Aumentar ou não a família quando se mora fora?

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Fonte: Pixabay
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Aumentar ou não a família quando se mora fora?

Mãe, pai, filhos, uma família. As vezes dois, três, ou até apenas um único filho. Pode ser o grupo familiar tradicional, ou podem ser dois pais, duas mães, pode vir a avó junto, um meio-irmão também. Família é esse grupo único de pessoas, unido por escolhas e circunstâncias, que no nosso caso decidiram juntos mudar de realidade e fazer sua vida em outro pais. Cambiar nosso lar é um tremendo desafio diário, uma mudança que chacoalha nossas estruturas, questiona nossas ideias e nos fortalece de uma forma que apenas quem vive no estrangeiro sabe.

O começo é difícil para adultos e crianças, a adaptação tem seus altos e baixos, o idioma é cheio de mistérios, os costumes são o oposto do que estamos habituados. Por outro lado, tudo é novidade, culturalmente tomamos um banho de novas ideias e recebemos diariamente estímulos que nos fazem crescer na marra. Nós chegamos aqui no Michigan com 2 filhos (uma menina e um menino), e a família estava teoricamente completa. Eu estava certa de que não precisava mais nada, e que meu papel como mãe de recém nascido estava cumprido.

Passaram meses e a família se adaptou, virou o primeiro ano fora e todos se sentiram mais em casa. As saudades apertam, mas sabemos como lidar com ela com menos sofrimento e mais nostalgia. As crianças vão crescendo, vira o segundo ano, e aquele que chegou bebê já entrou na escola, e a menina que era uma criança agora é quase adolescente. A rotina do trabalho se incorpora no dia a dia, as tarefas domésticas se intrincam nos horários, e todos desempenham seu papel na casa independentemente da idade.

O terceiro ano vira, e no nosso quarto ano aqui as estações do ano passam como um desfiles de paisagens na nossa frente. A família está extremamente unida, porque morar fora aproxima seus membros como quase nenhum outro acontecimento na vida. Temos um ao outro nas horas boas e ruins, e apenas um ao outro. Tanto para brigar quanto para rir, compartilhar e desabafar. O restante da grande família ficou lá, do outro lado do oceano, cruzando um continente inteiro ou as vezes até dois, longe do nosso corpo físico, dos abraços.

O nosso grupo familiar, até aqui supostamente pleno, vê surgir um pequeno espaço, uma fagulha de questionamento. Me volto para olhar mais atentamente uma vontade até então desapercebida. Cabe mais um? Nós como casal nos perguntamos se existe condições para mais um filho, condições essas financeiras, físicas e até psicológicas, de enfrentar noites mal dormidas e um bebê pequeno num país que não é o nosso. Meu marido, até então firmemente decidido, passa a querer mais do que eu, e já pensamos então com mais clareza na tremenda loucura que é colocar no mundo mais um ser humano, incorporar mais um membro à família que aparentemente era completa.

Morando em outro lugar ainda, será? O filho terá outra nacionalidade, nascerá numa terra que não conhecemos a fundo, será nosso, mas pertencerá eternamente a este país também. Terá sua certidão de nascimento escrita em outro idioma, terá benefícios e obrigações que seus irmãos não tiveram.

Pesados os prós e contras, é chegada a conclusão que sim, há espaço para mais amor nessa família. Conta-se então com a sorte, seja qual for a forma que você escolhe para formar (ou aumentar) seu núcleo familiar. Enquanto a forma tradicional da concepção de um bebê continua sendo a que mais se vê por aí, muitos decidem pela adoção, outros pela fertilização (FIV) e alguns até barriga de aluguel. Os caminhos alternativos aqui nos EUA e em muitos outros países não são exatamente fáceis, entretanto funcionam de forma mais satisfatória do que no Brasil.

Não existe a burocracia exaustiva nem outros impedimentos extremos para adicionar um novo membro a família. Casos de famílias formadas por essas alternativas são muito comuns aqui, e se vê que o amor não tem forma pré-moldada, nem preconceito, nem barreiras. Família é onde se vê cuidado, amor e pessoas dispostas a estarem juntas, independentemente de tudo. Temos amigos homoafetivos que acabam de ter filhos gêmeos através de barriga de aluguel, e outros que adotaram uma recém nascida diretamente da maternidade no começo deste ano. Sonhos aqui se realizam.

Leia também: Ser ou não ser mãe na Suécia, eis a questão!

No nosso caso, deixamos acontecer. Se eu engravidasse, ótimo, era um desejo que tínhamos, mas sem ser uma obsessão ou uma necessidade. Queríamos aquilo que era para ser. Já não somos mais tão jovens, então a sorte estava lançada. Sem muita demora, em finais de outubro passado recebemos a confirmação que eu estava grávida. Lá vem um american baby para nossa família. Foi uma mistura de sensações, de principalmente a felicidade se sobrepondo ao receio e às duvidas, e muita comemoração por parte dos irmãos em adicionar mais um para a turma. Na hora em que a realidade bate, o medo esmaece.

A gente sabe que vai enfrentar mundos e fundos, um sistema de saúde desconhecido, médicos que não entendem nosso jeito brasileiro, procedimentos e até partos distintos. Fora o fato de incluir um bebê recém nascido na rotina diária em casa, sem ajuda ou sem família por perto, mas tudo isso vale a pena quando se realiza um sonho. Um sonho que nem sabíamos que tínhamos. Nunca saberemos se morar fora adicionou nossa pequena menina à família, porém fica claro para nós que estar em outro país te coloca em contato com seu eu interior mais profundo, faz com que você enxergue as suas vontades de uma forma cristalina.

Ela veio porque tinha que vir, e nós a receberemos de braços abertos.
E mais típica não poderia ser, já que está prevista para nascer por volta do feriado mais americano de todos: o 4 de julho!

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