Obra social e cirurgia estética na Argentina

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Quando fiz oito anos, ganhei de aniversário do meu pai um curso de inglês. Ele dizia que seria importante para o meu futuro falar outro idioma. Até aí nenhuma novidade, não é mesmo? Só que isso aconteceu há quase 30 anos… homem de visão esse meu pai. Ele acertou bem na mosca. Pena que eu – na minha inocência de criança – não entendi muito bem essa lição e naquele momento não dei o devido valor.

Ainda bem que a maturidade traz coisas boas e uma delas – no meu caso – foi o de entender como é importante estudar e aprender. E descobri que aprender línguas era divertido. E desde então não parei mais: primeiro inglês, claro, porque em todo lugar do mundo você pode usá-lo, não é mesmo? Mais ou menos, mas isso deixo para outro dia. Depois espanhol, ou melhor, castelhano. Depois alemão, agora francês e num futuro não muito distante, japonês.

Mas por que estou falando tudo isso mesmo? Porque notei que nossa mente tem a capacidade de fazer diversos tipos de associações para memorizar algo mais rapidamente. No entanto, essas associações às vezes nos pregam peças e nos colocam em situações de “saia justa” quando estamos em outros países. Tudo isso porque falar outra língua não é simplesmente traduzir uma ideia nossa em outro idioma, é muito mais, é entender outra cultura para saber escolher muito bem as palavras que expressarão nossos pensamentos.

Um exemplo: no título deste texto você pode ler “obra social”. O que você acha que quer dizer essa expressão? Alguma construção em prol do bem da sociedade? É uma possibilidade, entretanto a ideia não é essa. E se eu te digo que o título está em castelhano? Ou melhor, em castelhano falado na Argentina? E que o significado é Plano de Saúde?

Agora que você já sabe o que significa, veja como ter “uma” (é feminino em castelhano) se você estiver de mudança – mesmo que temporária – para cá:

(1) Por lei, todo trabalhador tem direiro a uma obra social paga pelo seu empregador. Esse plano de saúde é oferecido pelo sindicato correspondente à sua categoria laboral. Infelizmente, você não poderá escolher.

(2) Mas não se preocupe porque muitos desses planos de saúde funcionam muito bem e, inclusive, há um específico também para os aposentados.

(3) Plano de saúde particular é chamado de “prepaga”, abreviação carinhosa de “medicina de obra social prepaga”.

(4) As empresas não são obrigadas a pagar pelo plano de saúde particular dos empregados, afinal eles já terão direito ao do sindicato. Se você quiser, pode escolher pagar a diferença para ter um plano de saúde particular.

(5) Quando você decidir qual plano quer ter, poderá apresentar uma solicitação no seu trabalho pedindo que os “aportes” (valor mensal pago pelo seu empregador ao sindicato) sejam derivados à empresa que você escolheu. A diferença virá num boleto que você deverá pagar como uma conta normal. Algumas empresas multinacionais pagam essa diferença para os seus principais “talentos” como um benefício.

(6) As empresas mais conhecidos que oferecem bons planos de saúde particulares são: OSDE, Swiss Medical, Accord Salud, Medicus, Galeno, Sancor Salud, Medifé.

(7) Infelizmente, aqui na Argentina tudo ainda está muito concentrado em Buenos Aires. Por isso, por mais que o plano cubra todo o território nacional, os melhores médicos e hospitais estão na capital e arredores.

(8) Você poderá ter dependentes no seu plano (filhos, marido, mãe, etc). Cada caso será avaliado pela empresa, que te pedirá os documentos correspondentes. Você deverá também pagar a diferença para cada um deles. Os valores variam conforme a idade do afiliado, quanto mais velho, mais caro (como no Brasil). E hoje, um plano básico para começar, para alguém na faixa de 31 a 40 ano de idade, não sai por menos de AR$ 3.500 (mais ou menos R$ 700).

(9) Plano Materno Infantil (PMI) – algo que descobri sem querer e achei maravilhoso! A mulher quando engravida apresenta ao plano de saúde uma receita do/a obstetra solicitando o PMI. A partir deste dia e até o primeiro mês do bebê, quase tudo sairá de graça. Exames, materiais, remédios, etc. É só ir e comprar nos lugares credenciados do seu plano que você não gastará nem um peso!

(10) Por aqui é muito comum ter as carreiras profissinais bem separadas e muito específicas. Um ginecologista, por exemplo, não é obstetra. Isso quer dizer que o/a ginecologista que te acompanha desde sempre não vai te cuidar durante a sua gravidez. Você terá que encontrar um/a obstetra. E se o seu caso for de risco, vai ter que encontrar alguém que seja especialista no seu problema. Cada obstetra tem uma especialidade também. E na hora do parto (na maioria natural, porque não existe isso de agendar cesárea por aqui), primeiro vem a parteira do hospital e só quando o bebê realmente estiver para nascer é que chega o obstetra, que também pode não ser o que te acompanhou na gravidez.

(11) Espere médicos e profissionais da saúde bastante competentes e inteligentes, mas que são na maioria das vezes ríspidos, secos e até meio grosseiros. Não vão ter pena de você e nem vão tentar te confortar, por mais difícil que seja a situação.

(12) O bom é que se você está se sentindo mal e não quer ir (ou não aguenta ir) a um hospital, é só chamar um médico em casa. Demora um pouco (de 2 a 3 horas) mas quebra seu galho. E toda obra social tem um.

(13) A maioria dos planos particulares tem três categorias, seria algo como: padrão (mais barata), luxo (algo intermediário) e alto luxo (inclui tudo e é mais cara). A última categoria, nem sempre muito mais cara que as demais, oferece também “asistencia al viajero”, ou seja, seguro saúde quando você viaja a outro país.

(14) A concorrência entre as empresas que fornecem planos de saúde particulares é feroz, então, para conquistar mais clientes sabe o que elas oferecem? Cirurgia plástica! Isso mesmo, meu plano de saúde me dá direito a uma cirugia plástica do que eu quiser com tudo pago. Ai, ai… são tantas as opções que ainda não me decidi….risos.

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