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Mulheres e o tráfico humano na Argentina

Bem, março é o mês da mulher em todo o mundo e decidi sair um pouco da crise econômica e política da Argentina para falar de outro aspecto muito importante neste país: o tráfico humano ou como falamos aqui, la trata de personas.

No meu primeiro ano aqui me chamou muito a atenção o espaço que os meios de comunicação dão a este tema. Fui a algumas exposições, muitas encontradas ao acaso, que abordavam o tráfico (principalmente de mulheres e crianças) de forma muito, mas muito direta. Nada de subterfúgios: as famílias e a mídia gritam bem alto que muitas mulheres e crianças estão desaparecendo da Argentina e as fotos delas estão em todos os lugares.

Num primeiro momento pensei: “eu não sabia que esse era um problema tão grave neste país e somos países vizinhos. Não imaginava que as argentinas eram tão procuradas pelo mercado internacional do tráfico de pessoas”. Depois comecei a ler e a conversar mais sobre o assunto e descobri que não é que aqui mais pessoas são levadas ao tráfico que em outros países latinoamericanos, mas sim que o argentino não admite que o governo não faça nada para impedir. Há pouco tempo, numa conversa com uma aluna que trabalha com as famílias dos desaparecidos políticos do regime militar argentino, ela me disse que acredita que a questão da trata de personas é tão forte porque o argentino não aceita essa ideia de ter um desaparecido. Que essa temática dos desaparecidos está tão entranhada na memória histórica social argentina que essa sociedade não aceita que alguém seja simplesmente levado.

Pensei sobre isso e acho que tem um fundo de verdade, porque ao contrário de outros países que conheci, aqui quando alguém desaparece imediatamente a família procura a televisão e a foto da pessoa começa a ser divulgada o mais rápido possível. Outra coisa interessante é que soubemos aqui de alguns casos onde essas pessoas foram levadas à vida de drogas e prostituição pelas províncias do país e mesmo na Capital Federal e por isso é bastante comum ver pessoas arrancando os papeizinhos com publicidades de serviços sexuais de qualquer lugar porque muitos acreditam que algumas dessas garotas foram colocadas aí através desta rede. Houve inclusive um caso muito notório aqui de uma mãe, Susana Trimarco, que decidiu se vestir de prostituta e frequentar locais de prostituição para descobrir o paradeiro da filha Marita Verón. Marita continua desaparecida, mas a luta de Susana ao entrar neste submundo rendeu, pois diversas mulheres foram liberadas de seus cativeros e em 2007 criou a Fundação María de los Ángeles e com esta já conseguiu trazer à liberdade mais de sete mil mulheres.

Ao ver tanta mobilização alguém pode até pensar que existem inúmeros julgamentos. Mas a verdade é que não é bem assim. O tráfico de mulheres, depois das drogas e armas é o crime que mais gera lucro no mundo. É uma rede grande, com muitas ramificações e está em todos os países e envolve diversos interesses. A Argentina é um país de origem, trânsito e destino do tráfico de pessoas. A maior parte desta exploração é sexual seguida pela exploração laboral. Assim, aqui como em tantos outros países muitas mulheres e jovens simplesmente desaparecem e poucas são as famílias que sabem o que aconteceu. Mas a luta é grande e diária. Há diversos grupos de apoio e de luta contra este crime. Muitos desses grupos colocam fotos e cartazes por toda a cidade. É algo que realmente nos toca porque de repente, num dia qualquer, entramos num ônibus, metrô, ou trem e está lá a foto de alguém desaparecido. Vemos a mesma foto nos postes da cidade e sabemos que tem uma família desesperada por qualquer informação que indique que seu ente querido não tenha caído nas garras desta rede desumana que o transformará num trapo humano para que outros usem a seu bel prazer. A luta é incessante e está ali para que todos possam ver e sentir. Isso é algo admirável neste povo, que grita quando é necessário.

Algumas estatísticas da UFASE (Unidad Fiscal de Asistencia en Secuestros Extorsivos y Trata de Personas): quanto à nacionalidade das vítimas, 31% boliviana, 28% argentina, 21% paraguaia, 10% dominicana, 5% peruana, 3% colombiana e 2% uruguaia. O recrutamento acontece 83% na Argentina, 12% no Paraguai e 1% na Bolívia. Enquanto que o destino é 94% para a Argentina, 4% ao Paraguai e 2% ao Chile.

Em 2011 foi criado e disponibilizado o número 145 para receber qualquer tipo de denúncia. Ele funciona 24h por dia, todos os dias do ano.

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6 comentários

Maila-Kaarina Rantanen Março 6, 2015 at 12:49 pm

Olá Ina!
Parabéns pelo texto. Sempre admirei a característica argentina de não aceitar que o governo tenha uma postura omissa a questões que afetam ao povo. À população sempre protesta e há muitos grupos ativistas e ongs. Quanto a questão do tráfico de pessoas, isso é um mal horrendo no mundo. Na Russia e nos países Bálticos este é um problema seríssimo.

Resposta
Ina de Oliveira Março 18, 2015 at 2:21 am

Oi Maila-Kaarina,
Que bom que gostou do texto! O assunto é muito complexo para ser tratado em apenas um post, mas é importante as pessoas saberes como esse crime afeta o país como um todo. Abraços.

Resposta
Valdirene Fevereiro 12, 2017 at 5:13 pm

Ina não sei se pode me responder,mais pode existir tráfico de mulheres brasileiras para Argentina também?

Resposta
Ina de Oliveira Fevereiro 13, 2017 at 3:04 pm

Oi Valdirene,
Sim, principalmente na Tríplice Fronteira. No país em si, nao é tao forte a presença de brasileiras em prostíbulos, por incrível que pareça e apesar de toda a fama, o físico da mulher brasileira nao agrada muito aos gostos argentinos/portenhos de um modo geral. Mas no restante do país, nas cidades fronteiriças sim.

Resposta
Ester Avelino Moreira Ribeiro Abril 25, 2017 at 12:54 am

Oi Ina, tudo bem? Estou fazendo um artigo na faculdade e o tema é “O tráfico de mulheres e a relação com os direitos humanos”. Me interessei pelo seu texto e gostaria de trocar “figurinhas” com você. Se possível, responda diretamente no meu e-mail “[email protected]”. Desde já, agradeço.

Resposta
Ricardo Fevereiro 28, 2018 at 3:49 pm

Em algumas partes do Sul do Brasil existem muitas prostitutas argentinas. E isso há muito tempo. Meu pai é de Uruguaiana e um dito comum na época no RS, quando havia uma prostituta nova num local, era: “tem argentina nova na zona”.

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