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Croácia

A população croata

A população croata.

É provável que a última notícia que você tenha visto a respeito da Croácia tenha sido no período de grande fluxo migratório de refugiados para a Europa nos últimos cinco anos, e que a penúltima notícia tenha sido a respeito do fim da Iugoslávia e assim da independência croata.

Vou te dizer que essa independência aconteceu há mais de 25 anos e isso mostra como a quantidade de informações que recebemos das mídias populares a respeito dessa região é baixa. Partindo disso, independente das palavras a seguir, faço um convite para você pesquisar mais sobre essa história recente da Croácia e também a mais antiga, eu posso garantir que vale a pena.

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial até a década de 1980, existia uma união entre seis repúblicas: Sérvia, Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedônia, sendo essas repúblicas controladas pelo poder socialista da antiga União Soviética. A questão é que essas repúblicas já possuíam diferentes características, crenças, tradições e outros aspectos específicos da cultura antes desse período e isso fez com que os sentimentos nacionalistas e tais divergências culturais fizessem com que esses povos quisessem dar fim a essa união.

Uma das principais características divergentes nessa região é a religião. Os croatas são os adeptos do catolicismo, os bósnios chamados de “bosniaks” são os muçulmanos e os sérvios, adeptos do cristianismo ortodoxo. O país que melhor expressa essa regionalização pelo critério religioso é a Bósnia, onde as três religiões convivem de forma muito próxima, principalmente na capital Sarajevo.

O território da Bósnia foi um território de mais guerras e por isso essa convivência é harmônica hoje em dia, já que a própria população espera por tempos de paz e tranquilidade no país.

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Falando mais especificamente da Croácia, gostaria de dar um exemplo que para mim, expressa muito bem a situação atual desses três países e dessas três religiões.

Em uma viagem que fiz com a menina que morava comigo para o interior da Croácia, na região da Eslavônia, conheci dois amigos dela em uma das noites que saímos para conhecer o centro histórico. Num certo momento, um deles tirou da carteira sua identidade para mostrar sua foto e fazer uma piada. Quando eu a peguei na mão, logo vi que aquela identidade vinha da Bósnia, e então exclamei:

– Nossa, que legal, você é bósnio!

O rapaz olhou para mim um pouco desconfortável e logo negou dizendo que ele era croata. Mas eu insistia.

– Como não? Sua identidade é da Bósnia, isso quer dizer que você nasceu na Bósnia e por isso, é bósnio.

Eu não tinha naquele momento, a noção real do erro que eu estava cometendo. Foi quando todas as outras quatro pessoas da mesa tentaram me explicar ao mesmo tempo o que estava acontecendo.

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Mesmo depois de quase uma hora de explicações, eu ainda não entendia, era algo que simplesmente não entrava na minha cabeça.

Pois bem, essa situação se repetiu mais algumas vezes com pessoas que conheci em Zagreb, na cidade onde eu morava. Aconteceu com a segunda menina com quem morei junto e aconteceu com a minha melhor amiga na faculdade. Até depois de tanto “bater a cabeça”, a ficha caiu e percebi como era muito mais simples do que eu esperava.

A conclusão é que mais do que o real local geográfico onde você nasce, importa a cultura da sua família a qual é principalmente determinada pela religião dela. Nesse caso do menino que nasceu na Bósnia, mas se considerava croata, a família dele era católica e tinha se mudado para a Bósnia nesse período há cerca de 25 anos de turbulência na região.

Essa turbulência na verdade foi entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990 quando essas repúblicas que antes eram juntas começaram a lutar por suas independências. A Sérvia era o país que nessa luta, estava contra a separação desses grupos e isso criou uma grande guerra entre croatas e sérvios.

Castelo de Medvedgrad, símbolo da independência croata da Iugoslávia. Foto: arquivo pessoal.

Nesse um ano em que morei na Croácia, tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas as quais seus pais lutaram nessa guerra e que até hoje têm uma relação difícil com tudo que aconteceu. Por um lado, há pessoas que entendem que a culpa por tantas pessoas terem morrido nessa guerra é dos políticos, pois essa guerra se tratava de um desentendimento político, e então entendem que os croatas e sérvios devem se respeitar mutualmente e igualmente. Já outras pessoas (a minoria), enxerga os sérvios como sendo os responsáveis pela morte de tantas pessoas nesse período e por isso, possuem certa aversão aos sérvios até hoje.

Por tudo isso, quando se fala da população croata atual, pode-se dizer que ela é formada por pessoas e famílias que no último século tiveram um grande fluxo migratório entre os países próximos. Se analisarmos os que se consideram croatas, estes estão espalhados por todos esses países vizinhos e então percebemos que é complicado, no caso desse país, definir como croata alguém que nasce na Croácia, pois a cultura e tradição familiar muitas vezes falam mais alto e acabam por definir essa parte da identidade individual.

Não sei para você, mas para mim tudo isso parece muito louco até hoje, depois de um ano que voltei para o Brasil, e antes de vivenciar isso, nunca havia pensando nessa possibilidade nem muito menos estudado sobre isso. Fica a reflexão sobre os focos das nossas curiosidades a respeito de outras culturas e uma ideia das inúmeras possibilidades de formação cultural que existem no mundo. É meio que aquela história de que quanto mais aprendemos, mais sentimos que temos o que aprender.

Obrigada por chegar até aqui em mais um texto. Nunca é simples falar sobre esse país, mas é sempre muito prazeroso refletir sobre as novas perspectivas que ele me levou a ter sobre a vida. Por isso, eu também espero ter despertado isso em você de alguma forma com essas últimas palavras.

Pozdrav (“saudações” em croata) e um abraço!

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