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Itália

A maior lição que a vida no exterior me ensinou até agora

Faz tempo que eu namorava a ideia de morar fora. Quando tinha nove anos de idade, eu mandava cartas aos Consulados de diversos países pedindo material sobre os lugares que um dia eu queria conhecer. Sim, naquela época não existia internet e, portanto, sem chances de acessar o Google Images ou o Street View para sonhar um pouco mais…

Eu não tinha pôster da Barbie pendurado na parede. No meu quarto, eu tinha pendurados cartões postais da Itália, Suíça e África do Sul, e eram esses lugares que povoavam minha mente antes de dormir.

Minha primeira viagem internacional sozinha foi para Londres. Lembro que na época eu já não morava com meus pais e tinha abdicado do meu carro para guardar dinheiro e comprar meu apartamento. Morava ao lado do metrô Ana Rosa em São Paulo e andava para cima e para baixo utilizando transporte público. Eu me achava o máximo por ter conseguido me livrar do símbolo máximo de status do capitalismo paulistano: o carro.

Em Londres, percebi que lá essa era a regra: todo mundo usa o metrô e ninguém liga para roupa que você está vestindo. Às cinco da tarde os pubs estão cheios, a Oxford Circus e a Piccadilly Circus estão bombando. Todo mundo na rua se divertindo. Enquanto as pessoas em São Paulo passavam horas no trânsito se lamentando, as pessoas em Londres estavam vivendo! Foi o meu maior choque perceber isso.

Voltei muito feliz por ter tido a experiência de me virar sozinha e perceber como é diferente a visão de mundo e estilo de vida europeu. Brinco que no início nós fomos colonizados pelos portugueses e mais tarde pelos norte-americanos. Nosso sonho é comprar e comprar e para isso temos que trabalhar e trabalhar. Basicamente é nisso que a vida dos yankees (e a nossa) se resume. Foi então que depois de anos eu resolvi morar fora.

No meu primeiro texto para o BPM, eu trouxe os pontos positivos desta decisão e no texto seguinte, o lado B de quem decide sair da sua zona de conforto e se jogar no desconhecido. E o primeiro choque de realidade que tive depois de fazer contas e mais contas para saber se teria dinheiro suficiente para recomeçar, foi constatar que eu, que sempre tentei manter as finanças pessoais muito organizadas, também era uma acumuladora. Logo, percebi que teria que me desfazer de basicamente tudo para ir viver fora.

Eu tinha coleção de óculos de sol, de sapatos sociais, tênis para correr, um closet repleto de roupas que muitas vezes ainda estavam com etiquetas. Foram semanas de trabalho para separar o que viria comigo, o que seria guardado para trazer depois, o que seria vendido e o que seria doado.

Isso sem falar nos utensílios domésticos! Caminhos de mesa bordados, rendados, de várias cores, modelos e formatos. Guardanapos de pano que sempre esperavam uma ocasião especial para serem usados, mas, quando a tal ocasião chegava, eu ia comemorar jantando fora (seria cômico se não fosse trágico!). Taças de champanhe, de vinho, de água, de cristal, de bico de jaca e por aí a lista seguia, sem fim.

Gente, mas quando foi que eu comprei tudo isso? Eu pensava sem nem me lembrar! Pois bem, ao chegar na Itália fiquei em acomodações do Airbnb pelo período de três meses. E tive que me virar para cozinhar para o meu marido e a minha filha com apenas duas panelas e duas frigideiras.

Eu lembrava do arsenal equipado da minha antiga cozinha e ria sozinha. Engraçado que no Brasil não tinha tempo (e nem paciência) de cozinhar. Mas aqui, como tenho muito mais tempo e gasto em euro, a coisa fluiu naturalmente. Claro que saio para comer, mas cozinhar não é um martírio como era antes, faço com prazer.

Minhas roupas, que pareciam poucas quando saí do Brasil, percebo agora que são mais do que suficientes para viver por um tempão sem precisar comprar nada. E sigo forte, prometendo a mim mesma nesse mantra diário de que tenho tudo que preciso para ser feliz. Hoje, com duas malas de 32 quilos me sinto muito mais leve.

Aprendi a usar roupa social com tênis. Aprendi a usar moletom com jaqueta de couro e ainda fazer pinta de descolada, ou seja, tenho um guarda-roupa versátil e moro num lugar que ninguém vai ficar reparando muito se eu uso a marca x, y ou z. E se reparar, a verdade é que eu não estou nem aí! Quem cruza o Atlântico e deixa tudo para trás, não vai se preocupar muito com o que o povo daqui vai pensar de si. Porque a verdade é que sempre vai ter alguém reclamando de você. Sempre vai ter aquele que te acha chata, ruim, metida, arrogante, brega e seja lá qual adjetivo você preferir. O importante é você estar bem com você.

Essa foi, com certeza, a maior lição que aprendi ao resolver morar fora: como compramos coisas por impulso, por acharmos que precisamos, por termos espaço em casa dando sopa, por quereremos estar inseridos na sociedade, por acharmos que merecemos, por estarmos entediadas…

Escolha o argumento que você preferir. Eu já comprei por todas as razões acima. Acho que esse choque de realidade de ter que abrir mão, em algumas semanas, de quase tudo o que eu comprei durante uma vida, me fez ver que comprei coisas que hoje não fazem mais sentido para mim. E, mais ainda, o fato de que hoje, vivendo com muito menos me sinto muito mais feliz do que antes, é a prova para mim de que aquela frase “O que realmente importa na vida não são coisas”, é a mais pura verdade.

E você, já parou para pensar que se fosse morar fora, teria que se desfazer de tudo o que comprou durante a sua vida? Abra as portas dos seus armários e pense no que você levaria com você.

Tem uma frase do Nietzsche que é muito boa e que se enquadra muito bem na conclusão do texto: “E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.”

Arrivederci!

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15 comentários

Arilda Costa McClive Novembro 4, 2017 at 9:34 pm

Gostei do seu texto. Morei 14 anos na Itália e atualmente moro nos EUA. Sei exatamente o que vc está dindo sobre se liberar do que não é necessário. Como você gosta muito de viajar acho que vc vai gostar de dar uma olhada e até seguir o trabalho da minha filha Celine da Costa. Ela nasceu em Roma, quando eu morava aí e agora viaja o mundo escrevendo para publicações Americanas, entre ela Forbes Magazine e Huffington Post. Aqui está a página dela no Instagram :https://www.instagram.com/thenomadsoasis/

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Novembro 6, 2017 at 11:45 am

Olá, Arilda,
que delícia ter uma filha desprendida e bem sucedida, hein?
É sinal de que você mostrou o caminho e sempre esteve por perto quando ela precisou e precisa.
Espero ter essa sabedoria com minha filha também.
Estou seguindo a sua filha no instagram. Quem sabe um dia não crio coragem e me jogo numa aventura assim também!
Obrigada pelo comentário.
Um beijo,
Ana

Resposta
Ana Carolina Poli Novembro 5, 2017 at 1:57 pm

Ótimo texto, Ana! Eu sinto o mesmo sobre esse consumismo compulsivo, e atualmente também estou guardando dinheiro para planos futuros, que são muito mais importantes do que qualquer sapato ou bolsa nova, né? Agora vai explicar isso pro resto do mundo! Sim, somos loucas! Hahaha 🙂 e espero que continuemos sendo!
Beijos,
Ana

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Novembro 6, 2017 at 11:43 am

Ana, se isso é ser louca, vamos morrer loucas e felizes hahaha
Seus sonhos são a coisa mais importante na vida o resto é acessório.
Beijos,
Ana

Resposta
Ianca Rod Novembro 6, 2017 at 10:41 am

Adorei o texto! Ainda não sai do Brasil, mas essa reflexão já vem rondando minha mente há algum tempo. Indico muito o filme “Fight Club” que fala exatamente sobre isso.
“Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don’t need, with money we don’t have, to impress people we don’t like”.

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Novembro 6, 2017 at 11:41 am

Olá, Ianca, muito bom seu comentário, esse filme é ótimo!
É bem isso mesmo, comprar por impulso faz parte de um ciclo vicioso que devemos quebrar. Ter em mente que sentir e viver é muito mais importante que ter.
Um abraço,

Resposta
Johana Quintana Novembro 8, 2017 at 1:02 pm

Ana, sou colunista também, escrevendo sobre Londres. Fiquei feliz em saber que compartilhamos a mesma visão sobre Londres, que, ironicamente, é considerada por muitos uma das capitais da moda. A verdade é que deveria ser considerada a capital da criatividade, pois esse povo Londrino faz de 30 peças mais de mil looks e ainda saem como estilosos! 🙂

Resposta
Ana Novembro 13, 2017 at 8:55 pm

Olá, Johana, já li vários posts seus, adoro o jeito que você escreve. A impressão que eu tenho é que em Londres tudo fica muito cool e o povo se vale com isso nas roupas hahaha
Vivendo e aprendendo.
Boa sorte na busca por um emprego bacana no Brasil e que a adaptação seja fácil e rápida 🙂
Um beijo!
Ana

Resposta
Priscila Brazuna de Souza Novembro 25, 2017 at 5:00 pm

Interessante suas colocações. Quando olho pra minha casa e penso que, se um dia quiser realizar meu sonho de morar em outro país, terei que me desfazer de quase tudo… me dá um frio na barriga! A maioria das minhas coisas têm uma história. E ainda vem a questão: chegando no outro país terei que comprar tudo de novo…. eu sempre gostei de cozinhar e por isso equipei minha cozinha. E como se desfazer? E o dia eu precisar voltar para o Brasil? Nossa…. não é fácil! Coração fica dividido…. Isso sem contar outras decisões como o aprendizado da língua e a escola pros filhos….

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Novembro 27, 2017 at 5:47 pm

Olá, Priscilla.
Realmente não é fácil se desfazer das coisas, principalmente quando tudo foi comprado com muito suor do trabalho duro de cada dia.
A dica é se você pretende voltar, não vender tudo. Eu deixei as coisas mais importantes na casa da minha mãe e pretendo trazer aos poucos para cá.
Mas nesse caso é preciso ter com quem deixar.
Boa sorte e espero que dê tudo certo para você!
Ana

Resposta
Camila Franzoni Dezembro 22, 2017 at 7:56 pm

Ana Paula, me identifiquei com cada palavra do seu texto! Passei dois anos mudando de país a cada três meses e sei bem o que é se livrar das coisas e carregar só o essencial.
Concordo que este é o maior aprendizado da vida na Europa. Você se torna mais livre, leve, solta e muito mais feliz quando aprende que experiências valem muito mais do que qualquer carro zero na garagem.
Parabéns pelo ótimo texto! =)

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Dezembro 26, 2017 at 4:07 pm

Obrigada, Camila.
É isso mesmo, da vida só levamos o que sentimos e vivemos.
Um 2018 abençoado à você e à sua família e que você possa sorrir a maior parte dos seus dias.
Um beijo,
Ana

Resposta
Janaína Janeiro 2, 2018 at 12:45 am

Oi Ana, tudo bem?

Adorei seu texto, muito interessante. Morei em Gênova há 2 anos e também tive esse choque cultural, pois, geralmente, nós brasileiros somos “criados” para uma falsa ostentação, ao meu ver. O povo europeu me pareceu mais simples nesse sentido. Vi que você é advogada, estou prestes a me formar e fazer o exame da ordem, pretendo retornar à Itália em breve, mas, tenho dúvidas sobre as possibilidades de utilizar a minha formação acadêmica por aí. Como foi sua experiência nesse campo?

Agradeço desde já.

Um abraço…

🙂

Resposta
Ana Paula Ganzarolli Janeiro 23, 2018 at 9:33 pm

Olá, Janaína, tudo bem?
Já te digo que para advogar na Itália sendo formada pelo Brasil não é algo rápido, nem barato, nem fácil.
Para você ter ideia iniciei esse processo há mais de um ano e ainda está (muito) longe de terminar.
Mas se esse é seu objetivo, você deve perseverar.
Desejo muito boa sorte na sua empreitada!
Abs.,
Ana

Resposta
Tatiana Buzzi Maio 2, 2018 at 9:13 pm

Li seu texto e me vi nele! Vivi a mesma situação! É exatamente como você descreveu!!! Saí de uma casa com 7 banheiros, meu quarto tinha pelo menos 10 portas de armário, uma cozinha totalmente equipada… e vou te dizer que até hoje aqui na Itália me viro muito bem com 3 panelinhas e 1 frigideira cozinhando pra 4!!! Vivo muito melhor com muito menos!!! Quando nos mudamos para cá buscávamos viver e não ter!!!
Vou compartilhar seu texto!!! Adorei!!! Muito bom!!!

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