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Áustria Mulheres que fizeram história pelo mundo

As Mulheres dos Escombros: Trümmerfrauen

Março, mês das mulheres!

Faço a vocês a proposta de voltarmos 73 anos no tempo: exatamente a 09 de maio de 1945. O primeiro dia de paz na Europa após a rendição da Alemanha.

Como muitos devem saber, a Áustria, após 1938, desapareceu enquanto nação soberana e foi incorporada pelo III Reich como se um anexo seu fosse. Muito bem, a sequência de desgraças e desatinos provocados pela guerra é conhecida de todos, então, pouparei maiores comentários a esse respeito.

De volta a 09 de maio de 1945. Meu sogro costumava dizer: “Ana, durante uma guerra se tem muito pouca coisa e, quando ela termina, o que se tem é absolutamente nada!” Essa frase resume o que foi o day after, pelo menos aqui, pois não havia mais comida, não havia mais água potável, não havia mais habitações em pé e, o  mais curioso – mas totalmente lógico -, não havia mais homens. Sim, pessoas do sexo masculino não havia em quantidade suficiente para auxiliar na reconstrução das cidades, do país. Isso, porque estavam todos ou prisioneiros na Sibéria ou feridos em outros países ou mortos.

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A quem então restou a tarefa de, literalmente, levantar o país das cinzas? Às mulheres. E aqui começa a admirável história das Mulheres dos Escombros, cujo palco foi tanto a Áustria quanto a Alemanha.

Quando do noticiado do fim do conflito, no dia 08 de maio de 1945, os sobreviventes de Viena – velhos, mulheres e crianças -, de imediato, iniciaram sua jornada em recobrar sua dignidade e isso passava pela reconstrução de tudo. Viena fora severamente bombardeada nos últimos dias: catedral de quase mil anos, bombardeada; prédio da Ópera, bombardeado; casas, apartamentos, prédios públicos ou privados, praticamente tudo destruído.

No primeiro dia de paz, portanto, e diante desse cenário, mulheres e crianças, em quantidade massiva, iniciaram a seleção de tijolos dos entulhos, ou seja, aquilo que ainda poderia ser reaproveitado para uma possível reconstrução. Mãos femininas e infantis, em corrente, de uma para outra, foram organizando, limpando, varrendo, cuidando, até que algo um pouco mais estruturado tomasse forma para que se efetivasse, de fato, a reconstrução da cidade e do país.

Até então, o dito “sexo frágil” jamais havia erguido um muro caseiro que fosse. Isso era trabalho “para homens”. Todavia, quando não se tem cão, há de se caçar com o gato. Elas poderiam ter se jogado no chão, se atirado a chorar e vociferar contra o trabalho duríssimo de limpar escombros, carregar tijolos, areia, cimento, manusear ferramentas com as quais não tinham nenhuma habilidade, mas não foi isso que ocorreu, bem pelo contrário! Mangas arregaçadas, choro adiado para quando se tivesse tempo e muita força de vontade foram o motor dessas admiráveis mulheres. E elas conseguiram! O caminho para a reconstrução estava aberto!

Trago um vídeo que reporta a atuação das Trümmerfrauen (mulheres dos escombros) na Alemanha, já que não localizei nenhuma gravação na Áustria. Apenas para que tenham uma noção do que é a destruição provocada por um conflito bélico e do que a vontade humana – feminina nesse caso específico – é capaz. Os experts, na Alemanha, haviam calculado 30 anos para que todos os escombros fossem removidos. Não contaram, entretanto, com a força e a superação da mulher! Na Áustria, em questão de 10 anos, a grande maioria do país já havia sido reconstruída.

Na “hora zero”, tanto da Áustria quanto da Alemanha, a força de trabalho – voluntária, lembre-se sempre – das mulheres foi decisiva. Não havia como esperar que os homens voltassem, se é que voltariam!

Após ter tomado contato, pela primeira vez, acerca dessa belíssima, dura e triste história, em 2015, durante as comemorações dos 70 anos pelo final da guerra, nunca mais duvidei do que o “sexo frágil” é capaz. Nunca mais! E que me confirmem as mulheres norte-americanas que, agora, em 2017, mobilizaram a Marcha das Mulheres pelo país e fora dele!

Há, atualmente, uma corrente de historiadores que afirmam haver sido criado um mito sobre a figura das Mulheres dos Escombros, pois sozinhas, jamais poderiam remover toneladas e toneladas de entulhos. Isso teria sido possível apenas nos primeiros meses após a rendição, depois, apenas com o auxílio de máquinas retroescavadeiras para limpar e transportar os restos de construção. Há vídeos e fotos onde aparecem Trümmerfrauen sorrindo e parecendo satisfeitas com aquela circunstância tão adversa. Isso também é apontado como midiático, pois as tarefas não teriam sido tão prazerosas quanto as imagens se esforçam em fazer crer. A propaganda teria sido muito bem difundida, reforçando, inclusive, uma recente emancipação da mulher daquela época. Faz sentido e o argumento é plausível, mas quem tomou a iniciativa primeira do recomeço imediato foram as mulheres sobreviventes. Disso, ninguém discorda e é esse meu ponto de atenção.

De toda a sorte, essa discussão até me surpreende, pois jamais havia visto um dilema sobre a utilização da figura feminina no papel que era – à época – exclusivamente masculino. O sistema de então se utilizou da Mulher dos Escombros, suja, carregando peso, batendo picareta, para criar uma atmosfera positiva de progresso. Fenômeno, para mim, interessante, visto que a propagação da ideia de mulheres trabalharem fora poderia facilmente virar motivo de proibição em muitos outros países na década de 40.

Afora todo o debate popular ou acadêmico, esse artigo é, ao mesmo tempo, uma homenagem a essas heroínas que iniciaram a reaquisição de dignidade de seus países ao fim da Segunda Guerra Mundial, e, também, um convite à reflexão nos dias atuais: o que a sociedade quer de nós – mulheres – e o que nós queremos dessa – e para essa – sociedade a qual, hoje, fazemos parte? Graças a Deus, não precisamos passar pela tristeza de um final de guerra, mas no que podemos, devemos, queremos contribuir para que isso – inclusive – jamais volte a ocorrer? Queremos escrever história ou nos deixar transformar em mito?

Por ainda não ter resposta para muitas dessas perguntas, deixo-as para vocês!

Feliz mês da mulher! E até a próxima!

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2 comentários

Denise Trentin Abril 23, 2017 at 9:22 am

Parabéns Ana pela pesquisa e história muito bem elaborada.
Gostaria de saber mais, se puder compartilhar mais histórias ficaria agradecida.
Estou morando em Viena por 6 meses.
Abracos
Denise Trentin

Resposta
Ana Dietmüller Abril 24, 2017 at 8:45 am

Alô, Denise.

Obrigada por ler e comentar.

Sim, história, aqui, é o que não falta. Tentarei encaixar um pouco mais na pauta. Obrigada pela dica.

A propósito e desculpe a intromissão, mas por acaso não terias um irmão chamado Daniel Trentin?

Grande abraço, excelente estadia em Viena e até a próxima!

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