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Paradoxos argentinos

Paradoxos argentinos.

Esses dias estava pensando em como me levou tempo observar o comportamento alheio para aprender as nuances da cultura argentina.

Comecei me perguntando como um país logo ali ao lado no nosso, com algumas semelhanças em sua história, resultou ao mesmo tempo num povo tão diferente e complexo?

Certamente você dirá “mas qualquer cultura é assim”, e estou de acordo. No entanto, a Argentina, em especial, me chama a atenção pelas inúmeras contradições, que no dia a dia acaba por dificultar a vida dos estrangeiros.

Educação

Eventualmente você já deve ter escutado algum comentário sobre a educação argentina. Se não, te faço um resumo geral. Embora hoje em dia enfrente dificuldades semelhantes às que vemos no Brasil (falta de verbas por desvios ilícitos, desvalorização de professores etc.), foi concebida com uma estrutura mais sólida que a nossa.

Depois de se tornar um país independente, o novo governo investiu fortemente na criação e desenvolvimento de escolas e bibliotecas por todo o país. De fato, em pouco tempo, o número de pessoas escolarizadas cresceu consideravelmente.

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A primeira universidade do país, a Universidad Nacional de Córdoba, foi fundada em 1613. De lá para cá, esse número só foi aumentando e hoje o país conta com nada menos que cinquenta e cinco instituições nacionais de acesso livre e gratuito. Ou seja, qualquer pessoa pode se inscrever e cursar uma faculdade, sem precisar pagar algo por isso.

De acordo com esse panorama é natural pensar que argentinos são bem educados*. E que pessoas bem educadas fazem um país bem desenvolvido. No entanto, infelizmente, a realidade não é bem assim.

*Educados no sentido de instruídos, não em questões de boas maneiras.

Este – para mim – é o paradoxo número 1: como pessoas tão bem instruídas e capazes não conseguem alavancar um país? Afinal, volta e meia o país entra em crise. Quem souber a resposta, por favor, me conte, pois tem dez anos que vivo aqui e ainda não a encontrei.

Trabalho

De maneira idêntica venho tentando entender como são os argentinos no trabalho. E não tem sido uma tarefa fácil. Pelas fábricas que passei, vi de tudo. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi em 2016, quando precisávamos contratar muita gente e não foi fácil encontrar quem aceitasse o trabalho.

Todos reclamavam de algo. Ou era o horário, ou a atividade em si, ou a distância de casa, ou o período de treinamento etc. Assim sendo, decidimos oferecer salários melhores. Não adiantou, não conseguimos ninguém. E quando alguém aceita, a chance de ser uma pessoa que reclamará bastante e fará pouco é bem alta.

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Eu sei que não é legal comparar, mas nesse momento só me perguntava como podia ser, enquanto brasileiros agradecem por ter qualquer trabalho, argentinos só reclamam de que para ganhar um salário devem trabalhar?

Dessa maneira, não me surpreendeu descobrir que o mesmo acontece em todos os outros âmbitos. Juro que todas as minhas tentativas, até hoje, de pagar mais para ter um serviço melhor não resultaram como era de se esperar.

Paradoxo número 2: como pessoas bem instruídas e capazes resultam em profisionais que oferecem serviços ineficientes e insatisfatórios? Pode perguntar a qualquer conhecida sua que tenha visitado a Argentina, ela certamente vai ter uma história de um atendimento ruim para te contar.

Alimentação

A Argentina é essencialmente um país agrário. Grande parte da riqueza nacional vem do campo. E esse campo, na sua maioria, produz alimento. Ou seja, um país que vive de produzir alimento deve se alimentar bem, correto?

Surpreendentemente não é bem assim. Embora o país produza cada vez mais uma variedade incrível de cereais, leguminosas, cogumelos, hortaliças e frutas, ainda não se encontram disponíveis em feiras e supermercados.

Por exemplo, aqui na cidade de Corrientes ainda não existem produtos orgânicos. E os que não são, quase sempre já chegam com um aspecto desagradável. Pelos mercados, o que mais encontro são alfaces murchas, brócolis amarelados e couves-flores amarronzadas.

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Apesar de vivermos frente ao rio Paraná, só há uma peixaria na cidade e que vende peixes congelados. Sem falar na falta de conhecimento e costume de consumir frutas locais. Pela cidade e seus arredores, encontramos árvores de manga, goiaba, pitanga, acerola, maracujá, mamão, jabuticaba e jaca. Entretanto, se eu não “as roubo” por aí, não as consigo em nenhum outro lugar.

Os moradores daqui dão preferência às bananas vindas do Equador e às peras e maçãs vindas da Patagônia. Como muito, podemos encontrar doce de mamão verde, doce de goiaba verde e alguns limões verdes que, quando se espreme, não cai gota alguma.

Paradoxo número 3: como um país produtor de alimentos pode se alimentar tão mal? Estamos em 2021, mas ainda vivemos sob o conceito antigo de que o bom se exporta e o que “sobra” vendemos ao mercado interno. E por que valorizar a mata nativa se podemos trazer nosso alimento de longe, não é mesmo?

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