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China – (Sobre)Vivendo sem o mandarim

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que este artigo é um relato da minha experiência. Não acho que seja o ideal para quem vive no exterior não aprender a língua, e incentivo à todos que chegam por aqui a aprender o idioma local.

Mas…

Nem sempre as coisas acontecem como queremos ou planejamos e existem alguns fatos que fazem a nossa vida, nossa rotina, tomarem rumos que não são os convencionais.

Quando meu marido veio para China em 2004, para ficar 6 meses, eu só vinha visitá-lo e não via necessidade de aprender o mandarim. Só que os 6 meses viraram 4 anos, apesar da minha relação com a China ser a mesma: visitas de 30 dias 2 a 3 vezes por ano.

Com tantas visitas, numa cidade onde não se falava outra língua além do mandarim (encontrar quem falasse inglês era muito raro naquela época), claro que aprendi o básico para sobreviver: algumas frases rotineiras, cumprimentos, números e palavras chaves. Sempre digo que meu maior aprendizado de mandarim se deu nessa época.

Quando meu marido foi transferido para Shanghai, com um contrato de 3 anos, e mudamos todos para essa cidade, me deparei com uma outra dificuldade: meu inglês era ‘ok’ para viagens, mas nulo para a rotina diária, acompanhando as atividades escolares dos meu filhos, convivendo com os demais estrangeiros em meu condomínio e até ir ao hospital.

Um parênteses: em Shanghai é possível (sobre)viver com o inglês. Existe uma rede de serviços e facilidades para a vida do estrangeiro na cidade.

Como ficaríamos nessa metrópole por 3 anos, e toda a nossa vida ficava dentro da ‘bolha internacional’ achei por bem, aprender o inglês e levar adiante minha vida social. Até porque, pensei, o inglês será para a vida. Em qualquer lugar que eu for, dominando esse idioma não terei problemas. E daqui há 3 anos estarei fora. Para quê o mandarim?

Só que…

Os 3 anos já viraram 8 e com um novo contrato, iniciando em 2016, de mais 3 anos. E aí bateu o arrependimento. De não ter me dedicado ao mandarim como deveria. A vida de expatriado, baseado em contratos de trabalho, é sempre assim, uma incógnita, podemos ir embora amanhã ou ficar mais muitos anos. Nunca sabemos.

Mas eu vivo aqui há anos e como é minha vida diária? Você pode estar se perguntando.

Dentro do possível é completamente viável. Apesar dos percalços. E na China isso é muito fácil de acontecer por inúmeros fatores.

Tentando explicar (não justificar) esse paradigma, tenho que admitir que Shanghai e o próprio estilo chinês de ser, fazem a gente se acomodar.

Vejam só:

Shanghai é uma cidade internacional. Então é relativamente fácil encontrar serviços e ambientes onde o inglês domina.

Há uma espécie de ‘acordo oculto’ entre os estrangeiros e no final, como estamos no mesmo barco, todos são solidários uns com os outros (principalmente quando enfrentamos algum problema).

O chinês comum, não fala inglês. Mas ele tem uma boa vontade enorme em se fazer entender e tentar entender o estrangeiro. Então mímicas, fotos e o famoso dedo que aponta tudo, funcionam que é uma beleza.

Os smartphones são a salvação de qualquer um nesse mundo chinês. Já escrevi sobre isso aqui. E fazer uso deles é mais do que necessário. Hoje a maioria, além de te dar a tradução em mandarim e pinyin (escrita do mandarim romanizada), ainda ‘falam’ a palavra para que você não saia pronunciando errado. Se bem que o que funciona mesmo, é vc mostrar a palavra escrita em mandarim… Porque, vamos e venhamos, falar o mandarim com todos os seus tons, não é tarefa fácil.

Praticamente todas as lojas e vendedores de rua estão munidos de uma calculadora com dígitos gigantes. Eles querem vender e , como nem a linguagem de mãos dos números é igual a nossa, (se eles te mostrarem o 6 com os dedos, você vai chamar o vendedor de louco, pois estará te mostrando o famoso ‘Hang loose’ ocidental), o melhor mesmo é o dígito da calculadora. Escrever os números a mão também não é muito funcional se não se conhece um pouco dos costumes. Aqui não se corta o sete, o oito, se as duas partes não forem exatamente ‘equilibradas’ eles também não entendem.

Acabamos optando por fazer compras em locais em que os preços estão afixados. Carrefour, IKEA, GAP e assim vai, são um alívio na vida do estrangeiro. Primeiro porque tudo está facilmente exposto e com preços claros e segundo, porque não precisamos pechinchar.

Andar com uma ‘colinha’ com as palavras chave, do tipo: direita, esquerda, na esquina, vá em frente, pare ali, se for andar de táxi é primordial.

Se não souber nada disso, e mesmo que saiba um pouco, é imprescindível ter o endereço em mandarim de onde você quer ir e também do seu hotel ou residência. Não adianta simplesmente falar o endereço, por que a sua pronúncia nunca vai ser a mesma deles.

Uma outra coisa que pega é que motoristas de táxi, empregadas domésticas, atendentes de lojas, geralmente são de outras províncias e falam seus dialetos ou linguagem regional. Até Shanghai possui o dialeto local, chamado de ‘shanghainês’. E aí, se são pessoas mais velhas, não vão entender o seu parco mandarim mesmo!

Foto de Mauren Zselinszky.
Foto de Mauren Zselinszky.

E no dia a dia…

Tenho uma empregada que está comigo há 5 anos. É muito engraçado que desenvolvemos uma linguagem muito peculiar e que só nos mesmas nos entendemos. Nem o motorista que fala um pouco de inglês, consegue decifrar nossos códigos.

Uma amiga que já deixou a China, também tinha um dialeto particular entre ela e seu motorista. Era algo impossível de explicar aqui, com palavras. Eles usavam palavras em inglês, mandarim e português, tudo na mesma frase. E isso virou meio que ‘uma lenda’ por aqui. Brincávamos que eles falam ‘catianês’, em alusão ao seu nome, Catia. Uma vez me perguntaram se era verdade que havia um motorista que falava português em Shanghai. Eu ri muito e disse que não. Que havia um motorista que pensava que falava português com uma patroa que pensava que falava mandarim. Mas que os dois se entendiam… Ahhhh isso é fato! E até pelo telefone!

Meu marido até hoje mantém o mesmo vocabulário de 2004 que, sinceramente, não dá nem para sobrevivência. Mas a empresa, uma multinacional, que exige que todos os funcionários administrativos falem inglês, dá nisso. E mais uma vez digo que a comodidade acaba atrapalhando a vida das pessoas. Como eles existem centenas, talvez milhares de estrangeiros que vivem aqui e não falam o mandarim. Mas com o crescimento da China e mudança no perfil dos expatriados que as empresas estão enviando para cá, esse número está ficando cada vez mais reduzido.

Além do que, coisa que não era a realidade de 2009, muitas pessoas estão vindo para a China com o objetivo de aprender esse idioma tão difícil e ao mesmo tempo tão instigante. Como a cultura chinesa de modo geral, o mandarim com seus caracteres têm algo de misterioso e muitas coisas se escondem atrás desses complicados desenhos.

E no final…

Bem, eu não desisto e continuo tentando. ‘Step by step’ como se diz em inglês. O fato é que aprender mandarim exige dedicação, de verdade. E hoje está difícil encaixar isso na minha rotina. Mas eu chego lá.

Com certeza o domínio do idioma deixaria minha vida bem mais simples. Se já me viro muito bem aqui com o pouco que sei, fico imaginando quão mais interessante seria com a fluência da língua.

Um dia chego lá!

Até a próxima.

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20 comentários

Sandra Regina dos Santos Dezembro 6, 2015 at 8:43 am

Querida, sou testemunha de que vc aprendeu desde de pequena a língua universal do AMOR por isso seu modo de passar por tudo, parece mais suave!!!! ????????????Parabéns pela matéria.

Resposta
Christine Marote Dezembro 6, 2015 at 10:29 am

Obrigada Sandra! Sempre bom receber um comentário assim.
Beijo grande.

Resposta
Larissa Dezembro 6, 2015 at 11:10 am

Christine, estou em Shenzhen (Sul da China, próximo à HK) desde janeiro/15.
Também comecei com o básico mas me matriculei numa escola com professora particular.
Vou 2x por semana, 2h cada aula! Saio de lá com a cabeça saindo faíscas!!!! Mas vale a pena!
Ser compreendida e compreendê-los, torna o dia a dia (que sabemos, é uma adaptação e tanto!) beeeeeem mais tranquilo!!!
Parabéns pelo blog!
Larissa

Resposta
Christine Marote Dezembro 6, 2015 at 2:14 pm

Olá Larissa,
Obrigada pela visita e comentário.
Como disse no texto, não desisti… mas me sinto frustrada comigo mesma de não ter uma proficiência na língua que acho que poderia ter por viver aqui tanto tempo.
E sim, você está certíssima, compreensão é tudo. Hoje eu recomendo a todas as pessoas que se mudam para cá: invistam no aprendizado do mandarim.
Abraço!

Resposta
Adérito Dezembro 6, 2015 at 11:39 am

Sou cabo verdiano, e vivo aqui há 3 anos, este ano é provavelmente o último, mas como o seu marido, não sei se vai ser mais 3 anos por aqui ou não. Moro no nordeste na China, na cidade de Shenyang, capital de Liaoning, na Manchúria, desde que aqui cheguei para estudar. Algo que apreendi desde o início é que dominar o inglês, apesar de ser uma mais valia, não é o suficiente para sobreviver por aqui, especialmente quando se trata de cidades como a que eu vivo. Deparei que um simples taxista, uma vendedeira, uma empregada de supermercado entre outros, não dominavam o inglês, afinal eu que tinha de me adaptar a eles. Fiz um esforço para apreender o mandarin, fala e escrita, apreendendo a ler e escrever aqueles caracteres difíceis e hoje até faço trabalho de tradutor e professor em mandarin português. Depois de todo esse tempo, acho que já consigo viver aqui, consegui adaptar-me à lingua, à cultura, e sobretudo, raramente perco em uma cidade, até porque não tive problemas na ultima vez que estive em Xangai e com frequência vou a Pequim como também outras cidades, mas o sotaque local ainda continua a ser uma barreira, até porque por uma questão de hábito, eu falo o sotaque nordestino (chines) e isto causa muito embaraço quando vou a outras cidades principalmente as do sul. Para quem vem a China, sempre aconselho a apreender o mandarin, mesmo que seja o básico. Apesar de aparecer uma língua muito complcada, é um bom caminho para aproveitar as muitas oportunidades que se oferecem por aqui.

Resposta
Christine Marote Dezembro 6, 2015 at 2:19 pm

Olá Adérito,
Obrigada pela visita e por deixar suas imressões. Concordo com vc, mas em 2009, com filhos adolescentes em escola internacional e vivendo na ‘bolha’ que é Shanghai, realmente o inglês foi minha prioridade. Mas se tivéssemos continuado em Chang Chun, que é próximo de Shenyang, com certeza a prioridade seria o mandarim. Realmente fora de Shanghai é muito difícil viver sem o mandarim. Por outro lado, o que sei me dá mobilidade, mas não autonomia, entende? E vamos continuar, afinal, temos mais 4 anos aqui (fiquei sabendo essa semana) e então focar no aprendizado.
Abraço.

Resposta
Elaine Dezembro 6, 2015 at 3:24 pm

Como sou apaixonada pela China, apesar de nao conhecer. Moro no Camboja a 2 anos e ainda nao aprendi a lingua, a nao ser as palavras basicas… e por incrivel q pareça aqui tem mtas escolas de mandarin e mtos chineses passam por aqui todos os meses, inclusive uma vez falei pra uma dessas turistas de alguns amigos q vivem em Xangai e elas me disseram q nao sabiam onde era… mas o problema estava na minha pronuncia rs!!! Bom tambem tive q me dedicar ao ingles pois era quase zero qdo cheguei aqui, mas Siem Riep é uma cidade bem turistica q se fala mt o ingles, mas esse ano qro me dedicar mais a lingua local que parece ser mais facil q o mandarin, pelo menos os caracteres… apesar de q o alfabeto cambojono possui 70 letras… mas vamos la… ah!! Ainda qro morar na China… entao acho melhor ficar expert em linguas… abraços.

Resposta
Christine Marote Dezembro 6, 2015 at 3:43 pm

Olá Elaine,
O importante é isso: não desistirmos.
Boa sorte no aprendizado do cambojano!
Abraço.

Resposta
Evelyn - China Chic Dezembro 7, 2015 at 2:53 pm

Como de costume, adorei seu texto!
Acredito que em Shanghai e em Pequim seja mais tranquilo de (sobre)viver sem saber o mandarim. Mas onde moro é muito complicado se virar sem falar o idioma. Estudo há quase um ano e ainda falta muita prática e muito estudo para me sentir confiante no chinês. Meu marido trabalha muito e não tem tempo de aprender e ele sim, passa cada perrengue.
Mas são coisas da vida, no fim, com muita paciência, sempre damos um jeito de nos fazer entender com os gestos corporais ou com a ajuda dos aplicativos, não é!? Ainda bem que eles existem!

Abraço

Resposta
Christine Marote Dezembro 8, 2015 at 7:00 am

Com certeza Evelyn, A gente vai se virando, mas nunca desistimos…
Um dia a gente sai falando e bem!
Abraço e obrigada pela visita e comentário.

Resposta
Cintia Dezembro 11, 2015 at 7:13 pm

Excelente texto Christine. !!! Mostra de forma clara a importância de aprendermos o idioma do local aonde moramos. Eu continuo na luta com o neerlandes..um dia chego la!!! Abs

Resposta
Christine Marote Dezembro 12, 2015 at 3:16 am

Obrigada Cintia.
Eu estou na mesma, sempre tentando melhorar e estudando… um dia chego no ideal! Beijo

Resposta
Marcelo Dias Bezerra Dezembro 12, 2015 at 3:07 pm

Ola,

A Empresa em que trabalho tem uma filial na china, porem escolhi outro pais Barcelona, acho que deveria ter escolhido china pelo seus comentários mas quem sabe um dia possa trabalhar por ai!!

Resposta
Christine Marote Dezembro 13, 2015 at 10:40 am

Olá Marcelo.
Obrigada pela visita e comentário.
E eu sou suspeita para falar, mas acho que viver na China é uma experiência impossível de mensurar. Só vindo aqui e vendo com seus próprios olhos e sentidos, que você poderá entender. QUem sabe a próxima transferência. Pense com carinho…rs
Abraço e boa sorte em Barcelona, que é um lugar incrível também!

Resposta
Danielle Novembro 7, 2016 at 6:20 pm

Olá Cris, adorei o texto!
Meu esposo está indo à trabalho no início de 2017 para ficar 10 meses a princípio.
Mas eu não falo nada além do português aqui do Brasil.
Será que é possível sobreviver desta forma? rs
Um abraço

Resposta
Christine Marote Novembro 8, 2016 at 1:31 pm

OLá Danielle,
Obrigada pelo contato.
A primeira pergunta é: onde vocês irão morar?
Se for uma cidade como Shanghai e Beijing, tudo fica um pouco mais simples. Se bem que o inglês seria necessário.
Saiu dessas ‘bolhas internacionais’, tanto faz saber ou não inglês. O mandarim é o idioma e ponto.
Mas, tem um ditado que diz que a necessidade faz o ladrão, não é?
A gente aprende a se virar e vai buscando as palavras básicas para sobreviver.
Tem muita gente que vive aqui sem o idioma. Não é o ideal, e nem é fácil.
Mas o chinês é um povo muito receptivo.
Então não deixe esse ponto te desanimar! Venha de menste e coração abertos e tudo vai se encaixar. Ao menos a questão de comunicação!
No meu blog pessoal, tem mais dicas de como (sobre)viver por aqui. http://www.chinanaminhavida.com
Abraço.

Resposta
Gabriel Soares Março 14, 2017 at 9:05 pm

Boa tarde,

Falo somente o português, mas estou planejando fazer uma viagem a China a passeio, e sozinho, acha que vou ter muitos problemas para conhecer os pontos turísticos, e sobreviver umas duas semanas ? kkkk

Obrigado e abraço.

Resposta
Christine Marote Março 15, 2017 at 1:07 am

Olá Gabriel,
Se você vier para Shanghai, ou for para Hong Kong, terá todos os problemas que uma pessoa que não fala inglês terá para se comunicar nos EUA ou no UK, e mais alguns pois aqui o idioma é o mandarim. Mas acho que dá para sobreviver.
Saindo dessas cidades, nem o inglês te salva muito, mas já seria um plus. Eu recomendo você contratar guias nas cidades, mas o que falam português são bem mais caros que os que falam inglês.
Dizer que é impossível, não dá. Aí vai do grau do seu espírito de aventura.
Se quiser saber mais dicas sobre viajar na China, acesse meu blog http://www.chinanaminhavida.com
Abraço e boa sorte!

Resposta
andressa ariane genuino lima Setembro 11, 2018 at 7:30 pm

Olá Chirstine. Tenho algumas dúvidas. Ultimamente tenho pensado muito em sair do Brasil. Desde pequena sempre me encanteo com a cultura da China. E até hoje acho esplêndida . Moro no Brasil mas queria muito poder conhecer a China e quem sabe um dia morar. Mas tenho muitas dúvidas referente a como posso trabalhar lá se eu só falo o português daqui do Brasil e o meu esposo tbm.

Resposta
Liliane Oliveira Setembro 12, 2018 at 1:34 pm

Olá Andressa,
A Christine Marote parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na China que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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