Meu primeiro ano na Finlândia e o lado B do país perfeito

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Foto: Javier Corso (FISHSHOT)
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Neste mês de agosto completo um ano de Finlândia! Minha nossa, como passou rápido!

Neste artigo, quero refletir e dividir algo um pouco diferente. Até hoje, só mostrei coisas positivas e vou continuar assim, no entanto, depois deste tempo aqui, me sinto um pouco mais preparada para compartilhar sobre um outro lado que acredito que também precisa de atenção.

Começo dizendo: eu realmente gosto de viver na Finlândia e sou grata pela oportunidade de estar aqui. Este país tem nos acolhido muito bem e tem nos dado uma qualidade de vida que não tínhamos. Mas nada é de graça, sempre há os sacrifícios e suas recompensas.

Tive vontade compartilhar isso depois de uma situação que presenciei. Situação, aliás, que já vivi diversas vezes nestes últimos 12 meses. Enquanto voltava para casa, dois rapazes de seus provavelmente 40 anos (acredito eu), mal paravam em pé de tão alcoolizados que estavam.

Essa é uma situação muito comum, de segunda a segunda, de manhã, de tarde e de noite. Não tem hora para beber, não parece haver beber socialmente. O negócio é beber até cair, porque isso se torna uma desculpa para qualquer situação. Na semana anterior, não eram nem 11 horas da manhã quando, ao sair do metrô, nos deparamos com uma menina, jovem, vomitando até as tripas e sendo amparada por um outro jovem, igualmente alcoolizado.

É uma realidade que todo mundo sabe e que já li a respeito por diversas vezes. Ao mesmo tempo, é uma situação que parece não ter fim. Na minha humilde opinião, o descontrole chega a ser problema de saúde pública porque nada que é em excesso faz bem.

Um dia, conversando com o motorista do ônibus antes do feriado do Midsummer, ele comentou que, naquele fim de semana, muitas pessoas morreriam. Falou com uma naturalidade espantosa. Talvez por estarem acostumados com as mortes decorrentes de afogamento por excesso de álcool.

Desde 2004, o número de mortes tem diminuído e comparando a quantidade no Brasil, o valor é muito irrisório. No entanto, para um país que tem boa qualidade de vida e 5 milhões de habitantes, em torno de 1 milhão convive com os efeitos colaterais do álcool.

Se tive um choque cultural ele tem três nomes: excesso de álcool, excesso de bitucas de cigarro pelo chão e pessoas extremamente reservadas. Engraçado que em todos os três, o excesso aparece, pois não parece existir um equilíbrio.

As Pessoas Cultivam Seus Problemas

A Finlândia é um país que atualmente vive uma crise. No entanto, mesmo com a crise, dá TODO o suporte aos seus cidadãos. Ela dá educação, ela dá auxílio contra o alcoolismo, ela dá seguro desemprego, ela dá a saúde, ela dá o auxílio aos idosos, ela simplesmente dá tudo o que é necessário para que uma pessoa tenha uma vida, no mínimo, digna.

Ao meu ver, isso seria um nível alto de bom governo, aquilo que todo brasileiro sonha um dia ter no Brasil. Mas talvez, esse não seja o caminho também. Quando se tem tudo, quando se ganha tudo, sair do vício, pode ser difícil.

Isso são minhas perspectivas (talvez até leigas) de alguém que assiste de fora e enxerga os problemas que talvez a sociedade já esteja acostumada. Não digo que o governo não faz nada para combater isso e nem que as pessoas escolhem viver assim. Digo que parece que as pessoas precisam cultivar seus problemas. Também não digo que, provavelmente, muitas pessoas realmente não tenham problemas. Afinal, todos nós temos.

A imagem da Finlândia para os brasileiros é de que aqui é um país perfeito. Pois então lhes digo, não, não é. Vemos o Brasil, onde as pessoas passam fome, morrem de frio, morrem esperando por uma consulta no hospital, o que é triste, muito triste. E aí, em um país onde as pessoas não sofrem com nada disso, muitas se matam sozinhas, por dentro, criando problemas.

A bebida faz muito parte do cotidiano das pessoas e olha que ela não é barata! No entanto, todos podem ir até o país vizinho e trazer litros a um preço muito inferior.

Por outro lado, também tenho que ser justa e não posso generalizar. Existem muitas pessoas que não corroboram com essa situação e vivem um estilo de vida diferente.

O documentário abaixo de Javier Corso, com legenda em espanhol, descreve bem a situação.

A Solidão

Este tópico é até um pouco delicado de falar, mas já que tô aqui, vamos lá…

Os finlandeses são extremamente reservados. São tão reservados que parece que contagiam até as outras nacionalidades e todo mundo vive na sua “bolha”. Eu demorei mais de 6 meses até realmente começar a socializar e fazer amigos.

Quando cruzo com alguém na escada, como boa brasileira que sou, já taco um oi ou bom dia. Por diversas vezes, eu recebi o silêncio de volta. Confesso que, no começo, aquilo me fazia mal, não entendia o porquê de tanta grosseria.

Quando o inverno chegou, aquilo só piorou, mas me acostumei e, para cada silêncio que recebi, mentalmente desejei luz! Eu não permiti me contagiar pelo mau humor, pelas paranoias que eu poderia criar na minha cabeça. Eu me permiti sorrir para cada desconhecido com quem eu cruzava na rua, independentemente do que pensariam.

E é engraçado ver que a maioria são jovens e adultos. Quando você lida com crianças ou idosos, a situação é muito diferente. As crianças ainda não foram invadidas pela necessidade de espaço próprio e os idosos, cansaram dela e precisam (muitas vezes a todo custo) se desvincular disso. Porque, sim gente, a solidão aqui é terrível!

O outro dia li um artigo de uma finlandesa e ela explicava o fato das pessoas não gostarem de conversa fiada. Ela dizia que o frio é tanto, que todos querem chegar do ponto A ao B o mais rápido possível, sem serem interrompidas. E eu acho que faz sentido. É difícil conversar debaixo de um frio de menos qualquer coisa. Mas ao mesmo tempo, meu lado brasileiro não consegue compreender como um gesto simples de calor humano também não pode aquecer a alma.

Também já me disseram que não gostam de incomodar. Mas como qualquer ser humano, todo mundo precisa extravasar, ninguém aguenta viver sozinho eternamente. Com isso, a bebida serve para que se tornem sociáveis, nem sempre no bom sentido.

As pessoas prezam tanto por seu espaço, que isso faz com que a solidão impere entre elas. Como que alguém se aproxima se não sabe se será bem recebido? Por outro lado, dizem que quando você se torna amigo deles, eles são amigos para a vida toda. Também não digo que o jeito brasileiro seja o mais correto. Por muitas vezes, somos invasivos e isso não é legal. Sem contar que ter muitos amigos, nem sempre é sinônimo de afeto.

Aprendi a respeitar o espaço deles, mas também me permiti respeitar o que eu creio que seja saudável para a minha saúde mental. Por isso, continuo a dar bom dia e a sorrir para as pessoas na rua, independente do que eu receba em troca.

Que venha mais um ano de muito aprendizado, aventuras e mais conhecimento para dividir com vocês!

Até o mês que vem!

Lili

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Elisa é nascida no Peru, filha de pai peruano e mãe brasileira. Mudou-se para Campinas, interior de São Paulo quando tinha 4 anos. É formada em Hotelaria pelo Centro Universitário Senac, já trabalhou na Disney, viajou o mundo como comissária de bordo enquanto morava em Dubai e se especializou em confeitaria abrindo seu próprio ateliê quando retornou ao Brasil. Hoje mora na Finlândia com o marido, ama escrever, ver séries, curtir a natureza, mexer no jardim, viajar e experimentar comidas novas. Adora assuntos relacionados a beleza, bem estar e sempre busca maneiras de melhorar e ver a vida positivamente!

13 Comentários

  1. É isto mesmo…
    Semear gentilezas, atenção… olhar e ver o “outro… romper essa “bolha”… mostrar um outro jeito de existir…
    Parabéns, Lili!
    PS – Como é, na real, a temperatura para este final de agosto em Helsinki?

    • Oi Fernando, que querido você! Muito obrigado pelo carinho!
      Ainda estamos no verão, então teoricamente (hehe) ainda é para estar quente. Porém, dizem que tá sendo um verão frio e as temperaturas não ultrapassam dos 20 a 23 graus! Eu acredito que até o fim de agosto, começo de setembro, a temperatura fique entre os 15 a 20 graus! Eu sempre tenho um casaquinho na bolsa ou já saio com ele, na sombra sempre esfria mais e se ventar, a sensação térmica piora haha! Não precisam de roupas pesadas (a não ser que sejam muito friorentos). Acho que a nossa roupa de inverno do Brasil dá conta aqui! =) E qualquer coisa, existem lojas de segunda mão como a UFF que vendem roupas em muito bom estado a um preço ótimo!
      Espero ter ajudado!
      Um beijo,
      Lili

  2. Concordo com vc em gênero, número e grau. Este problema me assusta muito aqui. Veja, outro dia eu passei mal, porque comi feijao e me tornei intolerante. Estava no mercado qdo comecei a me sentir mal, e vomitar. Bom, as pessoas acharam que eu estava bêbada. No aeroporto, virei o pé e cai, ninguém me ajudou, pois acharam que eu estava bêbada. Isto é tão “normal”, que eles não te ajudam e nem te socorrem. Vizinhos reclamam que meus cachorros latem, mas tem um louco bêbado aqui que faz escândalos, começa a bater na porta dos apt, se atirou do 4o andar, ai chamaram a ambulância, antes disso ninguém se manifestou, só houve manifestação para reclamar sobre a nova moradora que tinha 2 cachorros.
    Seria realmente um pais perfeito, mas deveriam investir neste lado, campanhas proibições de álcool, ou algo assim.

    • Oi Isabel, nossa.. é muito preocupante mesmo! Mas já está inserido da cultura deles, ne? Realmente espero que consigam encontrar uma forma de controlar, porque é triste também cruzar com a situação dessas pessoas que realmente estão alcoolizadas. Espero que você não tenha problemas com seus vizinhos! Aqui temos muitos cachorros no prédio e eu, particularmente, adoro! <3
      Muito obrigada pelo comentário e por dividir a sua experiência!
      Um beijo,
      Lili

  3. Olá Lili Simmelink! Queria conhecer mais sobre o povo finlandês.. Por isso pensei se existe alguma possibilidade de você fazer um tópico sobre o que o povo finlandês pensa sobre o racismo, homofobia ou xenofobia?

  4. Como aprendi nos 2 anos em que vivi na Suíça, todo país tem os seus problemas. Convivendo com escandinávios, sempre notei o alcoolismo e consumo de drogas. Eles costumam ser muito tímidos socialmente, criados com regras para tudo e o álcool é visto como um escape para “se soltar”.
    Outra ponto que puder notar é que, crescendo acostumado com padrões altos e estado do bem-estar social, você tende a tomar aquilo como normal, um direito garantido.

    • Oi André, sim é verdade, nenhum país esta livre deles! Realmente o álcool é um escape e espero que encontrem uma forma de lidar com isso para o bem da população! Obrigado pelo seu comentário! =)
      Um beijo,
      Lili

  5. Eu moro na Estonia e a cultura é bem similar aqui. O alcoolismo é um grande problema da sociedade e eu acho esse ferry simplesmente um horror! As pessoas vão bêbadas do princípio ao fim, não há controle! Eu também demorei muito para fazer amizade, até mesmo com as pessoas que trabalham comigo. Mas o mais importante eu acho é nunca deixar de ser nós mesmas, no fundo eles gostam e acham interessante (mesmo que não seja óbvio no rosto deles hahaha)

    Beijos!

    • Oi Ana, realmente, o ferry é complicado, muitas vezes o pessoal não tem limites e não tem controle mesmo! Fora que a quantidade de bebida que pode-se transporte, é bem alta! Mas concordo contigo, temos que nos manter firmes naquilo que é saudável pra nós rsrs sempre acredito que não tem o que vença um sorriso sincero, eles as vezes retribuem sem nem mesmo perceber! <3
      Muito obrigada pelo comentário e por dividir a sua experiência!
      Um beijo,
      Lili

  6. Oi Lili,

    Uma outra desculpa dos finlandeses pra não se comunicarem com estrangeiros é de terem vergonha de não falar muito bem o inglês. Realmente como você disse infelizmente até os latinos acabam sendo afetados…é bem comum latinos tornarem-se mais introvertidos depois de 4-5 anos vivendo aqui. Quando nós acabamos aprendendo ser “rude” abordar estranhos acabamos também achando esquisito quando alguém nos aborda na rua pensando porque essa pessoa está falando comigo, será um bêbado? Um trombadinha?Uma pena, espero que mude algum dia ainda mais porque é o país mais seguro da Europa não há muita justificativa pra tanta desconfiança….

    • Oi Rodrigo! Sério? Não sabia disso do idioma! Que coisa bé, porque pra falar a verdade, pelo menos aqui na região de Helsinki, eu acho que eles falam super bem! Não deveriam se sentir assim, que pena! E é verdade, mesmo não querendo julgar, aquele pensanento de que pode ser uma pessoa alcoolizada as vezes vem na cabeça! Tento me policiar muito com isso! Espero também que melhore!
      Muito obrigado por compartilhar seu pensamento!
      Um beijo,
      Lili

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