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Asatro, a crença nos deuses nórdicos vikings

Você já ouviu falar de asatro, a crença nos deuses nórdicos vikings?

A cultura nórdica/viking é uma febre nos últimos anos, principalmente depois dos quadrinhos sobre Thor e mais recentemente com o sucesso da série de tevê Vikings, baseada nas sagas vikings islandesas ou Eddas.

Quem eram os vikings?

Os vikings eram um povo que veio da Escandinávia e viveu no período entre os anos 700 e 1100 da era moderna. Em sua origem, eram muito mais negociantes que piratas. Viajavam em embarcações longas e rápidas, chamadas de drakkar por causa do dragão esculpido na sua popa.

Uma das origens prováveis da palavra ‘viking’ é uma expressão em nórdico antigo que quer dizer “ir em expedição guerreira ou em viagem de comércio ou pirataria”. Problemas com superpopulação e escassez de alimentos causaram guerras internas que levaram esses povos a buscar alternativas em outras regiões – ‘fara i viking‘ era a expressão que se usava quando alguém se aventurava pelo mar em busca de conquistas.

Tenho certeza de que mesmo que você conheça pouco sobre os vikings, já deve ter ouvido falar nos deuses mitológicos nórdicos como Odin e Thor. Nesse texto vou falar sobre o culto moderno a esses e outros deuses nórdicos, chamado de asatro. Asatro quer dizer ‘crença nos deuses de Asgård’. Segundo a mitologia nórdica, há diversos mundos: o mundo dos humanos é Midgård e Asgård é a morada dos deuses.

Leia mais: Religião na Dinamarca

Na época dos vikings a crença nesses deuses não tinha um nome próprio, mas passou a ser chamada de costume antigo, ou Forn Sidrs, em relação ao costume novo, o cristianismo. Os asatroende, como são chamados em dinamarquês os praticantes desse culto, recriaram os rituais com base nas descrições das Eddas, já que as tradições dos vikings eram passadas oralmente e se perderam com o tempo.

Forn Sidrs é também o nome da única instituição religiosa de culto aos deuses nórdicos reconhecida na Dinamarca, com cerca de 600 membros registrados. Estima-se que em torno de mil pessoas pratiquem o culto no país.

O culto

As reuniões, ou blót (se lê ‘blôt’) são feitas ao ar livre e geralmente em torno de uma fogueira com música, dança, comes e bebes. Blót significa pedir e ofertar aos deuses na esperança de que eles favoreçam aos que pedem e ofertam.

Não há regras sobre como os rituais devem ser, mas se aconselha que cada blótlaug, como são chamados os grupos de culto, sejam de no mínimo duas pessoas e idealmente de 8 a 12, com um mestre de cerimônia – Gode, se homem, ou Gydje, se mulher, além de hidromel ou outra bebida (alcoólica ou não) e um ou mais chifres cerimoniais, que serão usados como copos. Totens representam os deuses na cerimônia.

Em alguns grupos se usa também edsringe, braceletes citados nas sagas como objetos relacionados aos sacrifícios oferecidos aos deuses. Outro objeto comum nos rituais é a roda do sol, simbolizando as estações do ano e as ocasiões de blót. Após a prece é feita uma oferenda e libação aos deuses. Os brindes e músicas são parte importante do ritual. As oferendas são geralmente sementes e não há mais sacrifícios rituais como na antiguidade.

Leia mais sobre literatura nórdica: Luciano Dutra, tradutor e editor na Islândia

As datas importantes comemoradas no calendário da asatro

As reuniões são organizadas de acordo com a vontade e necessidades dos grupos, ou seja, não há cultos diários, semanais ou mensais. Geralmente as reuniões se organizam principalmente nos períodos abaixo:

Diseblót/Tordeblót

Em fevereiro, geralmente no dia 1º ou dia 14 celebram-se as deidades femininas como as valquírias, que escolhem os guerreiros que descansarão em Valhal depois de mortos em combate, e as nornas, que como as moiras gregas tecem e determinam o destino dos humanos. Aqui se celebra principalmente a feminilidade e a fertilidade.

Equinócio de primavera

Em março, entre os dias 20 e 21 se comemora o equinócio de primavera e o fim do inverno, com a volta da claridade e o renascimento da vida, representado pelo reverdecimento dos campos e iniciando o período de acasalamento para os animais. A primavera marcava o início das atividades de viagens para os vikings e, por isso, Odin é geralmente o deus principal desse culto.

O período coincide com a páscoa cristã e as decorações modernas típicas de páscoa na Dinamarca, com ovos coloridos e aves simbolizando a volta da vida são elementos que passaram do culto viking para o culto cristão.

Majblót

No fim de abril, entre os dias 30 de abril e 1º de maio se comemora a chegada definitiva da primavera e o início da preparação para o verão. É comum usar flores primaveris como decoração em casa e fora dela. Em alguns lugares se usa hastear um majstang, ou mastro de maio, que é aquele mastro com fitas e bandeirolas coloridas onde as pessoas dançam em volta e que você já deve ter visto algum dia em comemorações cristãs, pois ele também foi incorporado às tradições da nova fé.

Solstício de verão

Entre os dias 20 e 21 de junho se comemora o dia do ano com mais horas de claridade, onde o sol está no ponto mais alto do céu. Festeja-se a fertilidade, por isso os deuses Frey e Freya são as divindades principais. Símbolos como o feixe de gravetos e guirlandas de flores são típicos, e um mastro da fertilidade também é erguido. Um dos maiores festivais suecos, o Midsommar, é a representação moderna dessa festividade.

Høstblót ou festival da colheita

Por volta do dia 20 de agosto se festeja a chegada da primeira colheita. Na época dos vikings era nesse período que se começava a preparar as conservas para o inverno – não tinha geladeira naquela época e o consumo de conservas é uma herança que vem daí. A divindade principal desse culto é Thor.

Equinócio de outono

Entre 22 e 23 de setembro têm-se exatamente doze horas de luz e 12 horas de escuridão. As pessoas se reúnem para se despedir do verão e iniciar a preparação para o inverno. Nessa época também há festas para comemorar as colheitas, mas elas não se relacionam com os rituais asa.

Alfeblót / Ætteblót

Essa é a festa para os ancestrais familiares e para os duendes, elfos, anões, gnomos e outras entidades e forças da natureza próximas dos humanos que vivem em casa, nos campos, plantações, lagos e florestas, celebrados no dia 1 de novembro. Pode-se dizer que a “festa de todos os santos” é, na verdade, esse culto traduzido para a nova fé.

Solstício de inverno / jól

Entre 21 e 22 de dezembro temos o dia com menos claridade do ano. Depois desse dia a luz começa devagar a retornar, e é isso que essa festa comemora: o retorno da luz. Ela tem relação com o jól. Como já explicado no meu texto sobre o Natal na Dinamarca, o Natal cristão incorporou diversos elementos dela. A tradição do jól, porém, era festejada em janeiro, e durava meses, mas não faz parte do calendário de festas da asatro.

Para saber mais sobre asatro veja o site em dinamarquês Asatro Samling.

Caso esteja na Dinamarca e queira participar de um blótlaug já aberto, consulte a lista completa aqui.

Espero que vocês tenham gostado e termino com a saudação asatro, desejando saúde, prosperidade, riqueza e paz: År og fred!

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2 comentários

Marcelo Pontes Novembro 21, 2018 at 6:19 pm

Ola Cristiane, tudo bem, seus post sempre são muito interessantes de se ler, da pra ver que escreve com muito amor, parabéns pelo texto. um grande abraço.

Resposta
Cristiane Leme Novembro 29, 2018 at 11:01 pm

Oi Marcelo, que bom que você gostou.
Obrigada pelos elogios, eu realmente procuro escrever com apreço e é muito gratificante que os leitores reconheçam.
Agradeço a leitura.
Abraços!

Resposta

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