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A minha experiência na Cruz Vermelha Francesa

A minha experiência na Cruz Vermelha Francesa.

A parte mais difícil da minha decisão de vir morar na França, para acompanhar o meu marido a trabalho, foi abandonar a minha carreira. Como eu sou psicóloga, não posso exercer a psicologia fora do Brasil a menos que eu peça uma validação de diploma. No caso da França, eu preciso mandar um dossier para análise de um comitê, que exige entre outras coisas, o francês fluente. Eu não tenho o francês fluente e pretendemos passar apenas dois anos aqui, então achei que a validação de diploma não era uma opção para mim e resolvi continuar com os atendimentos online e procurar coisas para preencher o meu tempo.

Dentre essas coisas, veio a ideia de participar da Cruz Vermelha como voluntária, pois eu imaginava que seria uma chance de poder trabalhar como psicóloga voluntária sem ter que passar por toda a burocracia da validação de diploma. Meu primeiro passo foi enviar uma mensagem de interesse em voluntariado pelo site da Cruz Vermelha e, em seguida, recebi um email me convidando para uma reunião de apresentação. Nessa reunião eles apresentam os princípios, valores e estrutura da Cruz Vermelha à nível mundial e local. A unidade de Toulouse, por exemplo, conta com quase 800 voluntários e apenas 2 pessoas contratadas pela Cruz Vermelha. Acho incrível imaginar uma estrutura desse tamanho gerida quase que totalmente por voluntários.

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Nessa reunião tinham umas 40 pessoas (confesso que fiquei surpresa com a quantidade de interessados) e eles nos deram várias opções de engajamento nas atividades da cruz vermelha como trabalhar na sede, ajudar as pessoas em situação de rua com a correspondência, email, ajuda burocrática, distribuir comida, separar as roupas e doações que chegam além de trabalhar como socorrista e trabalhar no serviço de higiene e saúde, onde as pessoas em situação de rua vão tomar banho e receber cuidados médicos. Acho que isso era tudo, mas posso estar me esquecendo de algo.

Eu escolhi o serviço de higiene e saúde, pois é onde os médicos, psicólogos, dentistas e enfermeiros trabalham. Escrevi um email para o responsável pela apresentação que me encaminhou para o coordenador desse serviço. Marquei uma visita e, para meu desapontamento, descobri que nem como voluntária eu poderia trabalhar como psicóloga na França, embora eles estivessem muito precisando de mais profissionais de saúde.

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(Uma pausa no meu texto para dizer que a Cruz Vermelha precisa muito de voluntários especializados, então, profissionais da saúde que tenham licença para trabalhar na França são muito bem-vindos e qualquer tipo de ajuda especializada pode ser aproveitada pela associação, não só os profissionais de saúde).

Voltando para o meu momento de escolha, mesmo não podendo atuar como psicóloga, resolvi escolher esse serviço, pois me daria um contato direto com as pessoas em situação de rua e eles me disseram que o fato de eu saber falar inglês ajudaria muito, pois lá eles recebem muitos imigrantes e nenhum dos voluntários fala inglês.

Após escolher o serviço que gostaria de participar fui encaminhada para a sede para fazer o “dossier bénévole” (meu cristo, como os franceses adoram um dossier). Nessa reunião precisei pagar uma taxa de inscrição, que pode ser de 10,00 ou 20,00 euros conforme a situação da pessoa no país, e fui apresentada a todo o sistema interno de funcionamento da Croix Rouge. Aqui mais uma pausa para um susto. Nunca poderia imaginar uma estrutura tão grande e tão organizada. Vários sistemas intranet regulam os cursos oferecidos e o engajamento das pessoas nas atividades.

Então, no meu caso, eu preciso sempre fazer a inscrição na intranet nos dias em que eu vou no serviço de higiene e saúde, e também preciso, obrigatoriamente, participar de três cursos de iniciação na Cruz Vermelha. A associação possui vários cursos e todo mundo que inicia o trabalho voluntário na Cruz Vermelha é obrigado a fazer ao menos os três cursos iniciantes. Depois disso, gradualmente, cada um pode ir escolhendo o seu nível de engajamento, ir fazendo mais cursos e se aprofundando na estrutura da Cruz Vermelha.

Como eu comecei há um mês eu ainda não fiz nenhum dos cursos iniciais, mas posso  depois voltar aqui para contar como foi. Nessa mesma reunião eu fui perguntada se eu gostaria de participar das missões de ajuda em caso de catástrofes. Eu disse que gostaria de participar sim, mas fui informada que eu só poderia ser chamada depois de fazer os três cursos iniciantes.

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Depois da minha inscrição, eu comecei a frequentar o centro de higiene e saúde e tenho tido uma ótima experiência. Como lá é um lugar onde as pessoas em situação de rua vão tomar banho, faltam voluntários, pois ninguém acha um serviço muito agradável. No fim das contas eu acho o nosso papel lá fácil de executar. Temos que servir café e dar todos os suprimentos necessários para o banho como toalha, sabonete, shampoo, além de controlar a entrada e saída deles dos chuveiros. O fato de eu falar inglês realmente tem ajudado, pois chega muita gente lá que não fala francês e precisa de interprete para falar com os médicos e enfermeiros, por exemplo. Os usuários do sistema são, na maioria, homens e imigrantes. O que os voluntários me contam é que os abrigos existentes em Toulouse não dão conta de receber todo mundo que precisa de abrigo, e que a preferência é para mulheres e crianças, então, sobram muitos homens na rua. Os imigrantes são, em geral, ilegais e usam a estrutura da Cruz Vermelha, pois não podem ter acesso a muitos serviços oferecidos pelo governo Francês, já que são ilegais.

O ambiente no serviço costuma ser muito agradável, os usuários são muito gentis e passam a manhã por lá conversando entre eles e com os voluntários. Aos poucos vou conhecendo a história de vida de cada um, de onde vieram, porque estão na rua, há quanto tempo estão na França. Tem sido uma experiência enriquecedora.

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3 comentários

Karla de Paula Junho 29, 2018 at 3:28 pm

Oi Fernanda! Estou bastante agradecida por ter encontrado o seu depoimento na internet, ” os encontros acontecem quando acreditamos”, e eu estava mentalizando bastante encontrar alguém que já tivesse feito o caminho no qual estou começando.
Você teria um página na qual eu possa te seguir? Muito boa sorte na sua jornada.
Grande abraço.
Karla

Resposta
Fernanda Libardi Julho 4, 2018 at 4:56 pm

Oi Karla, tudo bom? Obrigada! Fico super feliz que você gostou do texto. Eu tenho outros textos aqui no site, mas ainda não tenho um blog. É um projeto antigo, mas ainda não saiu do papel. Tudo que eu tenho é um site, mas só para os atendimentos, nada contando sobre o meu percurso aqui na França. Se você quiser saber mais pode me mandar um email que conversamos.
Abraço, Fernanda.

Resposta
Jorge Andre dos Santos Outubro 21, 2018 at 9:15 pm

Boa noite Fernanda, tudo bem, Eu sou Jorge de São Paulo também sou voluntário da Cruz Vermelha, o motivo que me leva a escrever lhe é para obter alguma informação sobre curso de Frances , tendo visto um blog de umas meninas que estudaram em Tolouse, vi o site da Cruz Vermelha e fiquei super interessado em estudar Frances e ser voluntário.
Vou me aposentar agora e estarei livre para o ano que vem, sou professor , formado em Turismo e Hotelaria e um curso de Administração de Empresas na Irlanda, sou fluente em Inglês mas não falo Frances, consigo entender um pouco pois já fiz um curso básico, mas muito pouco.
Se você souber também de um lugar onde possa ser voluntario full time e puder viver na instituição também seria interessante no mais. Terei meus próprios meios monetários pois estarei aposentado.
Muito obrigado por qualquer informação que possa me dar.

Cordiais Saudações

Jorge Andre dos Santos

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