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As transformações pessoais depois de cinco anos no Japão

As transformações pessoais depois de cinco anos no Japão

No mês de abril eu completei cinco anos de Japão, o que me colocou em uma fase de reflexão profunda. Comecei a pensar na garotinha que eu era quando deixei o Brasil em 2014 e na mulher que eu sou hoje, com uma nova visão de mundo e uma bagagem cultural que eu jamais pensei que teria um dia.

Cinco anos vivendo em um ambiente totalmente diferente do que eu estava acostumada mudaram a minha cabeça de formas variadas e me fizeram enxergar o Brasil com outros olhos. Depois desses anos, já não me sinto a mesma quando vou visitar o meu país, estranho muitas coisas que antes eram comuns e passo a valorizar tantas outras que eu não conhecia a importância.

Sei que muita gente que mora fora, mesmo que em outros países, poderá se identificar com as minhas reflexões. Mas, antes de mais nada, preciso apenas contextualizar a minha realidade. Eu sai do Brasil em abril de 2014, tinha 22 anos na época, estava recém-formada na faculdade de jornalismo e ainda morava com os meus pais.

Naquela época, eu já tinha muito interesse no Japão e planejava vir para estudar um ano, talvez ficar trabalhando por aqui (o que foi o que aconteceu). Mas, com tanta empolgação de iniciar uma vida nova em outro país, eu tomei a decisão de vir sem pensar nas consequências disso, na solidão, nas saudades da família e amigos, na sensação de estar sozinha em um lugar estranho.

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Todos os aprendizados destes anos, o convívio com pessoas de culturas diferentes e o enfrentamento das dificuldades de estar tão longe me fortaleceram e me transformaram na pessoa que sou hoje. Gosto de dizer que a melhor parte de mergulhar em uma cultura, costumes e pensamentos tão diferentes é que a gente pode absorver aquilo que é bom do nosso país de origem e do país em que vivemos, nos transformando assim em pessoas melhores.

Posso dizer hoje que, felizmente, o Japão me transformou em uma pessoa melhor. Aprendi a pensar mais no coletivo, a ter sensibilidade nos espaços públicos e de me orgulhar das minhas origens. Se por um lado é solitário saber que ninguém conhece o que é familiar para você, por outro lado é gratificante poder dividir um pouco daquela parte do mundo que só você conhece com as pessoas ao seu redor.

1. Mudança cultural
Os anos de Japão me transformaram em uma versão única de mim mesma. Hoje me sinto meio brasileira e meio japonesa, pois absorvi muita coisa daqui, ao mesmo tempo que mantive muitas outras do Brasil e deixei outras de lado, coisas que percebi que não são legais, apesar de serem comuns.

A Ana de agora abaixa a cabeça para cumprimentar as pessoas, evita falar alto em locais públicos, tira os sapatos para entrar em casas (mesmo no Brasil) e não sai de uma cafeteria sem devolver a bandeja no balcão. Quando volto ao Brasil, fico inquieta ao ver a funcionária do caixa do mercado ensacolando as minhas compras enquanto tantas outras pessoas esperam na fila, é mais rápido eu mesma fazer isso!

2. Maturidade
Sinto que eu só atingi a maturidade completa depois de alguns anos no Japão. A gente percebe que está madura quando olha a passagem do tempo, as coisas que ficaram para trás, as coisas que poderíamos ter feito diferente. Tenho certeza que o Japão contribuiu muito para eu ter a cabeça que eu tenho hoje, a vontade de ajudar aos outros, o bom senso de medir cada atitude minha, sempre refletindo se estou ou não prejudicando alguém, se estou contribuindo com algo positivo.

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3. Respeito ao Brasil
Muita gente tem mil e uma queixas sobre o Brasil e sonha em morar fora para experimentar uma vida que não é possível no nosso país de origem. A sonhada segurança, qualidade de vida, salários melhores, mais liberdade, serviços públicos de qualidade.

Eu era assim, sonhava em viver tudo isso que vivo hoje e continuo achando que, por todas essas coisas, a vida em um país mais desenvolvido vale a pena. Porém, hoje não sou uma pessoa que despreza as coisas do Brasil, pelo contrário, tenho orgulho e respeito muito a nossa cultura. Confesso que nunca gostei de futebol ou carnaval, mas hoje vou feliz em um evento de samba onde eu moro, sabendo que é a minha cultura que está sendo prestigiada.

4. Mais formalidades
Querendo ou não, acabei adquirindo um pouco da formalidade japonesa, mas tenho certeza de que não perdi o meu jeito despojado! Aquilo que comentei sobre abaixar a cabeça para cumprimentar as pessoas, gesticular menos em determinadas ocasiões, medir o tom de voz, falar formalmente.

Mas é claro, este é um jeito meu que aflora quando estou com japoneses. Quando me junto aos brasileiros, continua sendo a mesma pessoa aberta, que se expressa com vontade, abraça e ri alto. Se antes eu era apenas assim, hoje acho que consigo transitar bem entre essas duas versões de mim mesma.

5. Menos romantismo
É comum a gente enxergar a vida no exterior com muito romantismo antes de colocar os pés para fora do Brasil. Tudo que vem de fora parece ótimo, bem feito, confortável e feliz. Mas, só quem de fato tem essa experiência sabe que não é fácil. É muito gratificante ter a oportunidade de aprender tudo o que a gente aprende, mas é preciso se fortalecer emocionalmente, aprender a viver longe da zona de conforto, longe das pessoas que mais te amam e te compreendem.

Sabe aquela pessoa que você conhece que foi morar em um lugar legal, mas depois de um tempo desistiu e voltou para a casa? Aquela que teve uma oportunidade de viver em um país bacana, que podia ficar por lá mesmo, mas decidiu largar tudo e voltar. Essa pessoa não é maluca, apenas não conseguiu suportar as dificuldades e isso acontece mesmo! Morar fora é mais uma necessidade pessoal do que um sonho e muitos de nós passam anos e anos no exterior pensando como seria legal se o Brasil melhorasse, como seria legal poder voltar sem ter que abrir mão da qualidade de vida.

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