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Ataque terrorista em Copenhague

Novamente a liberdade de expressão se viu ameaçada, desta vez em um dos países que mais preza por ela em todos os sentidos. Nesse fim de semana Copenhague foi pega de surpresa com um ataque efetuado por um ‘lobo solitário‘ inspirado pela ação terrorista que matou 11 pessoas na redação da revista Charlie Hebdo em Paris no início desse ano. E justo a Dinamarca, onde as pessoas se sentem tão seguras e onde o direito de se expressar livremente é garantido e preservado, agora sofre o baque de se ver novamente na difícil tarefa de preservar seu laicismo e o respeito ao outro. A ação rápida e eficaz da polícia foi crucial para evitar que a onda de medo se espalhasse pelo país, porém o atentado ainda pode servir de fomento para alimentar discursos da extrema direita dinamarquesa.

Não é a primeira vez que charges do profeta Maomé causam rebuliço no país

Em 2005 o jornal Jyllands-Posten publicou uma série de 12 charges retratando o profeta Maomé. De acordo com o livro sagrado do Islã, a figura de seu profeta máximo não pode ser retratada de forma alguma, por se tratar de figura sagrada. A comunidade islâmica dinamarquesa repudiou as charges e o jornal recebeu telefonemas com ameaças de morte – felizmente, nenhuma se concretizou.

O atentado de sábado, ocorrido durante o evento “Arte, blasfêmia e liberdade de expressão” tinha possivelmente como alvo o organizador do evento, o cartunista sueco Lars Vilks, que em 2007 publicou uma charge do profeta Maomé retratado como um cachorro e que desde então tem viajado sempre sob escolta policial. O embaixador da França em Copenhague, François Zimeray, também estava presente no evento e contou em entrevista à rede dinamarquesa DR o que sentiu e como vê a reação dos dinamarqueses em relação ao ocorrido. Tanto Vilks quanto o embaixador saíram ilesos.

Alguns trechos da entrevista do embaixador francês:

“Quando escutei o som (do primeiro disparo)… achei que era muito curto. Para mim, era como uma mesa que caía, um armário que se derrubava. No segundo, achei que eram fogos de artifício, bombinhas. No terceiro, eu entendi. Eu analisei, e na análise compreendi: eu vou morrer.”

“A gente vê a vida de outro modo, quando passamos assim tão perto da morte. O que eu desejo mais fortemente (…) é que os dinamarqueses, o que eles mais prezam, esse modo de vida baseado na confiança, que é único no mundo; a confiança, a despreocupação, esse calor, esse lado ‘hygge’: eu não gostaria que isso se perdesse. O mundo precisa do exemplo dinamarquês em vários aspectos (…), no meio ambiente, na política social, (…) a vida em conjunto.”

A vítima do atentado de sábado foi o diretor de cinema Finn Nørgaard, 55, co-proprietário da empresa Filmselskabet. Ele era um dos participantes do evento do cartunista sueco. Outros 5 policiais ficaram feridos. A vítima do atentado de domingo foi Dan Uzan, 37, que trabalhava como segurança numa sinagoga no centro de Copenhague. O segundo ataque ocorreu durante a celebração de um bar mitzvah na manhã de domingo. Dan era um conhecido e ativo membro da comunidade judaica em Copenhague.

Segundo relatos da mídia dinamarquesa o autor dos disparos nos dois ataques era o mesmo e já estava na mira das autoridades dinamarquesas desde dezembro do ano passado. Na noite de sábado, depois do primeiro ataque a polícia lançou em sua página no Facebook um apelo para que as pessoas que vissem o jovem, prontamente identificado através de câmeras de vigilância instaladas nas redondezas do local do atentado, pudessem avisar imediatamente sobre seu paradeiro. E logo após o segundo atentado o homem foi localizado e alvejado por policiais, após ter reagido à voz de prisão atirando contra os policiais, de acordo com os jornais. O jovem era Omar Abdel Hamid El-Hussein, 22, e suspeita-se que tenha ligações com a Jihad, o que ainda está sob investigação e não foi confirmado. As investigações sobre o caso ainda não foram concluídas e a polícia segue mantendo os detalhes sob sigilo. O pai do jovem declarou que está “tão chocado quanto o resto do mundo”.

O repúdio ao atentado por parte da comunidade muçulmana dinamarquesa

A maioria das organizações muçulmanas na Dinamarca repudiou veementemente os ataques. O Conselho Islâmico Dinamarquês se referiu aos ataques como “um ato criminoso que viola as leis religiosas e seculares”. Também qualificaram os ataques como “covardes” e atestaram que “não foram feitos em nosso nome (da comunidade islâmica dinamarquesa)”.

Esperança e união

Na noite desta segunda-feira, 16 de fevereiro, foram organizadas manifestações em todo o país e estima-se que cerca de 30 mil pessoas compareceram ontem ao local do incidente de sábado em Nørrebro, Copenhague. Desde domingo há muita movimentação no local e moradores seguem acendendo velas e depositando flores, cartazes e até canetas para representar sua solidariedade para com as vítimas e suas famílias. Alguns declararam para a imprensa local que decidiram ir ao local dos ataques trazendo flores e velas para tentar ‘entender o que houve’, em um ato de empatia. Há também os que se solidarizam com a dor da família de el-Hussein e que depositaram flores e velas em frente ao local onde o rapaz foi baleado pelos policiais.

Campanhas similares ao ‘Je suis Charlie’ foram lançadas nas redes sociais – banners com os dizeres ‘je suis danois’ (eu sou dinamarquês, escrito em francês) e também ‘je suis Omar’ têm circulado pelas redes. Porém o que se vê é um misto de perplexidade e apreensão: perplexidade, porque a sociedade dinamarquesa é baseada nos conceitos de confiança mútua e respeito ao outro e um ato terrorista é algo que jamais se esperaria nesse tipo de sociedade; e apreensão, porque atos como esse reacendem a questão da migração muçulmana na Europa e fomentam os discursos xenófobos da extrema-direita.

Leia sobre motivos para não morar na Dinamarca

A primeira-ministra dinamarquesa Helle Thorning-Schmidt disse durante a entrevista coletiva no domingo sobre o assunto que “a Dinamarca foi atingida pelo terror” e decretou “alerta máximo” no país. Em seu discurso ela declarou que “a Dinamarca é uma democracia aberta, livre e pacífica. Isso não vai mudar. Vamos defender nossa sociedade e manter nossos princípios fundamentais.” Ela complementa dizendo que” esta não é uma batalha entre o Islã e o Ocidente, ou entre muçulmanos e não-muçulmanos. Essa é uma batalha entre os valores intrínsecos da nossa sociedade e extremistas violentos.” Para finalizar, disse que “ao mesmo tempo insistiremos para que as pessoas sigam com suas vidas como de costume” e enfatizou: “estou confiante de que a Dinamarca passará por isso unida e forte.”

O jornal Jyllands-Posten entrevistou pessoas no local. Veja o vídeo em dinamarquês clicando aqui.

Imigração e muçulmanos na Dinamarca

Todos os anos a Dinamarca acolhe, através de parceria com a ONU, cerca de 500 refugiados muçulmanos provenientes principalmente do Iraque, Irã, Afeganistão e Faixa de Gaza. A maioria dos muçulmanos que reside atualmente no país são filhos de imigrantes que vieram para o país nas décadas de 1960 e 1970, provenientes principalmente do Paquistão, Turquia e da antiga Iugoslávia. É impossível descrever ao certo quantos muçulmanos há no país porque segundo a lei dinamarquesa é ilegal registrar a afiliação religiosa das pessoas. 9,5% da população dinamarquesa é composta atualmente de imigrantes de várias origens. Na sociedade dinamarquesa existe um conceito de equidade muito forte e por conta desse conceito não há dados estatísticos sobre as comunidades migrantes no país, pois acredita-se que isso teria caráter discriminatório e a discriminação é algo que as Leis de Jante condenam.

A questão dos atentados desse fim de semana reacende e inflama a chama dos extremistas da direita, que desde há muito clamam por ‘uma Dinamarca para os dinamarqueses’. Políticos principalmente do Dansk Folkeparti (Partido do Povo Dinamarquês) fazem abertamente campanha contra os imigrantes e o ocorrido nesse último fim de semana em Copenhague colocou de novo o tema em pauta.

A opinião do povo dinamarquês

Li muitos comentários no Facebook e conversei com algumas pessoas para tentar entender como fica a questão na cabeça dos dinamarqueses. Há os que são totalmente contra a imigração mas a esmagadora maioria é a favor da equidade de direitos e deveres para todos, dinamarqueses por nascimento ou por opção. Há que se combater o terror, porém é preciso entender que há extremistas em ambos os lados. O povo dinamarquês preza pelo hygge, pela união, pela força, pela equidade. Acredito que, neste momento, é a união que vai nos fazer mais fortes no combate contra o terror e contra a violência, e as demonstrações de ontem comprovam que a compaixão, aliada à confiança e a atitudes positivas e eficazes, é peça fundamental nessa luta. Falar de violência é considerado ‘uhyggeligt‘ pelos dinamarqueses, mas talvez o ato terrorista do fim de semana sirva para demonstrar que há assuntos que precisam, sim, ser debatidos, ainda que desagradáveis. A questão da imigração é um desses assuntos ‘uhyggeligt‘ que evocam a necessidade urgente de debate.

 

(Fontes utilizadas nesse artigo: The Copenhagen Post/Politi.dk /DR News/TV2/ Jyllands-Posten/Politiken/Bloomberg/The Guardian/BBC/Islam in Denmark/Danmark Statistik)

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13 comentários

Juliana Bezerra Fevereiro 17, 2015 at 4:16 pm

Texto brilhante. Por uma sociedade livre de extremistas!

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Cristiane Leme Fevereiro 17, 2015 at 4:21 pm

Obrigada, Ju 🙂 E pela liberdade, sempre!

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Aracilda Fevereiro 17, 2015 at 5:47 pm

Muito bem escrito, Texto muito bom.

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Cristiane Leme Fevereiro 18, 2015 at 4:12 pm

Obrigada e continue nos acompanhando!

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gerusaribeiro Fevereiro 20, 2015 at 11:09 am

muito bom texto,como sempre .Parabéns e muito obrigado´por me ajudar a entender esse triste fato ocorrido atrsves do seu blog.

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Cristiane Leme Fevereiro 21, 2015 at 5:09 pm

Obrigada a você, Gerusa, por ler e comentar! Continue nos acompanhando 🙂

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Elayne Barbosa Fevereiro 21, 2015 at 8:22 pm

gostei do texto bem explicado sobre os muçulmanos e a imigração dos mesmos
parabens eu tambem sonho viver num país onde a religiao é basicamente tudo … e esta, é o islã.

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Cristiane Leme Fevereiro 21, 2015 at 9:29 pm

Obrigada por seu comentário mas tenho dúvidas sobre o que você entendeu do texto. Na minha opinião um país para ser livre deve ser laico, isso quer dizer, o governo tem que estar totalmente desvinculado da religião, e é o que existe na Dinamarca, por exemplo. Países onde se governa com base em religião e preceitos religiosos podem ser bastante restritivos, haja visto o que aconteceu no Irã depois da Revolução e na Arábia Saudita dos dias de hoje. Eu acredito que só quem vive nesses países sabe do que eu estou falando. Informe-se bastante a respeito. Leia os textos da nossa colunista na Arábia Saudita e continue nos acompanhando para mais informações a respeito da Dinamarca. Abraços

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Cintia Fevereiro 23, 2015 at 7:15 am

Cris,

Texto super claro e bem explicado. Fico pensando aonde essa questão vai parar Europa. Aqui na Holanda, como já comentei certa vez com voce, as cidades e bairros estão meio que se dividindo. As manifestações contra os mulçumanos ( especialmente marroquinos) são abertas…o pessoal sai nas ruas protestando mesmo. O radicalismo anda imperando de ambas as partes, diga-se de passagem, mesmo sendo uma minoria, eu particularmente acho perigoso isso começar a se espalhar. Bjs

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Cristiane Leme Fevereiro 23, 2015 at 9:34 am

Cintia, eu também ando preocupada. Depois de todas as manifestações positivas tem crescido uma onda anti-muçulmanos em alguns pontos da Dinamarca. Essa semana teve um caso de um rapaz dinamarquês que é voluntário nos campos de refugiados sendo agredido verbalmente nas redes sociais por um grupo extremista que acha que os muçulmanos devem deixar o território dinamarquês. Tá difícil. Eu temo pela falta de noção das pessoas e pela repetição da história por conta disso. Partidos de extrema-direita como o Dansk Folkeparti aqui estão causando um rebuliço em relação à questão dos refugiados. É muito sério. A coisa ficou ainda mais quente por aqui quando um famoso escritor local, cuja origem é árabe, disse que ‘entendia’ a posição do rapaz que atirou, já que essa comunidade muçulmana, composta atualmente por uma grande parte de refugiados, é relegada a uma certa marginalidade: eles são ‘confinados’ em alojamentos distantes e com infra-estrutura mínima; os programas de integração disponíveis são insuficientes em infra-estrutura e o trabalho dos voluntários é fundamental para que essas pessoas possam passar pelo choque cultural de forma mais branda. Como eles esperam que os muçulmanos refugiados se integrem se desde quando eles chegam são vistos como invasores? Felizmente há também muita gente que vê onde está o problema e que faz campanha contra. Várias pessoas dinamarquesas que eu conheço e que são inteligentes e informadas já manifestaram a sua indignação e se engajaram em campanhas para combater o preconceito e ajudar os refugiados a se integrarem. O que é mais curioso é que esses que gritam que querem uma Dinamarca para os dinamarqueses são, normalmente, gente mal instruída, que lê pouco, que usa os benefícios sociais indiscriminadamente e assiste muita televisão. Obrigada por comentar. Bjo

Resposta
Dinamarca – A nova lei de integração Maio 30, 2015 at 8:36 am

[…] O assunto voltou à tona depois dos atentados terroristas em Copenhague (leia mais a respeito aqui), e com relatórios recentes revelando que a imigração no país em 2014 aumentou em relação ao […]

Resposta
Ana Dietmüller Fevereiro 16, 2016 at 10:54 am

Excelente texto, Cris! Infelizmente, o terror é algo que atinge não mais, somente o imaginário europeu, mas sua realidade. Entretanto, enquanto a voz dos bons for mais alta e mais ativa, como fez a Dinamarca, neste triste episódio, ainda está valendo TUDO a pena! Baita abraço!

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Cristiane Leme Fevereiro 16, 2016 at 12:13 pm

Obrigada, querida! Infelizmente o panorama atual depois disso não é muito animador. Conforme prometido pela Helle Thorning-Schmidt, a agenda ‘anti-imigração’ tem se fortalecido através do novo governo que tomou posse em meados do ano passado. Prepararemos um especial a respeito em breve. Abraços!

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