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Confirmação na Dinamarca: tradição e consumismo

A confirmação na Dinamarca é uma tradição que vem impregnada de consumismo.

Quem me acompanha por aqui sabe que a Dinamarca é um país cristão luterano (leia sobre religião na Dinamarca aqui) e muitos dos feriados oficiais do país obedecem a esse calendário. Em maio, além do dia das mães temos um evento que é considerado como um rito de passagem pré-adolescente, marcando a transição da infância para a vida adulta: a konfirmation, ou confirmação. E o que é essa tal de confirmação?

No catolicismo e luteranismo há dois momentos em que a pessoa confessa sua escolha de fé; o primeiro é o batismo e o segundo, a primeira comunhão católica, que na igreja luterana foi chamada de confirmação, já que o ato simboliza a reconfirmação da fé cristã na vida daquela pessoa.

A confirmação é um evento grandioso na vida dos jovens e marca a sua entrada na adolescência. Os dois últimos fins de semana de abril e os dois primeiros de maio são o período em que as confirmações são celebradas, via de regra seguindo o calendário cristão e acontecendo logo após a Páscoa.

Para que um jovem possa se confirmar, é preciso que ele seja batizado e faça um cursinho na paróquia local. Os pais se encarregam de festejar de forma luxuosa, com almoço ou jantar e festa para em geral cerca de no mínimo 20 convidados.

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Os confirmandos recebem dos convidados os presentes da confirmação, que costumam ser artigos caros como computadores, smartphones, roupas de suas marcas favoritas etc., mas principalmente dinheiro em espécie. Em média, um confirmando residente em Copenhague recebe em torno de 20 a 30 mil coroas dinamarquesas no total em pengegaver, o dinheiro de presente de confirmação – isso dá mais ou menos uns 10 a 15 mil reais.

Bem, agora que você já sabe um pouco mais, vamos considerar aquele texto que escrevi falando sobre a religião e seu papel na sociedade dinamarquesa- clique aqui para ler de novo. Lá você vai ver que apesar de a maioria dos feriados nacionais do país ser de fundo religioso, os dinamarqueses não são lá tão fiéis e religiosos assim. Aí é que entra a parte do consumismo do título.

Muitos jovens, mesmo que pouco se importem com o luteranismo ou as simbologias cristãs fazem questão da festa, afinal a confirmação, como dito antes, é um rito de passagem e adolescentes querem se sentir incluídos. Nessa, há os que optam por se confirmarem numa fé que jamais irão professar de verdade, tudo para poder ganhar um festão para os amigos, presentes e muito dinheiro pra gastar na Blå mandag, a segunda-feira depois da confirmação e pico vital de vendas para os comércios locais nessa época.

Confirmar-se também implica em se tornar membro da Igreja do Povo Dinamarquês, a igreja estatal, e isso significa pagar tributo, já que os membros da igreja luterana dinamarquesa precisam pagar imposto compulsório para serem membros dela, o que funciona como uma forma moderna de cobrar o dízimo.

Alguns pais, embora saibam ou até mesmo compartilhem da falta de interesse religioso dos filhos preferem encorajá-los a se confirmarem, por se tratar de uma tradição da cultura local que eles acreditam ter que ser preservada.

A confirmação é a primeira festa cara de uma pessoa, por assim dizer, e ao meu ver tem quase que o mesmo valor das antigas festas de debutante, em que se apresentava uma jovem para a sociedade.

Leia mais sobre festas e como festejar na Dinamarca

A festa se divide na cerimônia de confirmação propriamente dita, com seus ritos próprios e conduzida na paróquia local, em geral pela manhã, e a festa privada, que pode ser logo em seguida ou à noite, onde convidados selecionados irão se regatear com comes e bebes, trarão presentes e testemunharão os discursos, músicas e homenagens à pessoa que acabou de ser confirmada. Como é de praxe em toda festa dinamarquesa desse porte, há discursos infindáveis e homenagens de familiares próximos e de amigos, além dos agradecimentos de quem está se confirmando.

Pais que não seguem o luteranismo ou que optam por não seguir uma religião precisam conversar muito com seus filhos e filhas a partir dos 12 anos de idade da criança para que tenham todo o suporte familiar, sobretudo quando os filhos dessas pessoas optarem por seguir a tradição, tendo em vista que não desejam se sentir excluídos perante os amigos e amigas da mesma idade que irão se confirmar. Nesses casos pode-se oferecer a a não-firmação (nonfirmation), que pode ser por exemplo um curso focando em ética e visão do mundo com base humanista. Aqui, da mesma forma há uma cerimônia e festa, porém a abordagem nada tem de religiosa.

Financeiramente falando, quem gasta mais com essa festa são os pais, sem sombra de dúvida. Entre os gastos com a festa em si e a compra dos presentes mais caros, eles terão que desembolsar uma boa quantia para que a festa aconteça. Por isso é bom pensar em fazer uma pequena poupança para o futuro, começando logo, se possível enquanto a criança ainda é pequena.

Tenho que confessar que a minha visão de confirmação é um pouco tendenciosa, pois vejo muito mais a coisa do consumismo – interesse pela festa e pelo dinheiro e presentes caros – como mola propulsora para que os jovens se proponham a se confirmar. Entretanto, sem dúvida há o peso da tradição, e dinamarqueses amam suas tradições, mesmo que a alguns lhes falte a compreensão da origem de muitas delas.

Para ler mais sobre confirmação em dinamarquês, acesse aqui, aqui e aqui.

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6 comentários

Francisco Nobre Maio 25, 2018 at 1:58 pm

Interessante saber disso. Culturalmente falando, principalmente. Claro, se morasse por aí, optaria pela “não-firmação” para meus filhos, pois acho muito mais útil para o jovem (se realmente aproveitarem os cursos que você mencionou). Mesmo porque, discordo, em termos de doutrina religiosa, da existência da “primeira-comunhão” Católica, e essa congênere “confirmação” Luterana, coisas que não foram criadas e não existiam no Cristianismo primitivo, já que não se batizava bebês no principio do Cristianismo (o batismo é uma opção consciente, coisa que bebê não tem condição de fazer). Mas, isso é outra história.

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Cristiane Leme Maio 26, 2018 at 10:39 am

Oi Francisco, que bom ver você aqui de volta. Eu ainda não sei o que minha filha irá escolher quando chegar na hora dela, mas espero que opte pela não-firmação também. Abraços

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Cintia Junho 1, 2018 at 1:29 am

Mas sabe q nem chega a ser mto diferente no Brasil não… Não batizei meu filho, e mtos acham absurdo. Sendo q a grande maioria não frequenta igreja católica/luterana… Me parece mesmo algo mais pela festa do q pela fé…

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Cristiane Leme Junho 2, 2018 at 8:34 pm

No Brasil e nos demais países que seguem o catolicismo é mesmo bastante parecido: mais vale a tradição e a festa do que a fé propriamente dita. Segue o baile, né?
Abraços e obrigada pelo comentário. Continue nos acompanhando!

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Valentine Julho 26, 2018 at 3:31 am

Olá Cristiane!! Você tem e-mail para conversarmos?? Adoro seus posts! Obrigada, beijos.

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Cristiane Leme Agosto 6, 2018 at 8:51 pm

Oi Valentine, acho que você já me encontrou no Facebook, não?

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