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Design dinamarquês para iniciantes: estilo e praticidade

Design dinamarquês para iniciantes: estilo e praticidade

Entre as muitas diferenças superficiais notáveis de um país a outro, o design de interiores sempre me interessou. E na Dinamarca, terra de designers, o tema chama ainda mais a atenção.

Mesmo num mundo globalizado, percebemos que a forma como organizamos e decoramos nossas casas diz muito sobre a nossa cultura e também demonstra como o clima local tem impacto em muitos dos detalhes.

O lado de fora influencia muito o lado de dentro. E não estou falando só de coisas claramente pragmáticas, como o uso do ar condicionado e o sistema de aquecimento em alguns países, mas também de coisas mais sutis como a decoração, os jardins, fachadas e mesmo como se usa o espaço interno. Tudo e cada parte disso reflete a história de cada lugar e seu povo.

Aqui na Dinamarca, por exemplo, país famoso pelo design de móveis e objetos, arquitetura e urbanismo, uma olhada rápida mostra que paredes envidraçadas, claraboias e janelas amplas estão em todo lugar.

Há uma escola aqui perto de casa que tem uma quadra de esportes que mais parece uma estufa. Olhando de fora sempre achei linda, mas imagino que com o sol tropical do Brasil batendo inclemente em todo aquele vidro, os pobres atletas mirins iriam cozinhar em apenas alguns minutos.

A verdade é que com invernos marcados pela escuridão, a abundância de janelas nos países escandinavos busca tirar o maior proveito da luz do dia. O problema (e veja que parece ser problema só pra mim) é que a escuridão da noite no inverno faz com que a parte de dentro da casa fique exposta.

Isso porque os dinamarqueses não são grandes fãs de cortinas e tipicamente não temem que as pessoas vejam o que acontece do lado de dentro de seus lares.

Já me disseram que não há preocupação porque ninguém olha para dentro das janelas, o que significa respeito à intimidade das pessoas. Confesso que sou uma senhora bem respeitosa mas não resisto a dar uma espiadela dentro das casas. Sem querer justificar minha falta, algumas são mesmo irresistíveis!

Ainda com a ideia de refletir (e aproveitar) a luz natural, é super comum aqui que as paredes das casas sejam totalmente brancas. E note que não estou falando aqueles tons de bege, creme ou algo que o valha, falo de branco mesmo!

Costumo brincar, quando vejo loja de tintas, que aqui você não escolhe cor, só seu tom de branco. Brincadeiras à parte, esse jeitão ‘clean’ me encantou um bocado quando cheguei. Vinda dos Estados Unidos, onde tudo é um pouco excessivo, gostei particularmente do minimalismo e da prioridade que dão ao espaço, ou seja, menos coisas e mais áreas livres na casa.

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O chão é sempre de madeira ou laminado e na maioria das vezes de cores claras também. Carpete de parede a parede é raríssimo e a parte fofinha da decoração fica com as peles (felizmente pra mim, a maioria falsa), almofadas, tapetes bem felpudos na área do sofá e xales .

Os tons de preto e cinza são muito presentes e, para quebrar a monotonia, os acessórios costumam ser mais coloridos, incluindo as luminárias, vasos, peças em vidro e cerâmica, embora mesmo estes raramente sejam de cores muito vívidas.

Há também, em alguns casos,  pequenos móveis em couro e madeira rústica, que assim como as plantas grandes de interior, cactus e uma parede de tijolinhos aparentes ajudam a dar um toque mais rústico e natural à decoração.

Se no verão as sacadas se enchem de flores variadas, no inverno é fácil ver pelo menos uma orquídea na janela. Quase todo mundo tem uma ou mais.

A iluminação é um capítulo à parte. Já falei em outra coluna aqui do BPM sobre as velas, componente importante do chamado hygge (o celebrado ambiente aconchegante dos dinamarqueses). Velas, luminárias de chão, de mesa e de teto têm o papel importante de criar a chamada iluminação confortável. Isso quer dizer priorizar uma luz acolhedora, em geral de tom amarelado ou alaranjado, sempre delicada, totalmente o oposto daquela luz branca homogênea e chapada, seja sobre sua cabeça ou na direção dos seus olhos.

Algumas características não são exclusivas da Dinamarca e podem ser vistas na verdade em todos os países escandinavos e nórdicos, como por exemplo, uma mania de expor objetos que normalmente ficam escondidos, como sapateiras e porta-cabides estilosos que acabam se incorporando à decoração.

Designers famosos

Toda essa descrição que fiz, apesar de filtrada por minha percepção pessoal, pode ser facilmente comprovada ou acrescida de um ou outro componente. À parte as observações de uma estrangeira, a Dinamarca tem muito orgulho do trabalho e da reputação internacional de seus designers.

O próprio website do país, em inglês, destaca a importância do design dinamarquês no mundo – só na capital, Copenhague, há dois museus dedicados ao design e lembra três das suas principais características: simplicidade, funcionalidade e elegância.

Um dos designers dinamarqueses mais conhecidos, Arne Jacobsen (1902-1971) ganhou fama com o design de cadeiras. Não basta sentar-se, é preciso fazê-lo com estilo. Os títulos de cada obra também são bem simples e diretos: A Formiga, O Cisne e O Ovo. Criadas no meio do século XX, ainda hoje podem ser vistas por aqui e ao redor do mundo. Desenhadas dentro da tendência modernista, são bem mais do que bonitas: são ergonômicas e confortáveis.

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Outra lenda do design industrial dinamarquês é Jacob Jensen (1926-2015) e uma de suas criações mais famosas são as tigelas intituladas Margrethe, em homenagem à rainha da Dinamarca. São tigelinhas plásticas coloridas para misturar ingredientes e que se encaixam umas nas outras, por isso ocupam menos espaço no armário.

Logo que chegamos aqui, quase toda semana tínhamos uma descoberta que atestava a funcionalidade dos objetos em seus pequenos detalhes. Um painelzinho discreto na parede, do qual você pode baixar uns pinos para pendurar os casacos e que depois de usados voltam a fazer parte do painel; ganchinhos que permitem segurar as janelas abertas em duas diferentes posições para dosar quanto ar você quer que circule, muito necessários para que o vento intenso não leve suas janelas pra o espaço; e mais ‘ganchinhos’ feitos de tecido nas jaquetas, toalhas de banho e panos de cozinha para que possam ser pendurados propriamente.

Uma das minhas mais recentes paixões são as claraboias aqui de casa que podem ser abertas por controle remoto e que são tão espertas que se fecham automaticamente se começar a chover, algo que, digamos, acontece bastante nessas plagas.

De tudo o que tenho visto nestes anos, o que de fato me ganhou é a ideia de criar cantinhos e espaços simpáticos para relaxar ou receber os amigos. Nada porém tira de mim a crença de que onde quer que eu esteja uma morada tem de refletir, mais do que tudo, a personalidade das pessoas que a habitam.

Por isso, ainda sonho com uma, só uma, parede bem colorida em meio a esses cinquenta tons de branco.

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