10 motivos para não morar na Finlândia

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Foto: Pixabay

10 motivos para não morar na Finlândia.

Em minha última coluna escrevi sobre 10 motivos para morar na Finlândia e prometi trazer os contrapontos em meu próximo texto. Promessa é dívida e aqui estou.

Este não é um texto escrito por alguém pouco integrado e cheio de ódio no coração. Tenho uma visão realista, pois não existe lugar perfeito no mundo, existe o lugar onde você se sente bem e feliz. Este é o meu, com todos os seus defeitos, mas pode ser o grande pesadelo de outros, dependendo de suas necessidades pessoais e pré-requisitos para encontrar a felicidade.

Escolhi os tópicos deste artigo baseando-me em questões que sei serem choques culturais para grande parte dos brasileiros que se mudam para cá.

1Clima e escuridão

Foto: Maila-Kaarina Rantanen. Helsinque, 9 da manhã em janeiro.

Por mais que o verão seja lindo, que a natureza seja exuberante e que o sol da meia-noite seja encantador, em geral o clima da Finlândia é ruim. A temperatura média do verão é de 18 graus e é normal chover muito. Pode haver anos bons (este está sendo) e pode haver anos praticamente sem verão, como 2017.

E o inverno?

O frio não é o pior, tudo é muito estruturado e você aprende a lidar com ele. O problema é a escuridão que começa em novembro e permanece até fevereiro. Por mais que você seja uma pessoa que goste da noite, que odeie calor e sol forte (este foi meu discurso a vida inteira enquanto morei no Brasil), simplesmente não ter opção, não ter a luz do sol, chegar no trabalho e voltar para casa sempre “de noite”, não é legal.

Leia mais sobre o assunto em meu texto Escuridão e S.A.D. na Finlândia

2Solidão

Foto: Arquivo pessoal. Sozinho na rua vazia.

Individualidade e solidão são características dos finlandeses e, apesar de não podermos generalizar, é bem comum que assim seja.

Círculos sociais tendem a não ser amplos na Finlândia e faz-se uma distinção forte do que é amigo, conhecido e colega de trabalho. Colegas de trabalho podem trabalhar juntos há 20 anos e não saberem nem se o outro é casado ou tem filhos. Sim, isso existe e muito. Normalmente amigos serão 2 ou 3 e, se você for apenas um conhecido, não espere muito, a não ser que você mesmo faça o movimento e tome as iniciativas.

Aqui é normal curtir a solidão e fazer coisas sozinho, inclusive ir a bares, cinema e viajar. Se você não gosta de ficar só e não consegue se divertir sozinho, talvez a Finlândia não seja o lugar ideal para você.

3Empatia e cortesia

Foto: Pixabay

Latinos em geral têm seu código de educação baseado na cordialidade: dizer não é ofensivo, deve-se cumprimentar, oferece-se ajuda mesmo que o outro não precise, dá-se o lugar, segura-se a porta, espera-se pelos outros, conversa-se, comunica-se, sorri-se, toca-se.

O código de educação da Finlândia é o oposto: baseia-se 100% no respeito à individualidade e no respeito ao espaço do outro e isso é levado a ferro e fogo. Pode pegar cada exemplo que dei acima e passar para o contrário.

Ser cordial não é uma obrigação social, é uma opção pessoal e a empatia não é exercitada no dia a dia das pessoas como uma forma de expressão. Aliás, não é comum expressar sentimentos em público.

Claro que há exceções, muitas até, principalmente nas gerações mais novas, mas tenho certeza de que muita gente, principalmente latinos, sentem-se muito incomodados com isso.

4Sinceridade sem filtro

Foto: Pixabay

Dizer não aqui não é tabu, é um direito seu não gostar, não querer e não fazer. Se você se arrumar toda e perguntar ao seu marido o que ele acha, por exemplo, ele poderá dizer sem nenhuma dó que achou a roupa estranha, o sapato feio, o cabelo esquisito, etc. Se você pedir ajuda a um amigo e ele já tiver planos, ele dirá a você sem problemas que não pode te ajudar porque, sei lá, vai assistir a um jogo ou está cansado demais. Você vai ouvir a verdade por mais nua e crua que possa ser. Eu admiro muito isso, mas sei que muita gente se ofende.

5Idioma

Foto: Daily Memes

Falar finlandês não é impossível, mas é muito difícil. É uma das línguas mais difíceis do mundo e para se atingir um nível intermediário independente (B2.2), a média de tempo de estudo intensivo é de dois anos e meio, se realmente houver imersão. Para se falar realmente bem, a maioria das pessoas precisa de bem mais do que isso; 4 ou 5 anos em geral. Nenhum curso que você venha a fazer garantirá que você tenha um bom nível de redação.

A dificuldade do idioma está relacionada a taxa de desemprego entre os imigrantes, pois é muito, mas muito difícil mesmo, conseguir um emprego na Finlândia sem falar finlandês muito bem. E isso vale para empregos bem básicos.

6Desemprego

Foto: Pixabay

Desemprego é um problema na Finlândia desde sempre. Desde os anos 80 me lembro de meu pai e meu tio conversarem sobre o assunto, sobre como estava difícil. Claro que há ondas e as vezes melhora, mas para uma população de apenas 5.4 milhões de habitantes, 8.6% de desemprego (dados de abril de 2018) é um taxa altíssima. Logicamente isso afeta as possibilidades de um imigrante conseguir emprego aqui. As áreas que mais contratam estrangeiros são as de tecnologia da informação (estas por sorte tendem a não exigir o finlandês), mas, no geral, a taxa de desemprego entre imigrantes na Finlândia é uma das maiores da Europa por melhor que seja o seu currículo.

7Racismo e xenofobia

Foto: Pixabay

Existe sim e está dentro da onda da Europa. Não, não acho que seja a maioria da população, não acho que haja mais finlandeses racistas do que não racistas, mas existe sim e, além disso, há uma série de preconceitos, que mesmo não sendo raciais, atingem muito mais a quem não é daqui.

A questão do preconceito linguístico por exemplo, de preferir contratar um finlandês menos qualificado para o serviço do que um estrangeiro não proficiente no idioma, mesmo que este fale direitinho. Este é um exemplo básico e que quase podemos generalizar, basta ler as ofertas de emprego nos sites.  A frase: Native level Finnish is mandatory (finlandês com nível nativo é obrigatório) está na maioria das ofertas.

Não quero falar sobre preconceito racial porque este, infelizmente, é um problema universal e a Finlândia não escapa dele. É um tema muito sensível para ser abordado em apenas um tópico.

8Burocracia do sistema de seguro social

Foto: Arquivo pessoal

O sistema de seguro social  é bem burocrático. Depois que você se acostuma com ele fica tudo bem, mas até aprender, prepare-se para muita dor de cabeça. Tudo está online, mas a informação em inglês muitas vezes não é tão completa quanto a informação em finlandês e se o seu inglês não for muito bom, você irá se perder.

Os funcionários dos departamentos normalmente não dão informações além do que você perguntou, mesmo que durante a sua explicação percebam que você precisa de informação extra e muitos deles têm má vontade com estrangeiros, se tiverem que falar em inglês.

Se você não ler muito, acabará sem saber que tem uma série de direitos ou pior, perderá oportunidades e terá que dar entrada do zero em algum procedimento, porque não foi bem informado. Dizem que está mudando, que bom! Mas quando precisei fiz muita coisa desnecessária por não saber como proceder. Agora aprendi, não vou a lugar nenhum perguntar nada antes de ler os sites de cabo a rabo.

9Suporte jurídico fraco ao estrangeiro

Fonte: Pixabay

Este é um problema muito sério, mas que é menosprezado pelo fato de ser algo estatisticamente pequeno, mas se você precisar processar uma empresa por má prestação de serviços ou uma pessoa por alguma razão, isso vai ser caro, demorado e muitas vezes frustrante e injusto. O serviço de defesa ao consumidor é praticamente inexiste. A justiça finlandesa é branda demais e cara demais. O serviço de defensoria pública no geral não é bom. Um estrangeiro pode ficar totalmente perdido, sem saber aonde ir ou o que fazer se quiser levar adiante uma denúncia.

10Poucas opções de entretenimento nas cidades pequenas

Foto: Pixabay

A melhor maneira de explicar esse tópico é com poucas palavras: se você não estiver numa das cidades metropolitanas e, mesmo nestas, numa região central, não tem nada para fazer. Nada mesmo. Muitas não têm nem um cineminha. Pouca gente na rua, ninguém na rua aos domingos e feriados, não tem nada. Começar sua vida aqui, sozinho, num lugar desses, pode ser enlouquecedor.

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