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A distância e as redes sociais

A distância e as redes sociais: porque a grama do vizinho é sempre mais verde

Ah, as redes sociais! Aquelas maravilhas que conectam a gente com o mundo inteiro, que nos fazem sentir mais próximos das pessoas que amamos, que nos permitem dividir um pouquinho da nossa vida com quem está longe, e que podem se tornar motivo de sofrimento.

Comecei a prestar mais atenção em como as redes sociais poderiam trazer sofrimento para as pessoas há alguns anos. Meus pacientes começaram a trazer para a sessão que “todo mundo já comprou um apartamento, menos eu”, “todo mundo viaja, menos eu”, “todo mundo casou, menos eu”, “todo mundo tem emprego, menos eu”, entre outras tantas queixas. Eles sabiam que as redes socais não deveriam ser um lugar de comparações, mas ver as postagens dos outros trazia sofrimento mesmo assim.
Além disso, comecei a perceber que as minhas pacientes adolescentes estavam ficando mais sujeitas a desenvolver transtornos alimentares por seguirem blogueiras fitness e de moda. Como as adolescentes tem menos maturidade para lidar com essa exposição à corpos e vidas perfeitas, elas começam a buscar se parecer com o que vêem e a consequência disso são dietas malucas, início de bulimia, horas e mais horas gastas na academia, tudo em busca da selfie perfeita para ser postada e ganhar o maior número de likes possíveis.

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Comecei a seguir algumas blogueiras para entender um pouco mais desse mundo e não canso de ficar chocada de como aquilo passa longe de uma vida real. Quem é a pessoa com uma vida real que consegue acordar, fazer uma linda maquiagem, enrolar o cabelo, colocar a roupa mais bonita do armário e ter um fotógrafo de plantão para tirar centenas de fotos do look do dia? Na vida real a gente acorda atrasada para o trabalho ou com o filho pulando em cima da gente, precisando fazer o café da manhã, lavar a louça do dia anterior e, com sorte, arranjar algum tempo para ir na academia. Nessa vida real não tem corpos perfeitos, selfies maravilhosas, roupas de grife, mas tem o melhor que a gente pode fazer para sermos felizes.

Além da vida fake do Instagram, temos a vida real no Facebook onde estão as nossas famílias e os nossos amigos postando fotos da viagem que fizeram, da promoção no trabalho, postando declarações de amor aos filhos, cônjuges, periquito, cachorro e para a professora do ginásio. É nessas horas que costumamos achar que os outros têm tudo e que nós não temos nada, e a distância torna isso ainda mais exacerbado.
É extremamente dolorido ver a família inteira reunida no Natal e você estar sozinho em outro país caçando alguém que te adote durantes as festas de fim de ano; ver as pessoas em dias de sol na praia, enquanto você nem lembra a última vez que viu o sol; ver as pessoas contando sobre promoções no trabalho, enquanto você ainda não achou um trabalho legal na vida de expatriado ou está lutando para refazer a carreira fora do país com todas as dificuldades que isso implica.

Photo by Mink Mingle on Unsplash

É nessas horas que é preciso ter muita sabedoria para lidar com as redes sociais. Lembrar sempre que as pessoas só postam os momentos de felicidade (verdadeira ou de mentira) nas redes sociais e também separar as nossas escolhas das escolhas dos nossos amigos. É muito difícil irmos morar fora sem estarmos postergando alguma coisa que queríamos muito, seja um emprego legal que temos que abandonar, uma carreira de sucesso para começar do zero, refazer os estudos, atrasar o plano de casar ou de ter filhos. Dessa forma, o nosso compasso vai ficando diferente do compasso dos nossos amigos e tudo bem.

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Se olharmos para as nossas vidas veremos o quanto nos transformamos desde que mudamos de país, quantos desafios novos tivemos, quanta coisa deu errado, muito pior do que imaginávamos, mas quantas outras deram certo. Para saber se estamos no melhor caminho para nós, basta nos comparamos com nós mesmo. Continuamos perseguindo os sonhos que tínhamos? Mudamos completamente de sonhos? Mantivemos nossos valores? Descobrimos novos?

Além de tomar cuidado com o que nós vemos nas redes sociais, devemos também pensar mais antes de postarmos. Como as redes socais dão essa sensação de que todos somos felizes, pode acontecer de nós mesmos querermos mostrar uma felicidade que não é real. Quantas vezes vi pessoas me contando o quanto o casamento estava indo mal e horas depois essas pessoas estavam postando fotos e declarações de amor nas redes sociais. Não precisamos mostrar para o mundo que estamos felizes se não estamos, e também não precisamos estar sempre felizes. Momentos de infelicidade, tristeza, incertezas, medos fazem parte de estarmos vivos e é muito importante que eles existam. Às vezes posto fotos de dias lindos aqui em Toulouse e as pessoas logo comentam o quanto a minha vida deve ser maravilhosa e sempre faço questão de responder que não é não. Que o céu está bonito, mas tive um dia péssimo, não consegui explicar em francês o que eu precisava na loja, me senti sozinha, pisei em um cocô de cachorro (algo que me faz perder a paciência com os franceses), entre outras coisas que fazem parte do meu dia a dia. Um dia eu posso estar indo ver o pôr-do-sol na beira do rio, no outro morrendo de saudades de casa e tudo bem. Essa é a minha deliciosa e difícil vida real.

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Que nesse ano tenhamos mais vida real e menos vida virtual. Menos declarações por posts e mais ao vivo. Menos tempo no celular e mais tempo conversando com quem amamos. Menos tempo tirando fotos para postar e mais tempo curtindo o momento presente.

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2 comentários

Juliana Março 8, 2018 at 8:50 am

Eu nao acredito em redes sociais. Partindo do pressuposto que passo a maior raiva para conseguir tirar uma unica foto dos meus filhos, sem que eles façam caretas, ou sob ameacas de punicao se nao sorrirem. Aí sai aquela foto linda e maravilhosa e voce posta no instagram. Quem ve pensa que vcs tiveram um dia lindo e perfeito, mas mal sabem o que se passou por tras daquela foto!!

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Fernanda Libardi Março 8, 2018 at 2:35 pm

Oi Juliana, tudo bom?
Obrigada pelo seu comentário! Sim, verdade! Quem vê a foto só pensa na foto linda de família e não vê o outro lado. Eu não saí do facebook, mas apaguei o aplicativo do meu celular. Achei que precisava de mais tempo de vida real.

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