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Bullying na escola primária francesa

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Bullying na escola primária francesa

Eu morava na República do Congo quando engravidei do meu segundo filho. Por diversos motivos, não era aconselhável fazer o parto lá. Um deles era a falta de uma unidade neonatal, em caso de uma complicação com o bebê. Como somos um casal franco-brasileiro e nossa primeira filha nasceu na França, meu esposo e eu decidimos que eu retornaria ao país para o parto.

No entanto, um pouco antes da minha partida, ficamos sabendo que o meu esposo seria transferido para Angola. Tendo isso em vista, eu seria obrigada a ficar 6 meses na França por conta do processo de transferência, visto, vacinação do bebê e o aval do pediatra para viajar pra África.

Então nos organizamos para nossa estadia de 6 meses na França, mas sem meu esposo, já que ele teria que ficar no Congo trabalhando e providenciando a transferência. Ele só pôde se juntar a nós duas semanas antes do nascimento do nosso filho, para vivenciar o momento do parto.

A busca por uma escola na França

Por ser muito tempo, concluimos que minha filha não poderia ficar 6 meses, além das férias, em casa sem estudar ou aprender algo novo. Também pensamos que ela precisaria fazer novos amigos e continuar a se socializar. Assim, resolvemos que o certo seria ela frequentar uma escola francesa durante esse período.

Meses antes da nossa ida, já começamos a pesquisar. Como vivemos uma vida de expatriados, nossa filha sempre frequentou estabelecimentos educacionais internacionais, cuja língua ensinada e falada é o inglês.

Por esse motivo, nossa busca foi por uma escola internacional, por possuir o mesmo currículo e metodologia a qual ela já estava habituada. Planejamos ir para a cidade de Rennes, a capital da Bretanha, na região oeste da França.

É nesta região que moram os meus sogros e onde também morávamos, antes de sermos expatriados. Rennes é uma cidade universitária, por isso pensamos que poderia haver a possibilidade de encontrarmos uma escola internacional lá. Porém, para a nossa surpresa, não havia nenhuma.

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Havia uma escola que dava aulas de inglês, duas vezes por semana, mas a maioria das aulas era em francês. Colocamos esta escola na nossa lista, para escolhermos depois e continuamos a busca.

Encontramos uma segunda escola, montessoriana. Era uma escola pequena – parecia ser improvisada -, mas com um valor muito alto. Descartamos esta escola, nem sequer a colocamos na nossa lista.

Enfim optamos por inscrever nossa filha na primeira escola. A condição seria encontrar um apartamento no centro de Rennes, a ser alugado temporariamente. Bem, minha saga para alugar um apartamento, eu contarei depois.

Como não encontramos o apartamento, tivemos que escolher outra escola, próxima de onde estávamos. A escola era totalmente em francês, não havia nenhuma aula de inglês ou crianças de outras nacionalidades.

Visitando a nova escola

Fui com a minha sogra e minha filha visitar a escola durante as férias. Nesta mesma ocasião, efetuamos a matrícula. Ao conversar com o diretor, julguei importante informá-lo que a minha filha só havia frequentado escolas de língua inglesa. Ressaltei que ela sabia falar francês (por conversar em francês com o pai) e português (por conversar em português comigo). Por isto, ela poderia misturar um pouco as línguas, formar frases usando palavras de outra língua ou construir frases na forma inglesa de falar. O diretor me disse que não seria um problema, pois as crianças se adaptam fácil.

Eu realmente estava apreensiva. Apesar da minha filha ter nascido na França, ela nunca havia frequentado uma escola francesa. E apesar de ser uma escola de uma língua que lhe era familiar, eu temia pela adaptação dela ao método que era totalmente diferente ao que ela estava habituada.

Começo das aulas

No primeiro dia, os pais foram convidados a entrarem na sala com as crianças para se ambientarem e conversar com a professora. As semanas foram passando e tudo foi correndo bem, até que um dia a minha filha não queria mais ir pra escola; dizia que detestava a escola.

Quase todas as manhãs eu tinha que conversar com ela e convencê-la a ir pra escola. Eu a indaguei por diversas vezes para saber se havia algo de errado na escola, se alguém havia lhe feito mal. Ela sempre me respondia com uma negativa e dizia simplesmente que não gostava de ir para a escola.

Cheguei a pensar que era devido ao outono francês, que só amanhecia depois das 8 horas da manhã e isto a faria pensar que estava indo pra escola de noite.

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Sempre ao buscá-la, nós conversávamos sobre a escola. Eu a perguntava se ela havia feito amigos, o que tinha aprendido naquele dia, etc.

Com o tempo ela começou a me contar algumas coisas sobre o comportamento dos novos colegas para com ela. Percebi que eles não eram muito receptivos com ela e resolvi falar com a professora. Perguntei a ela como minha filha estava indo, se estava bem integrada. A professora sempre falava que ela estava se adaptando bem.

Até que um dia minha filha voltou pra casa toda suja e com a roupa molhada, sendo que havia uma muda de roupa na mochila dela. Eu a perguntei porque ela estava assim e então ela me contou que uma colega a empurrou no chão.

Com o passar do tempo, ela começou a reclamar de duas meninas. Então eu lhe disse que ela não precisava brincar somente com essas meninas, pois havia outras crianças na classe dela com as quais poderia brincar.

A descoberta do bullying

Eu percebi mudanças no comportamento da minha filha. Além da falta de vontade de ir para a escola, ela passou a dizer frases tais como: “mamãe, eu odeio essa escola maternal”. Ressalto que minha filha sempre adorou ir para a escola.

Essa frase me deixou com a antena ligada e eu reparei que ela voltava da escola cheia de folhas na cabeça, com machucado e sempre reclamando.

Fui novamente conversar com a professora, que me disse que estava tudo correndo bem. E a minha filha cada vez mais odiando a ideia de ir pra escola.

A PMI- França (proteção maternal e infantil) resolveu que faria uma avaliação nos alunos da classe dela. Então recebi um formulário para preencher , no qual coloquei que a minha filha falava 3 línguas. A PMI fez a avaliação e foi então que a professora supostamente se deu conta que ela falava três línguas. Resolveu vir conversar comigo e me disse que ela ficou surpresa com essa descoberta.

Consequências do bullying

Lembrem-se que eu informei ao diretor da escola que a minha filha falava 3 línguas. A professora me disse com um sorrisinho, muito debochada, exatamente desta forma: “bem que eu e a assistente achamos muito curiosa a forma dela de se expressar”. Ela formula as frases diferentes das outras crianças francesas.

Ora, quer dizer que ela identificou isso na minha filha e nunca me falou. Se minha filha precisasse de um fonaudiólogo, ela nunca me diria nada. Em vez disto, preferia zombar da minha filha com a assistente.

Voltando a falar das coleguinhas que sempre aprontavam com ela. Ela começou a chegar em casa falando palavras de baixo calão, a ponto de dizer a que iria estrangular o irmão recém-nascido. Eu fiquei tão indignada, que a indaguei onde ela havia aprendido essa palavra, já que não a ouvia em casa. Ela me respondeu que as coleguinhas lhe disseram para dizer isso ao seu irmão bebê, pois eu iria ficar muito contente.

O meu espanto e decepção com a instituição de ensino francesa

Eu fiquei realmente indignada com tudo o que vinha acontecendo, pois a minha filha de apenas 4 anos na época. Ela estava mudando o seu comportamento por causa de pessoas de péssima índole e sem nenhuma educação.

O meu maior espanto foi a falta de preparo, de saber como lidar com a situação, por parte da professora.

Quando fomos reclamar das atitudes dessas crianças – filhas de militares, pessoas ditas com disciplina e cheios de regras – ela tentou minimizar a situação.

Como nós forçamos a barra, uma atitude foi tomada. Mas pasmem, as coleguinhas começaram a mostrar “amor e afeto” pela nossa filha, cada vez que íamos buscá-la. Elas a abraçavam nos olhando, como quem diz “somos super amigas”.

Fiquei pensando como crianças tão pequenas já pudessem ter esse tipo de comportamento, sendo mau-caráter, manipuladoras e falsas.

Eu disse a minha filha, para que não as deixasse abraçá-la na nossa frente, pois elas não estavam sendo sinceras e que isso não era legal.

O meu alívio com a saída

Enfim, chegou o momento em que eu tanto esperava: nossa mudança para a Angola e a saída de nossa filha desta escola.

Antes disso, fomos conversar com a professora, para ver a evolução dela. Percebemos que a professora não se interessava em saber se o aluno tinha mais conteúdo com relação ao que estava sendo ensinado em classe.

Ela sabia contar até 20, mas a professora queria que ela “soubesse” até 6, pois era isso que as crianças da idade dela deveriam saber. Dessa forma, a professora, sem jeito, tentou justificar o mal comportamento das outras meninas. Realmente inadmissível!

Depois disso tudo, nos mudamos para Luanda, mas isso já é assunto para outro texto.

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2 comentários

Zandra Ferrer Agosto 12, 2019 at 7:40 pm

Também observei essa negligência por parte da direção da escola e diretoria. Quando a gente , na qualidade de pai ou mãe pergunta como este o filho, eles nunca peeceberam nada, tudo está bem. E em casa ouvimos queixas repetidas. Ou a escola fecha os olhos ou mente deliberadamente.
Acho que muito professor escolhe a profissão sem pensar no lado humano, na empatia que deve desenvolver, na responsabilidade que tem. E alguns professores, tenho a convicção que escolheram esse cargo para poder exercer um poder total sobre indivíduo indefeso…

Resposta
Jacira Ferreira Normand Agosto 12, 2019 at 9:02 pm

Zandra, obrigado por ter lido o texto e ter deixado o seu comentário. Realmente é muito frustrante saber que alguns educadores não tem preparo algum para lidar com situações deste tipo. Ainda mais em se tratado de crianças tão pequenas, que deveriam ser puras e inocentes. Quando paramos para pensar que um dia essas crianças serão adultas e que talvez continuem a agir cada vez pior. É de dar medo do ser humano.

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