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Croácia

Por que o mar é tão importante para os croatas?

Feche os olhos e se imagine com os dois pés na areia morna, seu cabelo sendo balançado pela brisa marítima e você com seu corpo virado para o mar.

Essa é geralmente uma daquelas coisas que quando alguém quer que a gente relaxe, pede para fazermos, não? É curiosa essa sensação, você não acha? E isso não é uma informação científica, mas eu acredito que a grande maioria de pessoas no mundo gosta de ir à praia, de sentir e de estar próximo ao mar. De várias maneiras essa posição nos traz sensações de calmaria, leveza e se podemos chamar assim, uma paz para o nosso corpo e para o nosso psicológico.

Independentemente se gostamos ou não do ambiente social da praia, esse sentimento é comum entre nós. Mas se você já conheceu alguém nascido na Europa, sabe que esse sentimento não é só considerado como bom, e sim algo necessário quando é verão. Talvez pelas baixíssimas temperaturas no inverno, o verão para os europeus tem um significado um pouco maior do que para nós, brasileiros.

Quando é verão na Europa, é quase obrigatório se dirigir às costas do continente e ficar por lá durante um ou até mais meses, porque há de se aproveitar o calor e as belas praias europeias. E na Croácia isso não é diferente, mas por ter morado lá, talvez a relação deles com o mar tenha tido pouco mais de destaque para mim.

Conheci em Zagreb uma carioca muito simpática e alegre, a Jeovana, que estava fazendo uma viagem por vários países europeus, africanos e asiáticos durante um pouco mais de um ano. Depois de um tempo acompanhando suas experiências nas redes sociais, vi que ela tinha sofrido um acidente, feito uma cirurgia na Croácia e estava contando quais foram os desdobramentos desse processo por lá.

Quando pedi para a ela compartilhar essa história, foi surpreendente perceber a quantidade de questões existentes quando se faz uma cirurgia fora do seu país. Ela relatou problemas com a língua, com o isolamento, a discordância com os procedimentos, e entre outros os quais podemos tratar nos próximos textos com mais cuidado e atenção por se tratarem de assuntos delicados e importantes para entender a experiência estrangeira de alguém.

Mais para o fim de seu relato, quanto à sua fase de recuperação praticamente final, ela comentou:

“Na consulta seguinte, eu saio de lá sem os pontos e com a recomendação de começar a fisioterapia e ir ao mar, mesmo sem poder nadar, somente sentar na beirinha, água rasa e deixar a água salgada tocar o joelho. Aquilo para mim veio como outra surpresa. Eu já tinha escutado alguns amigos croatas falarem sobre as propriedades de cura do Mar Adriático, mas em relação a gripe, rinite e outras coisas mais simples. Não para uma lesão tão séria. Além do mais, como eu poderia andar com muletas até a praia, depois andar nas pedras da praia, sentar no chão, como eu conseguiria fazer aquilo?

Ao falar com a fisioterapeuta, a primeira coisa que ela me perguntou foi se eu já estava indo ao mar. Eu expliquei que não achava seguro andar em cima das pedras com as muletas, que me preocupava em pegar alguma infecção por conta da cicatrização ainda não ter terminado, que isso que aquilo. Ela insistiu e disse que a minha recuperação seria muito melhor se eu fosse ao mar todos os dias e me garantiu que não tinha mais risco de infecção. Eu achei precipitado, afinal, tinha somente 3 semanas que eu tinha feito a cirurgia (!!!) mas resolvi seguir as recomendações médicas.

Daí pra frente, comecei a notar que todas as pessoas que eu encontrava ou que me paravam na rua para perguntar o que tinha acontecido, especialmente idosos, me faziam a mesma pergunta: você tem ido nadar? Ou simplesmente me diziam: vá para o mar que melhora.

A relação dos croatas com o mar foi realmente algo que ficou marcado em mim. Por mais que eu venha de uma cidade costeira e tenha crescido perto de praias, nunca percebi essa importância do mar para nós como um povo como vi por lá. Uma consciência coletiva dos benefícios que o mar pode trazer. Uma amiga me contou que por lá a maioria das pessoas aprende a nadar no mar e não em clubes ou escolinhas como aqui. E alguns, como o avô dela, simplesmente jogam as crianças no mar e esperam que eles nadem. Não sei se era só história para eu rir ou se realmente é verdade, mas o fato é que eu senti na pele os efeitos do mar de lá. Sempre que eu não podia ir à praia por algum motivo, sentia que o joelho ficava mais travado, mais pesado. E nos dias que eu ia, voltava mais leve na perna e mais tranquila no coração. Não sei se pelo excesso de sal na água, ou se realmente é algo de energia, ou se é tudo, mas agora pra mim o mar também virou remédio.” (Jeovana Barb, out/2017)

Praia de Kupari – Croácia. Foto: arquivo pessoal.

Como já comentei em outros textos aqui, eu trabalhei durante um período na costa croata. Eu chegava para o trabalho às 15 horas e saía 01 da manhã, então eu tinha um horário de manhã para aproveitar a cidade e a região, mas sempre estava muito quente e como estava cansada do trabalho, não ia muito à praia porque era um pouco distante de onde eu morava. Pois quando chegava ao trabalho e comentava sobre o quanto estava quente ou sobre uma dor de cabeça, por exemplo, a primeira pergunta que me faziam era “mas você foi ao mar hoje? É por isso.”

Enfim, gostaria de te pedir desculpa porque não conseguirei responder à pergunta do título deste texto, porque eu realmente não sei o porquê dessa exaltação da nossa relação com o mar, mas o que resta de toda essa experiência é a percepção de como essas pessoas valorizam as coisas simples e impagáveis da vida. Os sentimentos, sensações, a calma, paz, a saúde mental sem precisar gastar dinheiro com médicos ou medicamentos. Agora percebo como isso soa aconchegante para a gente, porque parece aquela receita de avó de tomar um chá ou comer certo alimento que terá uma grande reação.

Essas são algumas das possibilidades, mas espero que você possa ter essa experiência e que responda à pergunta proposta melhor do que eu. Às vezes é irritante, às vezes é fascinante, mas assim é a maioria das coisas na Croácia.

Até mais!

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1 comentário

Thamires Abril 9, 2018 at 8:34 pm

Que texto incrível!!!!!!! Refletir sobre uma percepção cultural tão distinta e interessante da nossa nos faz tão bem! Já imagino com novos olhos como é ver o mar…rsrs

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