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Clube do Bolinha Suíça

Cesar Martins – Fotógrafo na Suíça

É comum vermos mulheres que se transferem para acompanhar os seus parceiros, sejam brasileiros ou estrangeiros. Mas existem também, mesmo que em menor proporção, homens que deixam o país em razão de suas parceiras. Para a coluna do Clube do Bolinha, neste dia dos namorados, o BPM apresenta o Cesar Martins, um brasileiro natural de São José dos Campos, que há 6 anos se transferiu para a Suíça por amor – depois que a namorada, hoje esposa, recebeu uma proposta para seguir sua carreira profissional no país. Atualmente ele trabalha como fotógrafo na Suíça, e nos conta um pouco sobre a sua experiência e como se reinventou profissionalmente.

BPM – Conte-nos um pouco da sua trajetória.

Com 17 anos fui para São Paulo fazer faculdade de Biologia. Na metade do curso decidi que não era aquilo o que eu queria e fui para a Administração de Empresas. Formei-me como administrador de empresas com ênfase em Marketing. Fiz algumas extensões, inclusive MBA em Gestão e pós-MBA. Trabalhei no mercado financeiro, passei 5 anos na Credicard e quando ela foi dividida, fiquei na metade que foi para o banco Itaú. Passei mais 5 anos no Itaú, na área de marketing e estratégia e depois na controladoria – não tinha nada a ver comigo e me fez repensar se era o que eu queria para mim. Eu entrava no banco muito cedo e saía quando não conseguia mais fazer nada, inclusive nos finais de semana. Nessa época, também já trabalhava com mergulho, eu sou instrutor de mergulho, e eu me pegava nesses dois mundos opostos… sempre que voltava de uma viagem de mergulho, percebia que eu estava na parte de trás do barco, olhando para o que estava deixando para trás e com o peso de voltar à realidade. Decidi, então, que não queria mais aquela vida e entrei numa sociedade num SPA médico em São José dos Campos, com um amigo de infância. Fiquei alguns anos no SPA, crescemos bastante, consertei um bocado de coisas e cheguei num impasse que ou crescíamos ou aquilo não tinha sentido para mim. Assim, vendi a minha participação e trabalhava como consultor independente.

Nesse momento, já fazia um ano que eu estava namorando a Sandra, minha esposa. Estava num relacionamento como eu nunca tinha estado antes e ela recebeu uma proposta na Suíça, que era um sonho dela. Ela vinha muito a trabalho para Zurique e tinha uma paixão pela cidade! Então, nós tínhamos três opções: ela vinha sozinha e a gente acabava por ali, o que para nenhum dos dois tinha sentido; não vinha, e provavelmente ficaria o impasse “deveria ter ido…”. Por outro lado, eu já estava flexível profissionalmente, tinha reuniões por computador e telefone, só ia pessoalmente à consultoria porque estava ali, então poderia encarar a loucura de, no relacionamento de um ano e pouquinho, pensar na opção de casar, largar o que sobrou de estrutura fixa no Brasil e vir embora. E foi bem esse o caminho, que falado é muito mais fácil do que feito!

BPM – Como foi vir para acompanhar a esposa? Sofreu preconceito?

Já há bastante tempo não ligo muito para o que os outros acham, mas existe bastante preconceito, sim. Tive pessoas próximas e até grandes amigos que com jeitinho chegaram a perguntar: “Como assim você parou de fazer tudo?” – a pessoa queria entender que diabo eu fazia dentro de casa! Em diversos momentos eu tive perguntas e comentários em tom de brincadeira como, por exemplo, “Ah, agora você está levando uma vida sustentável!” Existe bastante curiosidade e, em alguns momentos, até hoje algum preconceito que se percebe no tom da pergunta… “Mas como assim, você é dona de casa agora?”

BPM – Por falar nisso, como ficou a divisão dos trabalhos domésticos?

A vantagem é que eu já morava sozinho e sempre quis ser independente. Mesmo ganhando bem quando trabalhava no banco, nunca gostei da ideia de ter uma empregada diariamente. Em função da falta de tempo, tinha uma faxineira que me ajudava com algumas poucas coisas e, isso depois de muito tempo, então eu estava acostumado a fazer tudo. Na Suíça, era óbvio, vindo para cá com os custos como são e eu tendo o tempo, eu faço, sem o menor preconceito da minha parte. Minha esposa insiste com alguma frequência para termos alguém, mas para uma pessoa vir passar 2 horas e fazer a faxina europeia, faço eu! Grande parte das tarefas de faxina, arrumação, cuidar das nossas duas gatinhas, compras no supermercado, tudo isso fica comigo. Eu não cozinhava no Brasil e ela também não, então, chegando aqui foi uma questão de: ou aprendo ou vou comer só macarrão, porque na Suíça comer fora todo dia, para quem acabou de chegar do Brasil, assusta. Tem que aprender! E com a internet qualquer um que tenha o mínimo de vontade, cozinha o que for, é só seguir instruções. Hoje continua não sendo uma atividade que eu adoro, mas faço sem problemas e recebo amigos aqui com um enorme prazer.

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BPM – E a parte profissional? Como surgiu a fotografia?

Vim preparado para continuar com a atividade de consultoria que eu tinha no Brasil, à distância, indo para lá esporadicamente. E passei bastante tempo tentando entender como seriam as limitações do meu visto (que era vinculado ao da minha esposa), porque eu queria ter a chance de montar uma empresa aqui. No começo pensava em importar coisas do Brasil ou levar europeus para lá. Mas descobri que não tinha sentido, porque para os europeus, além de ser muito caro, chegando lá não tem estrutura e eles vão ser enrolados, roubados, então não são todos que topam fazer uma viagem assim. Depois tentei o contrário, trazer brasileiros para cá. Mas veio uma desvalorização grande com a crise no Brasil e os brasileiros não viriam ao exterior, então desisti de uma vez dessa história de turismo.

Comecei a trabalhar com fotografia em função de uma coincidência. Sempre gostei, já tinha feito vários cursos no Brasil, inclusive profissionalizante, mas nunca tinha imaginado trabalhar com isso. Então, num jantar com um casal de amigos brasileiros, ela sabendo que eu gostava bastante, veio com uma máquina gigante, com isso e aquilo e me falou: “Olha, comprei essa máquina! Queria fazer uma foto desse jeito, mas não consigo.” E eu falei: “Você não precisa comprar essa máquina para fazer essa foto, você faz do celular. Dá aqui o seu telefone.” – e fiz a foto para ela. “Ué, mas como?” Aí mostrei e ela: “Você tinha que dar curso!”

Eu nem levei muita a sério. Mas depois ela me ligou falando: “Olha, arrumei algumas amigas… monta um curso pra gente!” Fiquei surpreso, mas é uma coisa que eu adoro e se alguém está afim de me pagar para isso, claro! Montei um curso, elas fizeram, adoraram e começaram a divulgar para outras pessoas. Só no boca-a-boca, de repente, eu estava com as semanas absolutamente tomadas de curso de fotografia!

Aí foi um passo atrás do outro. Já que eu tinha esses clientes, como continuar tendo produtos ou serviços para continuar vendendo a eles? Comecei a desenvolver novos cursos, a fazer workshops, além de revender equipamentos. Num determinado momento, pesquisando comunidades de expatriados, encontrei uma empresa que tinha um evento por acontecer e entrei em contato, perguntando se poderia fotografar o evento. A pessoa me respondeu na hora, desesperada, porque ela não tinha ninguém para cobrir o evento. Em função disso, uma sequência de portas foram se abrindo, aquelas fotos acabaram atraindo outros contatos e trabalhos, até chegar numa empresa que faz eventos, que me chama regularmente.

A partir desses eventos, tive contato com outras empresas e fotografei para algumas marcas que jamais poderia imaginar, que não têm nada a ver comigo. Fotografei para a Chanel, Tiffany, Bvlgari, designer famosa da Suíça… Jamais imaginei fazer esse tipo de coisa, mas foram abrindo esses caminhos.

Trabalho e lazer juntos – Cesar Martins

BPM – Quais dicas você daria para quem quer iniciar nessa profissão?

Geralmente as pessoas pensam em comprar uma super câmera… Equipamento, honestamente, eu comparo ao martelo. Ninguém diz: “Nossa, essa mesa está maravilhosa, o martelo que o cara usou deve ser fenomenal!” Com a câmera é o mesmo, não adianta nada uma câmera fantástica se você não sabe usar. E, se sabe usar, mesmo um celular ou uma câmera simples podem fazer fotos muito legais. Então, deixa para pensar em equipamento depois. Faz um curso, começa a ver o que você gosta dentro da fotografia, isso vai ajudar a entender que tipo de equipamento comprar e economizar dinheiro. Conforme você evoluir, procura um bom usado. O mercado de usados tem equipamentos excelentes por uma fração do preço!

Outra coisa é fazer cursos, ir atrás, tem muita informação online também. Primeiro aprenda e então, defina as áreas que você gosta. Aí faça duas coisas: se especialize e acompanhe o trabalho de pessoas que sejam referências nessas áreas. Você vai ver o que essas pessoas fazem e entender um pouco mais se quer trabalhar com isso.

BPM – Além da fotografia, você tem outra atividade…

Sou sócio num bar de eventos que acontece, do início da primavera até o final do verão, em festas locais como a Caliente, Zürich Fest, Albani Fest (em Winterthur), etc. Nestas festas existem stands e bares, e o nosso bar divulga a cultura brasileira. Vendemos bebidas e toca música brasileira ao vivo em quase todos os eventos. Eu nunca tinha pensado em fazer algo do tipo e acho muito legal! O público do bar é bem variado. Tem suíços que gostam dos ritmos brasileiros, crianças que ficam curiosas nos vendo abrindo o coco verde e querem experimentar… Tem brasileiros que moram fora do Brasil há muito tempo e nos agradecem dizendo que vão para curtir o clima de festa brasileira que o bar traz, então foi bem gratificante ter entrado nessa maluquice!

BPM – Para finalizar, qual conselho daria para quem pretende deixar o Brasil para acompanhar a(o) parceira(o)?

A primeira coisa que eu falaria para um acompanhante é: vir com convicção! Estar consciente de que veio por conta de uma oportunidade para o casal. Parte do desafio está com a pessoa que veio acompanhar, se você está convicto de que é uma causa importante para o casal, você consegue manter uma visão mais clara: estou passando por essas situações em função desse benefício que nós temos.

O próximo ponto é: prepare-se para uma coisa difícil, porque talvez seja até pior. A dificuldade de abrir portas, o desconhecimento, a diferença cultural, tudo isso é intenso… E, a hora que você pensar em desistir, respira fundo e tenta mais um pouco.

Se a pessoa vem sem nada já certo na área profissional, tem que ter em mente que talvez, pelo bem do casal ou pelo caminho que o casal escolheu seguir, não consiga nada na sua carreira e tenha que se reinventar. É muito importante ter em mente porquê você decidiu vir, e se isso está funcionando. No meu caso específico, continua funcionando muito bem, minha esposa teve oportunidades legais, ela continua crescendo na carreira, então o que decidimos fazer continua funcionando. É importante ter essa convicção, senão fica muito fácil pensar: “Sou um fracasso, e agora?” Ainda mais ouvindo o preconceito das pessoas –  “Como assim, você fica em casa?” Se você se deixar levar pelo impacto que isso pode ter no seu ego, pode ficar muito pesado e te fazer desistir.

Sobre a adaptação especialmente na Suíça, encontre alguma atividade que você goste e um grupo que a pratique, seja num clube, numa associação… tocar bateria, observar pássaros, jogar vôlei, seja o que for, é uma forma legal de ampliar os contatos sociais. Outra coisa bacana, tanto para praticar o alemão como para ampliar os contatos, é o site Meetup. Tem vários tipos de atividades e as pessoas se reúnem, tudo sem custo.

Contatos:

www.chaya.photo

[email protected]

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