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Adaptação na Itália

Já faz seis meses que estou morando na Itália e, apesar da adaptação ser algo muito particular, pois envolve mudanças de hábitos e estilo de vida que eu tinha no Brasil (que nem sempre é igual ao das pessoas que estejam lendo esse texto), falar sobre a adaptação na Itália pode ser interessante para quem esteja pensando em morar no país. Assim, resolvi escrever informações que, apesar de serem um pouco particulares, podem servir como referência às pessoas.

Em breve resumo, no Brasil eu tinha uma vida típica da classe média paulistana: possuía carro, convênio médico e faxineira três vezes por semana, ia a bons restaurantes e fazia pelo menos uma viagem internacional por ano, além disso, a minha filha de 2 anos ia à escolinha particular. O programa familiar preferido aos finais de semana era ir a parques, shoppings ou alguma atração infantil, geralmente paga.

Bem, e o que mudou na minha vida desde que me mudei para a Itália? Nós (ainda) não temos carro, primeiro porque o transporte público na região de Milão atende muito bem à população, segundo porque a manutenção de um carro é cara em qualquer lugar do mundo. Aqui, com certeza é mais barato que no Brasil, mas ainda assim resolvemos que nesse início seguraríamos os gastos porque o custo de vida em euro é um pouco difícil, especialmente quando a situação financeira ainda não está estabilizada. Além da questão financeira, tem a questão burocrática, pois o prazo de utilização da carteira de motorista brasileira tem que seguir uma série de requisitos e, infelizmente, não nos enquadramos na categoria da conversão da nova lei que entrou em vigor recentemente.

Hoje em dia nós não temos convênio médico e, sinceramente, é um alívio se livrar dessa preocupação de ter um convênio. Primeiro porque no Brasil você paga duas vezes (os impostos e o convênio propriamente dito). E se não pagar, pode ter certeza que vai acontecer algo (lei de Murphy) e você vai ficar naquele desespero se vai ser (bem) atendido na rede pública.

Quando fiz a minha tessera sanitaria (equivalente ao cartão do INSS no Brasil), escolhi o meu médico de família (que fica a 10 minutos a pé da minha casa). Quando precisei marcar uma consulta, observei que a instrução dada pela Agenzia Sanitaria (equivalente ao INSS no Brasil) dizia que os agendamentos das consultas com ele eram feitos às segundas e sextas-feiras, das 8 às 9 horas. Liguei para agendar a consulta e quem fazia o agendamento era o próprio médico. Consegui marcar a consulta já para o dia seguinte. Mas outro fato me chamou a atenção: ele não tem secretária! No início foi um choque, porque é tão fora da nossa realidade brasileira um médico não ter uma secretária, mas depois, pensando bem, faz todo o sentido. Na Itália se aplica a política do “do it yourself” (ou faça você mesmo) em tudo, até nesses pequenos detalhes.

Aqui vou a bons restaurantes, mas não com a frequência que ia no Brasil, porque estamos nessa fase inicial de conter um pouco os gastos, porém, isso não quer dizer que não comemos bem. Em qualquer mercado italiano você encontrará uma infinidade de massas recheadas dignas de bons restaurantes no Brasil, molhos prontos deliciosos de vários sabores, grande variedade de frutas e verduras, além de diversos tipos de queijos, embutidos e carnes. No final das contas, comemos muito melhor na Itália do que no Brasil e por um custo muito menor.

Eu não tenho faxineira para me ajudar com o serviço doméstico. Todo o serviço é feito por mim e pelo meu marido. Aliás, talvez esse tenha sido uma das coisas mais difíceis de se adaptar depois da língua e do clima. Eu até escrevi um texto com dicas práticas de como tornar a rotina da casa mais prática (clique aqui). Mas a verdade é que nenhuma dica é melhor do que essa: a família toda tem que ajudar, seja conservando, seja ajudando no dia a dia. E na minha casa essa regra é seguida à risca, a minha filha é incentivada a guardar os brinquedos ao final do dia e o marido é meu parceiro nas tarefas domésticas.

Ainda não fiz nenhuma viagem internacional e, provavelmente a primeira que farei será para visitar a família no Brasil, mas já viajei um pouco pela Itália – fomos à Florença, à Roma, à Verona, enfim, estamos aos poucos conhecendo mais do país que escolhemos para viver e a ideia é, com o tempo, ampliar as viagens aos demais países europeus.

Os programas preferidos aqui continuam sendo ir a parques e a shoppings, este último especialmente agora no inverno. Mas os shoppings italianos não são (nem de longe!) iguais aos brasileiros, são muito menores, com poucos restaurantes, mas sempre com alguma alternativa de diversão infantil que é nosso maior interesse.

A escolinha da minha filha também é paga. As escolas públicas e o ensino gratuito só têm início quando a criança completa 3 anos e, diferente do Brasil, o ano letivo começa em setembro. Uma coisa que me chamou a atenção aqui é que os avós estão sempre presentes, seja nos parquinhos infantis (parco giochi) que estão sempre espalhados pela maioria dos bairros das cidades, seja para levar e buscar os netos na escola. E eu acho isso muito bacana porque, como a vida pode e deve ser mais tranquila, os avós conseguem conviver muito mais com os netos do que no Brasil.

Concluindo, acho que a fase mais difícil da adaptação já passou: agora temos todos os documentos básicos necessários, alugamos a nossa casa (confesso que essa foi, de longe, a pior parte) e temos uma rotina de trabalho. O idioma ainda não está 100%, mas entendemos 90% do que dizem para nós e conseguimos nos comunicar e nos fazer entender. Claro que é trabalhoso e muitas vezes desconfortável não saber exatamente como dizer algo, ou mesmo ter um trabalho danado para fazer algo que no Brasil era automático.

Estamos sobrevivendo ao nosso primeiro inverno europeu e, tirando os dias de chuva em que a umidade aumenta a sensação de frio (usar as roupas certas ajuda muito), graças a Deus a Itália tem muito sol, então quase não neva e não sofremos tanto a privação solar como no resto dos países da Europa. Mas o inverno é muito longo, pois o outono aqui equivale ao inverno no Brasil então, começa a esfriar em setembro e o frio só vai embora em março.

Deixei para o final a saudade da família e dos amigos. Claro que é difícil. Claro que dói perder os eventos familiares importantes. Mas toda vez que bate a tristeza de não estarmos perto de quem amamos, lembro-me de que estamos aqui por opção e não por necessidade. A tecnologia está aí para estreitar as distâncias e, na medida do possível, a minha família sabe da minha vida e dos detalhes do dia a dia, tanto ou mais do que se estivesse no Brasil. E agora eles têm uma ótima desculpa para vir nos visitar!

Nós somos muito mais felizes na Itália do que no Brasil, sem sombra de dúvidas, mesmo tendo nos privado de certos luxos e passado alguns perrengues (clique aqui para saber mais). Mas a verdade é que na Itália temos saúde e educação públicas de qualidade, temos segurança, podemos ir e vir sem medo. A vida no país da bota não é perfeita, a Itália tem uma porção de problemas assim como o Brasil, mas a vida é mais leve, mais tranquila e, principalmente, aprendemos a ser felizes com menos.

Arrivederci!

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1 comentário

Cynthia Julho 17, 2018 at 6:37 pm

amei!!! Obrigada por compartilhar! vou ler todos os outros rs

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