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4 hábitos que reaprendi na Rússia

4 hábitos que reaprendi na Rússia.

Como toda viagem e mudança, os primeiros instantes são emocionantes e cheios de novidades. Porém, com a rotina e o cotidiano você começa a perceber as peculiaridades do dia a dia e os pequenos choques culturais em coisas que você jamais imaginaria.

Abaixo listo quatro hábitos básicos e curiosos que tive que reaprender e/ou adaptar morando aqui.

 

1. Não me incomodar com encaradas:

Prepare-se, as pessoas vão te encarar. Não é rude nem para intimidar, mas as vezes mesmo que discreto ele está sempre lá, o famoso “Russian Stare”, traduzido grossamente como: “encaro russo”.

Demorei para entender que não tinha nada de estranho comigo. Poderia facilmente ser identificada como russa, mas mesmo assim, as pessoas me encaram como se eu fosse uma alienígena.
Após um tempo tentando compreender esse comportamento, e depois que entendi porque russos não sorriem aqui, eu percebi que não é só comigo. Os russos, mais especificamente a geração mais velha – dos nascidos e criados na URSS – são bastante curiosos, querem olhar tudo e todos, estar a par da situação, e não têm vergonha nenhuma de te analisar dos pés a cabeça. Perdi a conta de quantas vezes fiquei preocupada com o olhar bravo de uma “бабушка” – babushka, idosa russa. “Será que ela está brava, será que eu sorri demais, é a feição normal dela?” Difícil dizer.

Você não se destaca por ser diferente, só por estar ali no mesmo lugar que eles já é um motivo para receber o tal “encaro”. Por mais que os russos tenham fama de serem racistas, é absolutamente normal que eles observem curiosamente pessoas, não é maldade, é apenas uma característica cultural. Claro que, sendo um pouco diferente, você atrairá mais olhares, inclusive dos jovens. Caso você esteja com alguma peça de roupa atípica, tenha traços fortes, ou esteja exibindo suas tatuagens, se prepare para os olhares aumentarem exponencialmente.

Portanto, quando vier para cá não se ofenda; só porque alguém olha para você não é preconceito, eles são apenas um povo muito curioso.
Um adendo: cuidado com o que você anda assistindo no seu celular em público e no metrô. As pessoas vão olhar o que você está fazendo e não vão nem disfarçar!

2. Carregar meu lixo na bolsa por horas:

Em uma cidade metropolitana como Moscou, uma das coisas que mais me chocou é que quase não se encontram lixeiras na rua. Se você comprar um café, prepare-se para carregar o copo vazio por muito tempo! Apesar disso, as ruas são arrumadas e super limpas se você compará-las a outras grandes cidades como São Paulo. Ninguém se atreve a jogar lixo ou cigarro no chão. Claro, quando a neve derrete na primavera, você descobre lixo que estava escondido debaixo dos blocos de gelo, acontece.

Mas de uma forma geral, é impressionante a que mesmo sem latas de lixo com fácil acesso, não tem lixo nas ruas. Aparentemente é um costume antigo dos comunistas, onde eles aprendem desde pequenos a recolher o próprio lixo. Isso não significa que eles sejam ecológicos e sustentáveis, coleta seletiva aqui ainda é um assunto primitivo, porém eles são bem preocupados com limpeza de uma forma geral.

Um dos motivos dessa ausência, é que latas de lixo são alvos fáceis para guardar bombas. Muitas lixeiras foram removidas das ruas e estações de metrô de Moscou, em 1977, na sequência de um atentado no metrô. Quarenta anos depois, algumas latas de lixo estão sendo reintroduzidas nas ruas, mas ainda são raridade, principalmente em centros turísticos.

3. Toda hora é hora de chá:

Antes de morar na Rússia, chá era algo que eu apreciava em momentos específicos: após o almoço como digestivo, antes de dormir no inverno ou quando doente. Amante do nosso querido chá mate, gelado e com limão, por favor, tomar chá quente durante uma refeição era algo que eu jamais faria. Isso mudou.
Para entrar em contexto vou explicar: mesmo que não original da Rússia, o chá é uma parte extremamente significativa da cultura deles. Chá na Rússia não é apenas uma bebida – é uma atividade social tradicional. Eu diria que, em certo sentido, o chá é mais icônico da verdadeira cultura russa do que até mesmo a vodca.

Não espere tomar chá de saquinho, este, que é comum claro, é usado no caso de ser para uma só pessoa, ou talvez se estiver com muita pressa. Caso contrário, o chá será feito em um bule grande com uma alta concentração de ervas e água. Tradicionalmente, no chamado “заварка” (zavarka; concentrado de chá), que é extremamente forte. Após a infusão, o zavarka é vertido em xícaras, dependendo da intensidade preferida – e misturado com água fervida. Isto deriva de métodos tradicionais de se beber chá dos tempos menos prósperos da Rússia, quando todos os produtos alimentares eram extremamente escassos, incluindo ervas de chá que eram importadas em grande maioria da China, portanto um só bule de chá deveria servir muitas pessoas.

Photo Credit: ekai via Compfight cc

Agora, a maioria das casas russas têm chaleiras elétricas e não precisam da zavarka. Mas muitos mantém essa tradição de preparar em grande quantidade e servir a todos presentes.

Chá preto é o mais comum seguido do verde, outros sabores e frutíferos, apesar de comuns, são menos usados. O açúcar, mel e leite são habituais para aqueles que desejam adoçar ou diluir o chá.
É considerado rude na Rússia servir chá sem qualquer alimento para acompanhá-lo. As comidas típicas são doces, como bolachas, biscoitos, doces e tortas, mas o mais interessante é que se não há nada para servir, eles tomam o chá intercalado de colheradas de geleias ou mel.

Como falei acima, o chá é uma atividade social, é muito comum que uma pessoa russa te convide para um chá em vez de uma refeição ou um café. É uma das maneiras mais comuns de socialização, e está presente em qualquer reunião social. O momento pode durar de 30 minutos a várias horas, mas de uma forma ou de outra, o chá está sempre presente na mesa!
Muitas vezes no trabalho, paramos no meio da tarde para a “hora do chá”, que não é específica como para os ingleses: às 17h. Mas qualquer hora é uma desculpa para parar tudo e tomar uma xícara quentinha. Hoje em dia tomo chá o dia inteiro, inclusive durante as refeições.

Não há quase nenhuma situação em que uma chávena de chá não seja adequada. Já vi pessoas tomando chá em baladas – juro.

Photo Credit: Flооd via Compfight cc

4. Pegar filas:

Infelizmente, os russos não são normalmente respeitosos com filas, nem têm uma forma lógica de pegá-las. Independente da situação, prepare-se para ser empurrado para os lados ou perder seu lugar, seja no transporte público, banco ou mercado, os moscovitas aparentam sempre estar com muita pressa. Se você estiver desatento, eles não perderão um segundo pra passar na sua frente. Esperar que as pessoas saiam de um elevador ou vagão do metrô para liberar o espaço é um conceito quase inexistente. Além disso, esteja preparado para ser empurrado para fora do caminho pelas babushkas; elas vão te empurrar e não tem nada que você possa fazer sobre isso. Este não é apenas um estereótipo – na Rússia, o respeito pelos idosos na sociedade é muito forte e as pessoas mais velhas esperam ser tratadas assim. Portanto, se a velha senhora com um carrinho de feira passar na sua frente na fila ou te empurrar, nem perca tempo, isso é normal e ninguém vai te ajudar se você reclamar.

Costumava ser bem desatenta para esse tipo de coisa, o mais natural é entrar atrás de alguém em uma fila e aguardar a vez. Após me mudar para cá tive que me adaptar e ficar sempre alerta. Outro fato interessante é que as filas, na maior parte, não são como as nossas, um atrás do outro em fila indiana. Na primeira vez que fui comprar algo em um caixa, percebi que as pessoas ficavam furando pela minha lateral. Só depois eu percebi que as filas aqui são laterais, um do lado do outro e não um atrás do outro. Em algumas situações, como banheiros de shoppings ou baladas, as pessoas entram da forma que quiserem e perguntam quem foi o último a entrar. Assim você lembra quem está a sua frente e vai depois dela. Engraçadíssima experiência para quem não fala a língua, recomendo.

Photo Credit: dmitry_ryzhkov via Compfight ccmetro1

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1 comentário

Saulo Kolzidakowski Outubro 6, 2016 at 6:59 pm

I Love Russia!!!!

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