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As várias facetas da Rússia

As várias facetas da Rússia.

Cinco da tarde e já era noite aqui aqui em São Petersburgo. As noites de inverno são muito longas, a luz do dia aparece por volta das dez de manhã e não nos acompanha por muito tempo (luz do dia, não sol. Sol é raridade).

No Brasil se é um dia de chuva geralmente bate aquela preguiça em todo mundo, é normal cancelar um compromisso porque ta chovendo muito, e a pessoa vai ser super compreensiva. A vida acontece mais em câmera lenta. Só que aqui não, chove praticamente todo dia, e no inverno neva. E hoje em especial esta nevando bastante. Mesmo assim a vida continua, o clima não muda em nada, só no vestuário.

Inverno não é minha estação preferida. Na noite anterior, eu havia saído de casa e perdi meu cachecol no pátio do prédio e só me dei conta quando cheguei no meu destino. Estava saindo de casa hoje, e me deparei com um aviso em russo colado na porta do prédio que dizia que acharam um cachecol perdido, e tinha o telefone para ligar. Fiquei muito feliz, achei que tinha perdido para sempre! Isso é um costume russo muito legal, tu andas por ai e tu vais ver moedas no chão, luvas perdidas mas ninguém mexe. Dizem que não podes juntar porque a pessoa pode voltar e procurar no mesmo lugar que perdeu, não roubam nada. Guardei o aviso na minha bolsa e continuei meu caminho.

Marquei com um amigo russo as 5h:30 e tive que fazer um esforço para correr e não me atrasar, e ao mesmo tempo não levar um tombo. O chão repleto de gelo e neve dificulta andar rápido, mesmo as botas próprias para neve não nos deixam livre de estar exposto ao perigo.

Regra número 1 ao encontrar-se com um russo, seja pontual. Diferente do brasileiro que ao encontrar um amigo ao acaso sempre na despedida sai aquela frase “vamos fazer algo final de semana” , e nunca mais se falam, aqui isso é levado bem a sério. Comentou que ia marcar, ta marcado. Não precisa falar de novo no dia pra confirmar, só aparecer no horário. Dez minutos atrasado já é atrasado, e mal educado da sua parte.

O lugar que ele escolheu foi uma casa de chás, o que não surpreende muito vindo de um russo, é bem tradicional aqui casa de chás ou encontrar-se para tomar chá e comer um doce em qualquer estabelecimento. O que é impressionante na verdade é a quantidade que cafés e restaurantes que tem pela cidade, toda rua tem um pelo menos. E são todos decorados minuciosamente, cada novo lugar que eu entro sou surpreendida.O cardápio tinha mais de 30 tipos de chás, provamos dois.

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O propósito do encontro era que ele me respondesse umas perguntas sobre cultura russa, e a reação dele ao tópico foi uma risada e logo soltou “vodka, frio, muito frio” eu ri, e quase desisti dele no mesmo momento porque buscava informações mais concretas. Mas então ele me questionou, que área da cultura russa tu queres saber? Bem eu estava generalizando e não tinha pensado em nada específico, mas tem história, folclore, artes visuais, estilo de vida, tradições, língua, ciência e etc.

Ficamos nessa indecisão e ele não sabia sobre o que falar, como se tudo fosse óbvio e maravilhoso. Mas nas entrelinhas dessa conversa, a garçonete apareceu, e posso compartilhar aqui uns costumes. Primeiro, eles têm dois tipos de oi, o formal e informal. Se ele falasse “privet” (привет) para a garçonete, seria uma falta de respeito muito grande pois apenas se usa com amigos íntimos. O certo é “zdravstvuyte”(здравствуйте), este é o oi formal que se usa em todas as circunstâncias do dia. Outra coisa é que aqui em geral as pessoas não sorriem como forma de comprimento, e não sorriem muito. Se eu encontrar um conhecido na rua vamos falar oi. Com meus professores eu apenas faço contato visual e abaixo a cabeça.

Bem, retornando à conversa, ele compartilhou comigo acontecimentos desse ano que enquadram na cultura russa.

Primeiro, o Natal. Aqui é celebrado no dia 7 de janeiro; eles também são católicos porém ortodoxos, seguem o calendário Juliano e por isso a data não é celebrada no dia 25 de dezembro. Na verdade o Natal deles não difere apenas pela data, mas em outros aspectos, por exemplo, eles não trocam presentes e não têm papai noel. Isso seria no ano novo, e o papai noel não é uma figura de Santo, é apenas um vovô e tem uma neta. Então tudo que gira em torno das nossas festas de Natal, para eles, seria no réveillon. No dia eles fazem uma janta, e comemoram que Jesus nasceu.

Segundo, na noite do dia 18 para 19 de janeiro, a Igreja Ortodoxa celebra a Epifania. Buracos de gelo são abertos (a essa altura o rio ja está congelado) e a água é abençoada. Ao mergulhar na água as pessoas purificam seus corpos e almas. Tem filas gigante para isso, ano passado eu fui conferir, a temperatura era de -16°C e eu com roupa própria estava sentindo frio… É muita fé.

 

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A Rússia é um país machista. O homem é o chefe da família, quem foi para a guerra e que manda na mulher. Isso explica um pouco a aversão que eles têm com gays, está no contexto histórico e cultural. Pode-se notar nos pequenos atos; por exemplo, ao chegarmos, meu amigo quem abriu a porta, ajudou a tirar meu casaco e puxou a cadeira. Na hora de pagar a conta é impossível convencê-los de dividir.

Bem, aceitamos as cordialidades do país até o ponto que são saudáveis.

Não obtive muito sucesso com as informações que eu queria uma vez que o fato de eu ter voltado do Brasil agora, do verão, despertasse nele vontade de fazer várias perguntas também. Por aqui todos adoram brasileiros, sempre que descobrem que eu sou brasileira (que não costuma ser a primeira vista) ficam felizes e falam “carnaval”, “futebol”, enfim, são bem receptivos. Nos despedimos e fiz meu caminho para casa.

Além de todas opções de transporte público, aqui tem outra alternativa para ir pra casa. Na Rússia tem um táxi diferente, é só estender a mão e esperar um carro parar. Qualquer carro pode te dar um preço bem pequeno e te levar em casa. É difícil de aceitar que essa ideia é confiável mas é uma ótima alternativa. É uma carona paga, e bem comum. Mas ainda prefiro mêtro!

Chegando em casa, logo no portão do prédio tinha um homem presenteando uma mulher com flores. Eles são bem românticos, e dar flores é como uma obrigação para quem namora aqui. Ah, e aqui tem uma tradição que tem que ser número ímpar de flores, porque número par se dá para os mortos.

Liguei para o telefone que estava no anúncio, recuperei meu cachecol (iupi) e subi, preparei um chá e aqui estou, terminando de escrever para ir dormir, em mais uma noite gelada do inverno russo.

 

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5 comentários

Juraci Pike Fevereiro 26, 2015 at 1:14 pm

Paula, gostei muito do relato do seu cotidiano na mama Russia. Nos anos 70, morava no Japao e de la consegui visto para conhecer Moscow. Fiquei apenas uma semana e posso afirmar que foram dias muito interessantes. A arquitetura e’ majestosa, o povo alegre e amigavel, paes e bolos deliciosos, cultura impar….e um inverno gelado, mas nada que uma roupa aproriada nao resolva. A sua experiencia tem mais conteudo e esta envolvida por um estilo de vida mais contemporaneo e o que vc relatou me fez querer retornar e viver novas experiencias. Obrigada!

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Letícya Gontijo Fevereiro 26, 2015 at 4:59 pm

Nossa que diferente e interessante… Eu já possuía certo interesse pela Rússia, acho a cultura e história rica. Obrigada por compartilhar sua experiencia Paula!

beijão

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Bella Newton Outubro 8, 2015 at 2:52 am

Olá Paula, vc escreve mt bem! gostaria mt de conversar contigo sobre essa mudança de país, se puder, me mande mensagem pelo meu email! Obrigada, estarei esperando ansiosa!

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Marceli Novembro 23, 2015 at 10:38 am

Paula, estou indo pra Moscou e St Petersburgo no fim desse ano e gostaria de informações sobre como adquirir Sim Card com plano de internet. Esses planos pre pagos existem para estrangeiros? É simples adquiri-los? Li q a Megafon tem esses planos, mas o site não me pareceu claro em mostrar q há planos como oq eu preciso…
Fora isso, vou precisar comprar uma bota para aguentar esse frio da Rússia… Tem alguma marca mais apropriada para eu procurar? Não posso errar nessa compra pq manter os pés quentinhos é crucial. Costumo viajar em época de invernos rigorosos, mas a Rússia será meu maior desafio nesse aspecto. Já comprei várias botas e acaba q sempre chega um momento em q elas não aguentam o frio constante.
Adoraria se vc pudesse me dar todas as dicas para isso… Tem algum spray impermeabilizante q seja melhor? Saber oq comprar de forma certeira vai ajudar muito. Vc vivendo aí, penso q pode ter dicas especiais!
Já te agradeço!!

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Cristiane Leme Novembro 23, 2015 at 12:28 pm

Olá. A Paula deixou a colaboração do blog.
Edição BPM

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