Melancolia e inverno uruguaio

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No Uruguai não neva, mas faz um frio danado!

Durante a noite e a madrugada podem ser atingidas temperaturas negativas e o vento forte, característico daqui, sempre faz qualquer um jurar que faz mais frio do que marca o termômetro.

Esta talvez seja a época mais difícil para os brasileiros que vivem aqui. É comum reclamarmos muito nesse período. Alguns até voltam para o Brasil por não suportar o impacto das baixas temperaturas.

No Uruguai faz mais frio que calor, geralmente são quase seis meses de frio e três de calor. Nos outros meses têm-se um tempo fresquinho, principalmente à noite.

Quando o inverno chega, a vida muda bastante.

Os dias são bem mais curtos, amanhece tarde, quase às 8h da manhã e antes das 19h já escureceu de novo. Quem trabalha no horário comercial quase não vê a luz do sol.

A culinária também se modifica. Toma conta do prato um cardápio de comidas mais calóricas, geralmente à base de batatas, lentilhas, carnes e acentua-se o consumo de vinho. Para quem não sabe, o país tem excelentes vinícolas, algumas bem conhecidas no Brasil. Já encontrei garrafas de marcas uruguaias que aqui custam 25 reais por 110 reais em mercados brasileiros.

As atividades ao ar livre quase desaparecem por motivos de “sobrevivência” e dão lugar a encontros caseiros, geralmente ao redor da lareira, uma necessidade nas casas uruguaias. Onde não tem lareira usa-se o ar condicionado ou aquecedores elétricos e a gás, mas é fato que não é possível passar pelo inverno sem algum tipo de aquecimento dentro de casa.

Outras providências também precisam ser tomadas com relação ao vestuário. Aquelas peças que trazemos do Brasil não dão conta do que nos espera aqui, por isso todo brasileiro já passou frio no primeiro inverno uruguaio, até absorver o que eles nos ensinam.

A técnica ‘cebola’ é a mais importante! Talvez todo mundo já conheça e só eu tenha me surpreendido. Consiste em vestir-se em camadas, uma blusa fina, outra mais grossa por cima, assim sucessivamente até terminar com um casaco pesado, que pode e deve ser retirado toda vez que se entra em um lugar fechado, assim o corpo se sentirá aquecido quando voltarmos a vesti-lo na hora de sair na rua. Além disso, luvas, touca e cachecol são muito mais que pura elegância.

Arquivo pessoal: Colônia del Sacramento

Entretanto, mesmo tomando todos os cuidados que o inverno uruguaio exige e mesmo com toda a beleza que esta estação oferece, é comum pairar uma certa melancolia durante esses meses.

Fica-se mais tempo dentro de casa, o contato social diminui e certos pensamentos visitam-nos com maior frequência: tudo o que ficou no Brasil, a família, os amigos, o calor, o sabor da comida… é preciso tomar muito cuidado para que esse devaneio não seja implacável.  

O que foi vivido no passado ou aquilo que já não se tem é facilmente investido por uma fantasiosa áurea de perfeição e idealização. Esse processo pode se agravar ainda mais quando o momento atual exibe um cenário desfavorável, pelo frio ou alguma dificuldade que a pessoa pode estar passando. Dá muita vontade de voltar para dentro de nossas recordações calorosas, alaranjadas e que em nossa memória pareciam ser somente felizes. É um perigo cair nessa!

Percebo que as pessoas que passam pelo inverno da melhor maneira são sem dúvida as que conseguem aproveitar o que o momento presente oferece. Ater-se somente ao lado negativo do que o inverno traz causa um estado de desânimo que não ajuda em nada. 

Aprender a aproveitar o inverno trará mais prazer. Para mim foi fundamental observar como os uruguaios ao meu redor se deliciavam em viver as atividades próprias dessa estação. A minha preferida é de longe tudo o que se pode fazer ao redor da lareira. Aproveito a fogueira para assar carnes, legumes, esquentar os pés, por a leitura em dia e ficar de preguiça até dar sono.

Mas, além da preguiça tem outras coisas que combinam com frio!

Como o clima não está para lugares abertos, é um excelente momento para curtir programas que geralmente não fazemos quando o apelo dos parques e praias é mais forte.

Conhecer bares que tem ambientes subterrâneos pode ser bem bacana. Gosto muito de um que se chama El Lobizón, está no centro da cidade, tem a decoração meio vintage com rádios antigos e o clericó (bebida tipo ponche) de lá é uma delícia.

Cinema e teatro também são perfeitos locais aquecidos, aqui está toda a programação da cidade de Montevidéu.

Aproveitar para comer as comidas gostosas dessa época e curtir um filme debaixo dos cobertores em casa também é tremendamente prazeroso e não precisa ser um crime.

Adaptar-se ao que é apresentado certamente trará possibilidades de viver experiências interessantes. E uma coisa é certa, quando a gente se acostuma com essa rotina chega a primavera e com ela, a euforia dos dias ensolarados e floridos mudando tudo de novo!

12 Comentários

  1. Vanessa, vou conhecer o Uruguai em setembro (de 02 a 07)! O que vc me diz do frio nessa época? E esse vento CORTANTE e CONGELANTE que as pessoas costumam citar em seus posts, tbm estão presentes ainda no mês de setembro? E se eu precisar roupas de inverno aí, o que vc me diz sobre os preços?

    Agradeço se puder me ajudar

    Sidionil Biazzi

    • Olá Sidionil, em setembro já não faz um frio absurdo, os dias são mais ensolarados, mas ainda será necessário usar roupa de frio, principalmente de noite. Eu acho alto o preço de roupas e calçados aqui. Se der para trazer do Brasil seria melhor. Deixe para comprar apenas luvas e toucas aqui, estes são baratos se comprados nas barraquinhas da ciudad vieja, e podem servir de lembrança da viagem! Abraço.

  2. Boa tarde Vanessa! Nossa fiquei aqui imaginando como seria um período assim frio, suas palavras soaram até poéticas. Moro no agreste de Pernambuco e nesta tarde está fazendo um calorzinho de 35º graus. Tenho pesquisado sobre o Uruguai e a vontade de conhecê-lo é enorme. Obrigada por se dispor a compartilhar sua visão daí, abraço!

  3. Ei Vanessa!
    Resolvi comemorar bodas de prata no Uruguai. Julho. Deve ser o auge do frio.
    Mas já peguei 0° em Curitiba em julho de 2013. O frio dá para contornar. O que me preocupa em passeios é a chuva. Chove no mês de julho?

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