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A epidemia de obesidade nos EUA

A epidemia de obesidade nos EUA é algo muito difícil de não se notar. Se você já visitou o país, suponho que consegue reparar sem dificuldade. Pois é visualmente perceptível quando uma pessoa ultrapassa as dimensões do tamanho XXG. Aqui quero deixar claro que falo sobre obesidade e não apenas em estar com alguns quilos a mais. A obesidade é uma condição patológica que traz consequências muito ruins para a saúde.

Uma das causas da obesidade é claramente comer demais. E quando você chega aqui nos EUA logo percebe o tamanho exagerado das porções individuais de comida. Refrigerante é mais comum do que água e o acesso é muito fácil. É fácil e acessível comer mal.

Aqui, é muito mais barato alimentar a família com produtos industrializados e refeições prontas de fast-food do que ir ao mercado e comprar frutas, verduras, legumes, carne, ovo… comida de verdade. É barato comer mal.

Leia também: Nos Estados Unidos, seja superficial

Você pode comprar por 1 dólar um pacote pronto de “mac n´cheese” (popular prato americano macarrão com queijo). Meia dúzia de bananas te custam pouco mais que 1 dólar. Uma caixinha pequena de morangos, 4-5 dólares. Meio quilo de maçãs, 5 dólares. Uma caixa de mexerica, 6 dólares. Como você pode perceber, comida de verdade é bem mais cara por aqui do que o pacote que vai direto ao microondas. Isso porque os custos com produção e armazenamento de produtos frescos é maior. Comida de verdade estraga em uma semana. O mac n´cheese pode ficar esquecido no armário por até dois anos. Sim, eu disse DOIS ANOS! Agora imagine o quanto a indústria modifica esse produto para que tenha uma vida longa de prateleira assim. E o quanto isso impacto na saúde de quem consome esses produtos diariamente. É pratico comer mal.

Outro ponto com relação aos preços é que o governo americano dá incentivo aos grandes produtores de trigo e milho que abastecem as indústrias de comida processada. Gastam milhões por ano para que o preço das sementes desses produtos seja sempre baixo. Abastecendo a indústria e incentivando indiretamente o consumo por esses produtos.

Como produzir trigo e milho é mais rentável para os agricultores, pois a venda para a indústria é certa, milhares de acres de terra são usados para monocultura dessas sementes por anos. O que empobrece o solo e gera um impacto ambiental gigante. Esse desequilíbrio  faz com que o uso de pesticidas seja enorme para compensar o fato de a natureza tentar retomar o que lhe foi tirado. Além das sementes geneticamente modificadas, altas doses de pesticida são consumidas em larga escala.

O que não podemos negar é que os americanos votaram com o garfo pelo tipo de comida que hoje abastecem as prateleiras dos mercados. A procura pela praticidade e por comida hiperpalatável, que atiçam as papilas gustativas e ativam zonas de prazer cerebrais é muito maior do que a procura por brócolis ou couve. É viciante comer mal.

Fonte: Pixabay.com

Outro fator que vem à mente quando pensamos em obesidade é a falta de atividade física. E aqui não digo exercício. Digo atividade como movimentar o corpo mesmo. Caminhar, subir uma escada, carregar suas compras de mercado. Aqui tudo é muito conveniente e prático. Usa-se muito mais combustível no carro do que sola de sapato. Se você mora fora das grandes cidades americas dificilmente consegue andar a pé até um mercado ou até seu trabalho. Não é à toa que o dono da Amazon é o homem mais rico do mundo. Aqui tudo é online. Nunca pensei em ver gigantes como a Best Buy fechando as portas. Tudo se compra com a distância de um clique. Ou se você estiver cansado e não quiser usar o dedo, pode com a voz ativar a Alexa (um auto falante que obedece a comandos de voz e virou febre entre os americanos) e pedir para ela fazer isso para você.

O marketing da indústria de alimentos e redes de fast-food chega a ser agressivo e está em toda parte. Televisão, outdoors, banheiros, metrô. As propagandas de doces e snacks processados para crianças é alarmante. É fácil render-se a imensa variedade de restaurantes de junk food. As praças de alimentação são um convite a comer mal.

Atualmente a obesidade é um problema mundial, inclusive no Brasil. Mas por que aqui nos EUA a situação é tão mais complicada? Chego à conclusão de que os americanos estão numa geração que já não tem referências sobre o que é comida de verdade. Sempre coloco no meu Instagram quando um caixa do mercado não sabe o que registrar quando se depara com uma abobrinha ou com um quiabo. A geração atual já cresceu e viu os avós se alimentarem de cereal matinal da caixinha no café da manhã, mac n´cheese no almoço e frango frito no jantar. Com uma dieta pobre em nutrientes igual a essa, não tem como dar certo por muito tempo. Vamos ver (ou não) quantas gerações vão aguentar.

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Nós no Brasil temos lembrança da comidinha caseira, do arroz com feijão da vó ou da tia. Sabemos que a comida vem da terra. Temos um país riquíssimo em diversidade e produção agrícola. Só tenho medo que possamos estar no mesmo caminho dos nossos vizinhos de continente. Essa semana, fui no Hard Rock Caffe de Boston e o senhor muito simpático da loja me fez uma pergunta curiosa: “Por que os brasileiros gostam tanto desse restaurante?” Puxa, é verdade! Entre num Hard Rock Caffe e tente não encontrar um brasileiro lá, comendo ou tirando mil fotos. Por que damos tanto crédito para essa comida americana tão cheia de fritura e açúcar? Esse caminho é uma ida sem volta.

O triste não é somente ver pessoas que só usam o tamanho XXG de roupas. O triste é constatar o quão incapacitante é a obesidade. A pessoa não consegue caminhar, colocar os próprios sapatos, brincar com os filhos no parque, viajar de avião. É muito comum por aqui ver pessoas na meia idade circulando em carrinhos elétricos pois não conseguem andar. Envelhecer sendo obeso é uma sentença de limitação para sempre.

Minha esperança reside nas gerações futuras que precisarão romper com este ciclo e voltarem a se alimentar com comida de verdade. A obesidade aqui é muito além do que o quanto as pessoas colocam no prato ou quanto fazem de exercício. A obesidade aqui é uma consequência de escolhas políticas, interesses dos empresários e muito marketing do “você merece”.

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