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As mulheres na Turquia

Mulher na Turquia

As mulheres na Turquia.

Um assunto como esse requer sempre bastante atenção e carinho no momento em que abordamos e é dessa forma que pretendo conduzir este texto.

As mulheres são sempre mulheres em qualquer parte do mundo. Onde quer que estejamos precisamos compreender nosso papel naquela sociedade porque isso fará toda a diferença no momento de tomada de decisões sobre viver, trabalhar ou visitar outro país. Ou, ainda, relacionar-se com alguém de outra cultura, uma sociedade diferente da sua.

As mulheres na Turquia

Uma vez que vivo na Turquia tratarei deste país especificamente conforme as minhas experiências pessoais e de pessoas que realmente conheço ou conheci.

A Turquia é um país que chama atenção e desperta muita curiosidade nas pessoas, principalmente nas mulheres. Talvez o fato de ser um país oriental com belas mesquitas e pessoas que se vestem de uma forma diferente, embora não sejam todas as pessoas, mas boa parte delas, isso faz com que muitos queiram ver, de perto, como é isso na prática diária.

Uma coisa é visitar um país, outra coisa é viver lá sozinha; e outra bem diferente é casar-se com alguém de lá.

Leia também: Como é viajar sozinha pela Turquia

Viver na Turquia me deu essa clareza e mostrou-me o quanto as mulheres são vulneráveis e precisam de apoio. E quero deixar bem claro que não falo de cem por cento quando digo que estão vulneráveis, mas trato de uma grande parte delas.

A violência doméstica é presente na sociedade turca e muitas vezes vista como algo natural e necessário. Há mulheres que sofrem com isso em silêncio justamente porque a sociedade considera muitos atos contra as mulheres como um ato natural e necessário e também por uma dependência econômica e emocional.

Conheci vários casais que estão dentro desse padrão de comportamento. Certa vez, o marido de uma colega turca bateu nela porque havia olhado o celular dele, algo que ele havia proibido e avisado que caso ela fizesse isso novamente (porque ela já havia feito) ele bateria nela. E bateu. Eu perguntei pessoalmente por que havia feito aquilo com ela e me disse justamente assim: “- Ela me desobedeceu e se eu não cumprisse o que prometi ela faria novamente.” Ambos são turcos.

Violência doméstica, uma realidade

Outra amiga estrangeira, não é brasileira, está tentando divorciar-se há mais de dois anos. Ela ficou casada um ano e durante esse período sofreu vários tipos de violência doméstica. E eu, pessoalmente, a retirei de casa em duas dessas vezes. Em uma dessas vezes, o marido havia batido nela e isso ocorreu durante a noite.

Ela não foi fazer o boletim de ocorrência, mas logo pela manhã ele saiu e fez contra ela, acusando-a de violência física contra ele, fazendo inclusive corpo delito em um hospital próximo. Nesse caso, ela foi surpreendida com uma ligação policial pedindo o comparecimento à delegacia.

Eu a acompanhei e desde então começou a luta dela para não perder o visto no país e provar sua inocência e culpa do agressor. Isso já dura dois anos e talvez a pergunta seja: por que ela não vai embora? Isso é uma resposta que só quem sofre com a violência doméstica consegue responder. Eu até tenho essa resposta, no caso dela, mas não é disso que tratamos aqui.

As mulheres na Turquia e a herança cultural

A segurança no país é nítida para a população em geral. Isso é algo que quero deixar bem evidente. A  violência que tratamos aqui é a doméstica e essa não tem fronteiras.

Acredito que o posicionamento dos líderes políticos contribui muito para que esse tipo de violência deixe de existir. Embora existam leis, elas soam como um eco que parece ser ouvido muito distante surtindo pouco efeito para mudanças.

Uma das principais coisas que sempre compartilho com pessoas que me fazem perguntas sobre isso é que conhecer as leis fará sempre diferença, mas conhecer os costumes e modo social de vida será crucial para viver na Turquia.

É um país com uma democracia nova, viveu em regime de Império até 1924 aproximadamente. Então,  muitos conhecem aquela posição que era dada à mulher durante o Império Otomano, uma posição de inferioridade.

“Nossa religião definiu uma posição para as mulheres: a maternidade”

Não é possível esperar que todos tenham mudado em um período inferior a 100 anos. Quando compreendemos isso, conseguimos entender exatamente o país e sua sociedade e aí, sim, faremos uma escolha consciente sobre o que disse no início do texto: viver, visitar a Turquia ou relacionar-se com alguém do país.

Existe a Convenção de Istambul contra a violência doméstica que entrou em vigor em 2011 e a Turquia foi um dos primeiros países a assinar. Após dois anos dessa assinatura, o atual presidente Recep Tayyip Erdoğan fez algumas declarações que nos fazem refletir sobre a real face desse assunto na sociedade turca.

Ele disse que “as mulheres não são iguais aos homens por sua natureza delicada”. Acrescentou também: “nossa religião definiu uma posição para as mulheres: a maternidade.”

Essas declarações foram feitas num discurso feito em celebração à abertura de um novo prédio para o Kadem, a Asssociação Turca de Mulheres e Democracia. Estatísticas oficiais não são mantidas pelo governo sobre esse assunto.

Leia também: Avanços no combate à violência doméstica na Polônia

O Professor Doutor Ergül Aslan, da Universidade de Istambul, em um estudo feito sobre esse assunto, diz o seguinte: “A violência doméstica é um grave problema de saúde pública no mundo. Contra as mulheres também é um problema global sem fronteiras culturais, geográficas, religiosas, sociais, econômicas ou nacionais”.

Em contrapartida, existem instituições não governamentais que atuam no combate e enfrentamento da violência doméstica na Turquia. Existe também o Conselho de Cidadãos de Istambul, que desenvolveu uma cartilha sobre o assunto, informando as leis e onde procurar ajuda quando houver necessidade.

O Conselho de Cidadãos de Istambul é formado por brasileiros, inclusive eu, que foram eleitos pelos próprios brasileiros que vivem em território turco para ser um interlocutor entre o Consulado Brasileiro na Turquia e os cidadãos brasileiros que lá residem. Para conhecer essa cartilha, acesse aqui.

E é claro que muitas mulheres vivem de forma que seus direitos são garantidos e preservados. Como disse anteriormente, não trato aqui de cem por cento, mas de uma boa parte. E não podemos afirmar que é um país onde as mulheres são sempre vítimas de violência.

Mesmo assim, viver na Turquia ou relacionar-se com um cidadão turco?

Nesse mesmo estudo do Professor Doutor Ergül Aslan, há uma amostra que comprova que isso acontece na parte da sociedade com menor grau de instrução e também com mais frequência em Istambul, mas que com mais violência em outras cidades do interior.

O importante é compreendermos o quanto isso reflete em nossas decisões e o quanto somos afetadas. Há muitas mulheres felizes e talvez porque o modelo de felicidade se encaixa no que deseja para si.

E não trago essa discussão, trago a reflexão para uma busca maior sobre um assunto que fará parte da sua vida se optar por viver na Turquia ou relacionar-se com um cidadão turco. Não que essa pessoa será violenta com você, mas refletir sobre o modo como essa pessoa entende a sociedade em que vive e como as atitudes dela recairão sobre você.

Quando compreendemos essa necessidade, acredito que passamos a buscar onde encaixa-se a nossa identidade no local.

Viver não é sobreviver

Algo que passou a fazer muito sentido para mim, especificamente, foi o fato de entender profundamente algo que havia apenas estudado na Universidade: o verdadeiro sentimento de pertencimento e sobre isso eu quero tratar em um outro texto.

Sentir que fazemos parte, que pertencemos a uma sociedade é algo estrutural em nossas vidas.

Quando eu acredito que a violência contra mim cometida é normal, eu não busco ajuda porque não entendo como necessária. Mas quando eu acredito que a violência cometida contra mim é algo abusivo, mas eu sinto medo de denunciar, procurar apoio, então, há pessoas que podem amparar e o Conselho de Cidadãos procurou deixar isso de uma forma bem simplificada e clara para auxiliar todas as mulheres que desejam ajuda.

Viver não é sobreviver e isso precisa ser presente em nossas vidas. Essa é uma luta de todas nós mulheres.

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