeiro encontro e ela respeitou, dizendo que só faria uma cesariana em caso de necessidade. Ao contrário de relatos que escuto do Brasil, ela nunca nos sugestionou com argumentos de que o bebê era grande, que eu não teria condições etc. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), as Filipinas têm apenas 10% de índice de cesáreas, enquanto o Brasil tem 52%. 

O parto foi o momento mais incrível e sublime da minha vida. Não tenho nada a reclamar. O sistema de saúde das Filipinas é muito bom e eles têm excelentes médicos e enfermeiros. Entrei em trabalho de parto por volta de meia-noite de uma sexta-feira e peguei um taxi até o hospital, que fica a uns 15 minutos da minha casa. Lá, fui levada de cadeira de rodas até o andar das salas de parto, onde constataram que eu já estava com 3 cm de dilatação. Fiquei lá até o anestesista chegar. Ele me aplicou a peridural e eu segui em trabalho de parto até de manhã, quando começou o expulsivo. Meu filhote nasceu às 8h52 de um sábado, 7 de março. Filipe, em homenagem ao país que o acolheu. Que nos acolheu, na verdade, porque todos nascemos junto com ele.

Na sala de parto, esperando o momento do "push".
Na sala de parto, esperando a hora do “push” 🙂

Além das boas instalações do hospital e da excelente equipe, emocionou-me muito a visão que o país tem sobre a importância do contato do bebê com os pais logo após o nascimento. Na semana em que o Lipe nasceu, os jornais estampavam uma iniciativa linda para estimular o first embrace – medida simples, mas que traz um bem incalculável para a saúde física e afetiva da criança.

A todas as mulheres que encararam o desafio de ter um filho em outro país, minha mais profunda admiração. Não é fácil encarar mudanças culturais ao mesmo tempo em que vivemos mudanças físicas e emocionais profundas. É um momento em que é muito importante ter uma rede de afetos porque ficamos muito fragilizadas. Porém, como contar com essa rede de afetos num lugar novo?

Cada uma precisa encontrar seu mapa. No meu caso, contar com o pequeno grupo de brasileiras incríveis que conheci em Manila foi essencial. O Skype, Facebook e WhatsApp também ajudaram muito a lidar com a saudade da minha família e amigos, além de permitir que todos vissem a evolução da barriga. Compartilhar esses momentos com pessoas queridas também foi importante e deu a ilusão de proximidade – mesmo que eu estivesse lá do outro lado do mundo, numa ilha no meio do Círculo de Fogo do Pacífico.

Acho que o puerpério num país estranho é a fase mais difícil. Precisamente o primeiro mês, quando tudo é novidade e você ainda está se recuperando do parto. Eu tive laceração grau 4 e precisei de uma episiotomia, o que me fez sentir muita dor no pós-parto. Amamentar com dor, desconforto e lidar com as noites sem dormir é muito estressante.

Nessa fase, comecei a desenvolver uma raiva sem tamanho dos filipinos, tadinhos, totalmente injusta e sem razão. Quer dizer, a razão era simplesmente exaustão emocional, necessidade de estar perto do que me era confortável, enfim. Coisas irracionais, mas que são humanas, demasiadamente humanas. O importante é que passou e eu soube perceber que o azedume e impaciência nada tinha a ver com o país, mas comigo.

Minha dica, afinal, é: se você estiver grávida ou com um bebê num país diferente, respire fundo. Busque sua rede de apoio e pense em como a experiência vai enriquecer a todos no fim das contas. Você vai descobrir que é muito mais forte e corajosa do que imaginava. É o que chamo de dar um duplo twist carpado no desconhecido. Yes, we can do it!

5 Comentários

  1. oi Dany, adorei saber como foi a tua experiencia aí. Eu tb com certeza iria me aventurar pra estar junto do meu marido. Felicidades 🙂

    Grasiela
    colaboradora do Brasileiras pelo mundo no Canada.

  2. Oi Danyella! Sou do Rio de Janeiro e Meu marido está indo transferido para Manila (Makati??) em agosto de 2016. Estou gravida e terei minha bb aqui em junho! Só devo ir em setembro de 2016, com ela! Estou lendo todos os seus posts e com certeza te pedirei mil indicações, se não for incomodar! Adorei os seus relatos e estou ansiosa pelo que virá pela frente! Bjs

    • Oi Ligeany! Eu tenho uma gilha com um filipino, porem vivo no brasil com ela e o pai vive na filipinas, ele me pede muito para viver lá, mas ñ tenho coragem de deixar minha vida aqui para uma aventura.
      entra em contato comigo para trocar umas ideias.
      [email protected]

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