Porque os argentinos são magros

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Em Buenos Aires, apesar do bom sistema público de transporte, caminha-se muito. Imagino que seja porque quase tudo dá para fazer a pé; é gostoso caminhar por uma cidade bonita; e ficar parada no trânsito e não ter onde estacionar enlouquece qualquer pessoa.

No meu caso, esses foram os argumentos que me convenceram a fazer a transição – feliz da vida – de dona de carro e motorista a pedestre que só usa sapatos e botas sem salto.

Confesso, nos primeiros meses foi difícil, não tinha ritmo e não sabia caminhar. Logo cansava e tropeçava em qualquer buraco de calçada. Foi preciso um pouco de paciência e também persistência.

Felizmente, superados os obstáculos, tomei gosto pela coisa. E sempre que caminhava pensava: “aproveito esse tempo também para me exercitar”, afinal, minha dieta estava mudando.

Não sei se você sabe, mas a comida de todo dia em Buenos Aires é doce no café da manhã, massa ou pizza/empanada com pão no almoço, mais doce no chá/café da tarde e milanesa ou bife com batata frita no jantar. E sempre regado a um bom vinho.

Daí você pensa: “Nossa, as pessoas devem ser obesas comendo assim, não é?” Pois para o seu (e o meu) espanto, não são, ao contrário, são até magros demais. As mulheres então, um absurdo. Sério, de M no Brasil passei a G quase GG aqui na Argentina.

Então logo concluí: são magros assim porque caminham muito. Infelizmente, só alguns anos depois vi que estava errada. Não em caminhar, claro, mas em imaginar o porquê de tanta magreza.

Como falei no post sobre as diferenças de passar férias e viver numa cidade, não foi fácil nem rápido o processo de fazer novos amigos e começar a conhecer intimamente suas rotinas. Mas, aos poucos, comecei a ser convidada para um almoço aqui, um café ali, um jantar lá. E quando finalmente entrei para uma “turma”, observei muito para aprender como eram os códigos de conduta. Acabei por descobrir muito mais.

Sempre vi as argentinas como mulheres fortes, educadas, decididas, seguras, inteligentes e independentes. E realmente elas são assim mas, lá no fundinho de cada uma, pude observar que há – como na maioria de todas nós – uma preocupação do tipo: “o que os outros vão pensar”.

E enquanto nós brasileiras “ralamos” para estar com as unhas feitas, depiladas, com o cabelo perfeito, a roupa passada e engomada, maquiadas e equilibrando tudo isso num salto 15, a argentinas – e os argentinos também – devem ser “magros”.

Ai de você não estar “bem” fisicamente quando estiver de biquini (ou short, porque aqui homem jamais usa sunga) na praia (destino sagrado de todo verão)… não terá perdão.

Por isso – e para isso – no resto do ano tem que se cuidar e, às vezes, vale ser até de maneira absurda. O caminho natural é comer bem e fazer exercícios, certo? Por isso, muita gente vai por aí, mas tem sempre os mais “ousados” que preferem não comer.

Isso mesmo! Descobri que muita gente finge comer, mas na verdade não come. Pula a maioria dos almoços, divide um sanduíche entre várias pessoas, só pede salada ou passa o dia a base de chá ou mate (bebida típica daqui que lembre o nosso chimarrão).

No entanto, o choque bateu mesmo quando presenciei uma discussão – no bom sentido da palavra – sobre qual medicamento cada pessoa tomava para a anemia… Oi? Se eu tomo o que? Eu não tomo nada não…

Claro, uma dieta deficiente traz problemas para a nossa saúde, já sabemos disso. E, por isso, nosso ditado: “tem que comer muito arroz com feijão”, quando queremos energia e força para conseguir algo.

Fiquei preocupada, tentei contra argumentar mas, naquele momento, foi em vão. Voltei para casa ainda pensando nessa situação.

No Brasil, vez ou outra a gente escuta dizer que as modelos e as atrizes fazem esse tipo de loucura para aparecer bem na TV ou numa revista. Mas como é uma realidade beeeeeeem distante da minha e das pessoas que conviviam comigo, nunca tinha visto de tão perto.

Pensei que deveria ajudar, fazer alguma coisa, mas o quê? Ou melhor, como? Passei a convidar meus conhecidos para comerem em casa e conhecerem pratos típicos do Brasil, que no geral são mais leves e saudáveis. Foi um sucesso, então comecei a ensinar como prepará-los também.

Por suerte (como dizem muitos argentinos), meu anseio por fazer algo veio junto com o de muita gente. Parece que vamos ter um final feliz.

Lembram-se do post sobre restaurantes vegetarianos e veganos em Buenos?

Pois então, essa nova onda saudável que está na moda por aqui fez muita gente repensar sua dieta do dia-a-dia. E, felizmente, “comer sano” (comer de maneira saudável) está, aos poucos, ganhando mais espaço nas cozinhas.

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Oi, sou Fabiola, de Suzano-SP. Há quase sete anos me mudei para Buenos Aires e descobri minha verdadeira paixão, a confeitaria. Depois de mais de dez anos trabalhando como engenheira química descobri que a cozinha era meu lugar. Voltei para a escola e hoje também sou “Pastelera” (confeiteira).

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