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A Sídrome da Saudade de Casa

A Síndrome da Saudade de Casa.

De uns anos para cá muita gente deixou o Brasil para morar em outro país.  Esta onda migratória da qual faço parte, se deve principalmente à falta de perspectiva, admiração e até esperança em nosso país. De tudo que vem acontecendo, a violência gratuita que é escancadara à nossa frente é o principal motivo que nos faz ir embora: muito medo e incerteza.

Motivações à parte, percebo que quando chegamos em um novo país sempre exaltamos as qualidades. É uma “paixonite” inicial. Como é bom esse sentimento de liberdade e não ter medo de andar com o vidro do carro baixado. Ah como é bom ter transporte público que funciona.  Sabe aquela história de que país desenvolvido é aquele que também os ricos andam de transporte público? Ver isso na prática é sensacional.

É cada surra de civilidade que deixa nosso Brasil lá pra trás.  É cada 7 x 1 em termos de desenvolvimento, educação, respeito…

Ah como os gringos são educados! As ruas são tão limpas! Frutas vermelhas tão mais baratas! Aqui não tem barata voadora, nem muro as casas têm.Como a vida no exterior é fotogênica! É selfie com as tulipas, com a neve, em castelos.

Tudo é lindo, limpo e seguro. São inúmeras as histórias de quem esquece algo em lugar público e apenas volta lá e… Está lá. Alguém achou e devolveu, exatamente como deveria ser em qualquer lugar do mundo.

É uma sensação de que as pessoas não te roubam aqui. Você não tem a percepção de que todo mundo está querendo te enganar o tempo todo. Nem te roubar o tempo todo. Pode usar seu celular relaxado.

Não existe carro blindado e nem o peso de se preocupar o tempo todo em permanecer vivo.

Mas, em um contraste muito louco, percebo que esta Síndrome do Imigrante Empolgado, com o passar dos anos, pode virar a Síndrome da Saudade de Casa. Principalmente quando o inverno de arrancar a alma vem. Dá saudades dos pés de jabuticaba, do pastel com caldo de cana, da conversa informal a cada esquina. Até da desorganização ajeitada do nosso Brasil a gente começa a sentir falta.

Leia também: A coragem de quem fica no Brasil

Do cheirinho das padarias com aquele pão na chapa com cafezinho que não existe em lugar nenhum do mundo. A cada esquina de semáforo um vendedor ambulande que vende balinhas penduradas no retrovisor com um sorriso no rosto e a frase “Deus te abençoe“. O sorriso é gratuito e abusamos dele. Só quando estamos longe começamos a sentir uma falta imensa da alegria sofrida do Brasil.

Saudade que dá daquele caos que não mais nos pertence mas que humaniza e aproxima as pessoas. Um novo olhar para nossas imperfeições. Uma falta que dá de onde viemos, de algo que não nos pertence mais, mas que nos conecta com nossa essência, com o que sempre fomos aqui dentro do peito.

Fonte: Pixabay.com

Ao chegar em São Paulo, naquela Marginal Tietê feia e com seu zigue-zague caótico de motoboys e cores em tons de marrom e cinza, dá no fundo uma tristeza. É como se cada canto da cidade te lembrasse que é precisso sobreviver a cada dia, que estamos muito para trás na escada do desenvolvimento. O que fomos capazes de fazer com nosso país, ou, tudo o que poderíamos, mas não conseguimos ainda fazer por ele?

O coração oscila entre a empolgação da vida no estrangeiro e a sensação de que algo sempre vai faltar, a saudade que dá de se sentir em casa.

Depois que a paixonite da mudança passa, conseguimos ter uma admiração que oscila pelo nosso Brasil. Começamos a reconhecer como nunca o que temos de bom.

A distância e o tempo me permitiram refletir sobre nossa história, nosso povo, nossos defeitos. Existem problemas de diferentes dimensões, lógico, em todos os lugares do mundo. Uns fáceis de consertar, outros difíceis que podem demorar centenas de anos. Mas não é a quantidade de problemas de um país que vai definir onde você se sente em casa.

Lembro uma vez o presidente de uma empresa que eu trabalhava dizer em uma entrevista que depois de mais de 20 anos morando fora, em países desenvolvidos, optou por voltar com a família para o Brasil. Eu na minha cabeça, sinceramente não conseguia entender o porquê ele escolheu, depois de tantos anos fora, voltar para nosso encardido e mal amado Brasil. Ele disse: “Morando fora você sempre será o estrangeiro, aqui você é brasileiro, sempre estará em casa. E isso, depois de um tempo, faz a diferença“. Na hora não entendi, mas hoje, depois de 5 anos morando fora, entendo um pouco

Morar fora é uma experiência boa, porém, para você se integrar, ter amigos, fazer parte da sociedade e ser aceito é muito difícil. Não à toa muita gente busca grupos de brasileiros para se sentir mais acolhido. Muitas vezes não por falta de vontade de abraçar e viver a cultura local, mas ali você é diferente.  As diferenças nos afastam, faz parte de um dos grandes desafios da humaninade corrigir isso.

As coisas mudam quando aquela paisagem do cartão postal gringo vira sua casa. Não tem mais aquela rede que te deu suporte a vida toda para que você chegasse a ser quem é hoje. A convivência com o outro muda.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar nos EUA

Enquanto isso no Brasil, nas margens plácidas da incerteza está deitada em berço esplêndido nossa jovem nação. Desse povo gentil e desconfiado, cansado de mostrar e esconder seu valor. Da sobrevivência na selva de pedra à aridez dos sertões. Na árdua tarefa de existir que seu povo mostra sua força e alegria. Na malandragem que desencanta e que ao mesmo tempo envolve.

Para os simplistas de plantão pensando “se gosta tanto do Brasil, volte a morar lá”, digo que sempre parece simples quando não é com você. E reconheço que os motivos que me fizeram sair de lá ainda existem, mesmo redimensionados, eles ainda estão lá.  Os anos trazem a saudade mas também fazem você criar raízes. Mas confesso que a saudade do se sentir em casa sempre vai existir, guardada aqui no peito, levo ela comigo para onde quer que eu vá.

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