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Bebês ao relento na Dinamarca: tudo pela saúde

Bebê dormindo dentro do carrinho do lado de fora da casa, da creche ou do restaurante é cena comum na Dinamarca e em países nórdicos.

Logo nos meus primeiros meses aqui em Aarhus estávamos almoçando num café simpático, pequeno, com pouquíssimas mesas. Um casal com um bebê de no máximo seis meses se sentou perto da gente. A mãe tinha o bebê ao colo, pois com toda certeza os carrinhos daqui, os chamados barnevogn, que geralmente são enormes e merecem um outro artigo inteirinho pra eles, não passariam nem pela porta do café.

O casal pediu a comida, brincou um pouquinho com o bebê e vi o pai saindo com a criança. Devia estar uns 8 graus lá fora e estranhei que ele estivesse saindo antes mesmo da comida chegar.

Parei de bisbilhotar a vida alheia e esqueci a história por uns minutos. Só que o moço voltou sem o bebê, o que me pareceu muito esquisito. Imaginei que algum parente tinha ido buscar o pequeno, mas o porta-fraldas e o aparato todo continuava na cadeira.

Notei que a mãe vez ou outra olhava pela janela e de repente, caiu a ficha. Com minha cara de espanto característica, falei para minha família das minhas suspeitas: – Acho que deixaram o bebezinho lá fora nesse frio! Não pode ser!

Mas era. Não só era verdade como, aprendi depois, uma prática tradicional que acontece há gerações em países como Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia. Uma dinamarquesa, funcionária da Universidade de Aarhus e mãe de dois meninos, me disse que seus filhos tiravam as sonecas do lado de fora desde que tinham poucas semanas de vida, e normalmente duas vezes ao dia! Sua colega de trabalho, uma norueguesa, também mãe de duas crianças pequenas, ressalta que estranho para ela é deixar os bebês o tempo todo fechados dentro de casa.

Leia também: Como superar as barreiras culturais

Choque Cultural

É compreensível que quem cresce dentro desta rotina não veja nada de estranho em tal prática. Por outro lado, e se você for mãe brasileira que se vê inserida numa nova cultura? Tive de investigar com algumas outras brasileiras na área, porque quando cheguei por aqui meu filho já não era bebê.

A colega colunista da BPM, Cristiane Leme Høg, que mora na cidade de Holstebro, é mãe de Isabella, de 3 anos. Ela conta que Isabella tira sonecas ao ar livre desde muito pequena e, mais, casada com um dinamarquês, Cristiane não teve problemas em adotar a ideia. “Há a tradição, claro, todo o aspecto cultural. Mas há também recomendação médica como forma de fortalecer o sistema imunológico da criança”. Ela faz questão de ressaltar, porém, que há vários procedimentos imprescindíveis para garantir que o bebê esteja sempre aquecido e seguro. Entre eles, Cristiane ensina, é fundamental o uso de roupa adequada, como o flyverdragt, um macacão que lembra uma roupa de esqui.

Ela também conta que dentro do carrinho vai uma manta fofinha de pele de cordeiro, e o voksipose ou kørepose uma espécie de saco de dormir que precisa estar bem fechado também. Sem contar o uso de umas touquinhas (elefanthue) muito características, tipo ivanhoé, que cobrem a cabecinha da criança, incluindo as orelhas e deixando só o rosto à mostra.

Outra brasileira que mora na Dinamarca há 10 anos e prefere não se identificar, teve os dois filhos, um menino de 9 e uma menina de 5, aqui. Ela conta que no princípio resistiu à ideia. “Fui informada na creche que todos os bebês tiravam as sonecas do lado de fora e resolvi questionar meu médico sobre o embasamento científico para isso”.

A explicação que ela recebeu foi a mesma dada na escola: ajuda a imunidade e previne a disseminação de doenças, comuns em locais com muitas crianças juntas como as escolinhas. “Pedi, então, para que meu filho fosse colocado numa área aberta, mas coberta, um pouco mais protegida do vento. Isso porque, apesar de tudo, ele teve infecção de ouvido”, ela conta. Quem conhece a Dinamarca sabe que o frio é negociável mas o vento é um capítulo à parte (não à toa o país é campeão em energia eólica). O pedido da mãe brasileira foi aceito, o que a tranquilizou. “Não desrespeitei a cultura e me senti respeitada em minha escolha”, analisa.

Leia também: O primeiro ano do bebê na Dinamarca

Ambas as brasileiras reconhecem que a prática é também uma forma de aumentar a resistência das crianças às baixas temperaturas. E elas vão precisar disso, uma vez que em todas as fases da escola é obrigatório que passem muito tempo brincando do lado de fora, mesmo em temperaturas bem baixas. Um outro benefício normalmente apontado é a qualidade do sono dos bebês, que dormem melhor e por mais tempo. Isso se deve, aparentemente, ao fato de estarem aconchegados, bem enroladinhos dentro do carrinho. Acredita-se que isso faz qualquer pessoa dormir melhor, mas quando feito dentro de casa a tendência é causar superaquecimento, o que pode ser perigoso para crianças pequenas.

Já um aspecto que me pareceu curioso tem a ver com a exposição aos sons. Há duas versões. De um lado, há o argumento de que em áreas externas a criança está livre do barulho doméstico, que toda casa tem, ainda mais em famílias grandes. Por outro lado, há quem diga exatamente o contrário: ou seja, que fora das quatro paredes a criança se acostuma a dormir mesmo quando não tem silêncio absoluto.

Considere algumas questões

É famoso o caso de uma dinamarquesa que foi presa por ter deixado seu pimpolho do lado de fora de um restaurante em Nova York, enquanto jantava! A mãe foi considerada negligente por abandonar a criança aos perigos da cidade. A lição desse episódio é que a segurança e o senso comum de confiança que existem na Dinamarca, permitem que os pais se sintam confortáveis deixando um bebê dentro do carrinho, mesmo na calçada de uma cidade. Esse é, aliás, um sentimento muito prevalente aqui.

Ainda assim, me garante a funcionária da universidade, as mães sempre escolhem um lugar estratégico onde possam manter um olho no bebê. O que ela não disse, mas é legal ter em mente, é que se o objetivo é oferecer um ar mais saudável para os bebês, deixar o carrinho numa rua com grande movimento de carros, pode arruinar toda a proposta de saúde inicial. É preciso usar bom senso sempre, até mesmo na Dinamarca.

Para ajudar nos cuidados, há os monitores de bebês. Quem já usou sabe que com eles qualquer chorinho pode ser ouvido perfeitamente, mesmo à distância. Além disso, muitos dos super carrinhos dispõem de um dispositivo com termômetro que dispara um alerta caso a temperatura caia abaixo do que se considera seguro.

Recomenda-se nunca deixar os bebês do lado de fora em temperaturas inferiores a 5 graus negativos! E vale o lembrete : o que deve ser observado não é a temperatura absoluta mas a sensação térmica. Com o vento gelado dinamarquês, a sensação térmica é sempre muito abaixo da temperatura “real”.

Uma das coisas mais interessantes quando vivemos em uma cultura diferente daquela na qual crescemos, é que quase todos os hábitos e costumes, que em princípio nos causavam espanto, acabam sendo aceitos. Como vimos, podem inclusive ser incorporados depois que compreendemos os motivos por trás de cada um. Digo, quase, porque nadar pelada na água gelada depois da sauna, o chamado Vinterbadning, ou banho de inverno daqui, é o tipo do costume que não me vejo adotando. Nem em cem anos… Brrr

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