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Argentina – Saúde e Obra Social

Várias pessoas me escrevem perguntando sobre como é o sistema de saúde na Argentina. Principalmente se é bom e se é caro. Para começar, é impossível falar disso sem mencionar e explicar a “Obra Social”. Na Argentina não existe Carteira de Trabalho, todas as pessoas que quiserem trabalhar legalizadas, será por contrato ou como “monotributistas” – profissionais liberais e autônomos. São as duas opções para estar “en blanco”, legal. O contrário do trabalho “en negro”, ou seja, clandestino e ilegal.

Ao trabalhar “en blanco”, serão descontados do pagamento do mês, o imposto integrado pela categoria (Educação, Saúde, Direito, etc) e o valor da Obra Social e, no caso de “monotributistas”, desconta-se também um valor de autônomo ativo. O que quer dizer que, ao começar um trabalho legal, automaticamente estará inserido na Obra Social, como é conhecido o sistema de saúde público na Argentina. A Obra Social tem valores diferentes de acordo com a categoria profissional e com ela, além do atendimento médico hospitalar, a pessoa também pode solicitar uma visita médica domiciliar e pagar todos os remédios com descontos, desde que apresente a receita médica e o número da O. Social nas farmácias.

Foto: Ina de Oliveira
Foto: Ina de Oliveira

Tenho certeza que alguns, ao lerem isso, ficarão pensando se funciona de verdade. Sim, funciona. Nunca precisei, mas morando em residências, presenciei várias colegas de apartamento que ficaram doentes e solicitaram um médico em casa, e eles chegaram entre vinte minutos a uma hora com uma ambulância. Sempre são dois enfermeiros(as) que fazem o atendimento e, caso tenha sido avisado na ligação sobre um problema mais sério, vem um médico e um enfermeiro(a). Fazem a consulta, dão um medicamento ou receitam algum e, se necessário, já levam a pessoa na ambulância ao hospital público mais próximo. Eles deixam um papel com a informação da visita e a pessoa, quando melhorar, deverá ir ao edifício da O. Social, solicitar uma espécie de atestado, para que não seja descontado o dia de trabalho. Confesso que a primeira vez que vi o atendimento domiciliar, fiquei bastante impressionada por não ser uma prática existente no Brasil.

Outro caso foi o de uma colega de residência que tentou o suicídio e chamamos a emergência que chegou em exatos 15 minutos em um sábado à noite. Ela foi socorrida, levada ao hospital e, dois dias depois, encaminhada pelo psiquiatra a um hospital psiquiátrico para receber cuidados intensivos, onde ela ficaria por um mês sendo acompanhada e medicada. E tudo isso sem sair nenhum centavo do bolso dela. Sei que não funciona sempre à perfeição, e menos ainda em bairros muito carentes e periféricos, no entanto, todas as vezes em que eu estive presente ou participei de algum chamado, tanto o serviço, quanto o atendimento foram os mesmos: eficientes.

Os hospitais públicos, dependendo do bairro, são bastante limpos e organizados. Em geral, não os vejo entupidos de gente como nas grandes cidades brasileiras, entretanto, essa é a minha visão de fora e de brasileira acostumada aos nossos hospitais públicos completamente decadentes, pois se perguntar a qualquer argentino vão dizer que aqui tudo é péssimo. Porém, sendo bastante sincera, não é não. Funciona bastante bem e já imagino que alguém está se perguntando sobre os planos de saúde tão comuns no Brasil. Aqui o forte é a O. Social, mas tem algo muito legal nela para quem acha que somente hospitais caros têm bons profissionais. Nós podemos passar da nossa O. Social para uma de outra categoria!  Um exemplo é que muitos dizem que os melhores hospitais estão dentro da O. Social da categoria dos advogados, e é possível ter acesso a ela mesmo pertencendo a outra categoria. Para isso, basta solicitar a mudança e pagar a diferença. Os valores são diferentes, afinal os profissionais de cada área ganham valores distintos e o cálculo a ser descontado da folha de pagamento vem daí. E aí está o bom da história: ao solicitar e informar que mudará de O. Social para uma mais cara, eu continuo pagando o valor da minha O. Social no salário, e ele será transferido para a nova categoria e, depois, eu somente pago a diferença. Para ficar mais claro, no Brasil, a maioria das pessoas paga um plano de saúde particular e ao mesmo tempo é descontado da folha de pagamento o imposto para a Saúde, o que significa que está pagando duas vezes. Aqui, quem escolhe mudar de categoria de O. Social, apenas completa o valor, já que é permitida essa transferência de pagamento.

 

E quem não tem O. Social como faz? Vai diretamente ao hospital público do bairro ou comuna onde mora – aqui não é muito permitido ou bem visto usar o serviço público de um bairro que não seja o seu. Ou pode se consultar de forma particular nas diversas clínicas que, por terem o apoio do governo, cobram valores bastante populares pelas consultas e exames. Elas são muito organizadas e com excelentes profissionais de todas as áreas, como é o caso da Fundación Salud Para La Comunidad , onde faço meu exame de vista anual desde que vim morar em Buenos Aires. Mesmo tendo O. Social, prefiro ir a esta clínica, porque ela já tem o meu histórico e é muito boa. O sistema explorador de planos de saúde privados como no Brasil não funciona muito (ainda) para os residentes argentinos, pois a Obra Social é levada bastante a sério.

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14 comentários

Luciana Maio 21, 2016 at 1:48 pm

Oiiii! Ina me chamo Luciana e sou brasileira.estou interessada em estudar e morar na argentina, estudo pedagógica no Uerj e quero fazer especializacao em educacai na argentina, vc pode me dizer em qual faculdade publica posso ingresar. Vi que vc tem formacao em educacao, meu esposo estuda fisioterapia. Pode nos costear as ideias estamos perdidos…amadurecendo a ideia! Obrigada p atencao

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Ina de Oliveira Maio 23, 2016 at 2:10 pm

Oi Luciana,
O importante é ler o máximo que puder, principalmente de pessoas que vieram estudar aqui. Geralmente a UBA é a principal referência de universidade pública em Buenos Aires, mas há diversas em outras províncias do país.

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Cintia Maio 21, 2016 at 11:02 pm

Ina,

Muito informativo e importante seu texto. Realmente nao imaginava o funcionamento do sistema de saude na Argentina. Seria um bom exemplo a ser seguido no Brasil. Bj. Cintia

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Ina de Oliveira Maio 23, 2016 at 2:12 pm

oi Cintia,
Que bom que gostou. Claro que nem tudo é perfeito e dependendo da Obra Social o serviço pode mudar muito e os atendimentos nas emergências dos hospitais também podem ser complicadas e demoradas dependendo do hospital, mas no geral funciona muito bem.

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Jaqueline Junho 1, 2016 at 6:57 pm

Olá,me chamo Jaqueline sou carioca e atualmente moro no Uruguai com meu marido e nossa pequena de 4 anos,vinhemos estudar espanhol,mesmo estando aqui pouco tempo(30 dias)acho o Uruguai bem calmo,e lindo porém calmo de mais…gostaria de estudar em Buenos Aires já que vi muitos opções de curso,a fácil alugar um apartamento mobiliado? Pois aqui no Uruguai foi bem difícil, aqui tem a política dos 6 aluguéis, e os apt de temporada são caríssimos. Sei falei muito,mas e para melhor explicar o meu perfil, muito obrigada!

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Ina de Oliveira Junho 2, 2016 at 3:52 am

Oi Jaqueline,
Por aqui os aluguéis estao caríssimos também. E nao posso te animar muito até no mês passado foi aprovado o aumento de 35% nas renovaçoes de contrato de aluguéis e hoje soubemos que foi aprovado o aumento de 25% sobre as expensas (condomínio). Ou seja, se já estava caro com esse aumento de hoje os preços vao parar no céu.

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Noemi Andrade Junho 2, 2016 at 8:21 pm

Olá, sou Noemi e estou em união estável com um argentino de MDQ ,aqui no Brasil em Salvador.
Ele realmente me falou que o nível dos hospitais públicos podem ser comparados ao particulares do Brasil. Porém descobrimos que eu estou grávida e ele decidiu ter o o nosso filho lá ( e quem sabe mora em função do momento q o nosso país está atravessando) ,mais tenho uma dúvida eu sendo brasileira tenho direito a dar a luz em um hospital público?
.
Obrigada!

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Ina de Oliveira Junho 2, 2016 at 10:50 pm

Oi Noemi,
Hospital público é para todos, porém vou te dizer algo: não conheço muitas brasileiras ou mulheres em geral que prefiram ter filhos no país de origem do pai. Todas preferem ter seus filhos em seus países para o caso de uma futura separação. Tenho amiga argentina que mora e se casou com alemao, mas na hora de ter filho veio parir na Argentina, brasileiras que se casam com estrangeiros e viajam ao Brasil para terem seus filhos lá. É uma garantia e tanto para as mulheres e mães, já que as crianças seguem as leis de onde nascem. É algo para ser pensado com calma. Aconsellho a se informar sobre a lei Argentina em caso de separação.

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Alane Amirah Março 28, 2017 at 8:10 am

Ina me chamo Alane e estou há algumas semanas em Buenos Aires já, me disseram que só posso usar o hospital público aqui quando eu tiver com meu DNI pronto. É verdade?

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Ina de Oliveira Março 28, 2017 at 2:19 pm

Oi Alane,
Se você está aqui há alguns meses já deve ter a precária, não?
Caso contrário, poderá sim ir a um hospital na Guardia, que seria o nosso Pronto Socorro, mas para fazer consultas e exames médicos acredito que precisará ter um documento daqui ou acione o seu plano de saúde do Brasil para que possa ser consultada em algum hospital.

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Joziel Lima Junho 28, 2017 at 11:37 am

Estou a ponto de me casar com um argentino, e, mesmo o site sendo de cunho mais feminino, estou amando as dicas. Estou lendo bastante para poder saber como lidar quando chegar aí.

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Julio Setembro 2, 2017 at 12:02 am

Oi, me chamo Júlio, e estou pensando em me mudar para a Argentina, pois as coisas estão muito difíceis.. tenho hiv tenho direito a dar continuidade no tratamento la após a legalização?

Resposta
Vitoria Dos Santos Novembro 26, 2017 at 1:39 am

Ola Ina, gostaria de saber se ai na Argentina, tem o profissional técnico em enfermagem

Resposta
Liliane Oliveira Novembro 28, 2017 at 2:30 pm

Olá Vitoria,
A Ina de Oliveira parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Argentina.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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