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Argentina

Argentina – Os imigrantes aceitáveis

Estava acompanhando a questão dos refugiados na Europa e em muitas notícias estava muito claro que independentemente dos motivos, muita gente não gosta da ideia de compartilhar a sua cidade, o seu país com “outros”. E então lembrei que ainda não abordei aqui no BPM sobre a questão dos imigrantes na Argentina, mais especificamente em Buenos Aires, e com tantas pessoas falando em vir morar aqui, está mais que na hora de abordar o tema.

Como é ser imigrante na Argentina?

A resposta vai depender da nacionalidade da pessoa que vai responder. Sim, é isso mesmo. Há um preconceito muito forte por parte dos argentinos em relação aos peruanos, bolivianos, paraguaios, chineses e agora, os colombianos entraram na dança também. E nem vou falar dos chilenos, que são praticamente odiados por aqui por causa de um fato histórico que aconteceu entre os dois países há décadas.

Fonte: http://jesusblancou.tumblr.com/post/97797468649/la-base-cerebral-de-los-prejuicios-y-los
Fonte: http://jesusblancou.tumblr.com/post/97797468649/la-base-cerebral-de-los-prejuicios-y-los

Algumas vezes perguntei a alguns amigos e alunos de onde vem esse preconceito e muitos responderam que eles não gostam de pessoas com traços indígenas, por isso as pessoas do norte do país também estão incluídas no grupo acima. É sempre bom deixar muito claro que essa é a minha percepção de acordo com o que observo e escuto. E o que percebi aqui desde o primeiro ano é que há uma segmentação muito clara por nacionalidades, que muitas vezes quando mencionei algumas pessoas disseram que não tinham percebido isso.

Fonte: https://loshinojosos.wordpress.com/2010/03/29/cronica-tv-mueren-dos-personas-y-un-boliviano/
Fonte: https://loshinojosos.wordpress.com/2010/03/29/cronica-tv-mueren-dos-personas-y-un-boliviano/

Percebi que nos sacolões os trabalhadores são bolivianos. Nas construções e limpeza de casas, estão os paraguaios. Nos postos de limpeza e faxina, estão os peruanos. Os africanos, a maioria do Senegal, são os que vendem bijuterias nas ruas. Os chineses e orientais em geral estão nos mercadinhos. Os colombianos estão como garçons e ajudantes de cozinha. Mas lembro-me bem que quando cheguei os colombianos tinham o mesmo perfil que os brasileiros, ou seja, vinham apenas estudar e quando terminavam seus estudos voltavam ao seu país e eram muito bem aceitos. No entanto, nos últimos três anos muitos começaram a fazer a vida aqui, a trabalhar e agora ouvimos quando alguém reclama que “em qualquer restaurante que entramos tem colombianos. Eles estão em todos os restaurantes.” E as críticas são bastante diversas e ninguém se preocupa em falar isso em voz baixa. É perceptível que estão deixando de ser “o imigrante bom”. Atualmente, o “imigrante bom” é o brasileiro e o europeu. Afinal, a grande maioria destes vem para cá estudar e depois voltam aos seus países.

Cheguei a essa ideia de “imigrante bom” quando perguntei a diversos argentinos o que eles acham do brasileiro morar aqui e muitos disseram que o brasileiro é um imigrante “diferente”, que os que vêm para morar já chegam com estudos concluídos, com algum dinheiro para se manterem no início da vida aqui e que procuram trabalhar, ao contrário dos demais latino americanos que apenas querem se aproveitar dos planos do governo e os que não conseguem são os que aumentam os índices de criminalidade. O preconceito por nacionalidade é algo aceito por todos e eu ainda acho bastante complicado entender isso. Afinal, no Brasil, por nascimento ou por anos de vivência somos todos brasileiros. Aqui, não.

Uma família boliviana que veio em busca de uma vida melhor trouxe uma filha de um ano. Hoje, 32 anos depois, um amigo apresentando os demais a alguém que tinha acabado de chegar disse que fulana era argentina e ela enfaticamente disse: “Não sou argentina. Sou boliviana!” e então alguém disse que pensou que ela fosse argentina e ela disse que não, que ela mora aqui há 31 anos, que somente esteve na Bolívia quando adulta, mas que é boliviana. Como explicar isso? Simples: quando a família chegou foi morar num bairro da periferia, onde ficava (fica) a maioria das nacionalidades que nunca foi bem aceita pela sociedade argentina e por isso ela foi educada numa escola com muitos outros na mesma condição que a família dela, mantendo-se dentro dessa cultura e não absorvendo totalmente a cultura argentina que claramente depreciava a dela e que sempre a lembrava de que ela não era argentina. O estigma é muito forte. Estão sempre sob suspeita.

É comum ouvir de algumas pessoas que precisam contratar um peruano para limpar o banheiro, como se não existissem argentinos que exercem esse trabalho. Trabalhei com muitas grandes empresas aqui e posso contar nos dedos quantas pessoas dessas nacionalidades encontrei trabalhando nestes escritórios. E isso, por si só, já chama a atenção pela quantidade de imigrantes que moram na cidade. O jeito agora é esperar para saber até quando seremos aceitos como imigrantes “aceitáveis”. Acredito que em alguns anos isso mudará, porque em muitas conversas já tenho ouvido que a Argentina não deveria continuar recebendo tantos estudantes estrangeiros, muito menos nas universidades públicas e as opiniões são bastante acaloradas sobre isso. Outros até mesmo dizem que o governo deveria cobrar uma taxa, mesmo que pequena, de todos os estrangeiros que querem vir para cá e que essa deveria ser um pouco maior no caso de quem vem para estudar, pois estão usando recursos argentinos e depois simplesmente vão embora. Veremos o que os próximos anos nos trarão.

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8 comentários

Joy Matta Novembro 26, 2015 at 7:38 pm

Ina, querida…. engraçado que em praticamente tudo o que você escreveu, vejo o reflexo dos chilenos…. No entanto, por algum motivo muito desconhecido, costumam receber muito bem os argentinos aqui no Chile como imigrantes. Creio que a personalidade do argentino acaba deixando os chilenos meio boquiabertos e se vêem “forçados” a aceitar sua presença sem reclamar.

Resposta
Ina de Oliveira Novembro 26, 2015 at 10:15 pm

Oii, aqui os chilenos são apontados como traidores porque ficaram ao lado dos ingleses. Até quando pergunto qual o sotaque que menos gostam de ouvir ou acham mais feio a esmagadora maioria responde o sotaque dos mendocinos porque eles falam parecidos aos chilenos. É uma relação complicada.

Resposta
Ricardo Fevereiro 26, 2017 at 3:39 am

Olá, Ina. Concordo com tudo o que vc disse, conhecendo bem a Argentina como conheço. Sobre esse ponto:

” O jeito agora é esperar para saber até quando seremos aceitos como imigrantes “aceitáveis”.”

Acho que enquanto nao houver imigração massiva de brasileiros, não haverá problema. Os brasileiros que residem em Buenos Aires são todos de classe média pra cima e não fazem o mesmo serviço dos demais estrangeiros. Além disso, existe um turismo brasileiro imenso, que deixa muito dinheiro nas mãos dos argentinos.
A Argentina não é um destino atrativo para os brasileiros, ao contrário do que é pros bolivianos, peruanos e paraguaios.
Assim, acho que nunca haverá problemas.

Resposta
Ricardo Fevereiro 26, 2017 at 3:41 am

Outra coisa: existe também xenofobia no Brasil. Contra bolivianos, haitianos e, Às vezes, contra os próprios argentinos.
A diferença é que você como brasileira não percebe isso, mas quem é estrangeiro no Brasil, sim.

Resposta
Ina de Oliveira Fevereiro 27, 2017 at 5:31 pm

Oi Ricardo,
Obrigada por deixar o seu comentário aqui no blog.
A xenofobia acontece em todos os lugares e países, mas o texto é sobre a realidade da Argentina.

Resposta
diogo Abril 1, 2017 at 5:59 pm

Argentinos são muito preconceituosos, mas sabe, brasileiros não ficam atrás. Há preconceitos contra bolivianos, haitianos, africanos e contra eles próprios, no caso os nordestinos. São preconceituosos e depois reclamam do preconceito que sofrem por parte de europeus, por exemplo.
A verdade é que o brasileiro não tem moral para reclamar de preconceito.

Resposta
Naiane Ribas da Silva Março 9, 2018 at 8:56 pm

Ina, você sendo formada em língua portuguesa (vi que você é professora de português), conseguiu emprego em sua área quando chegou na Argentina?

Resposta
Liliane Oliveira Março 10, 2018 at 4:26 pm

Olá Naiane,
A Ina de Oliveira, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

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