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Índia

A chegada em Nova Délhi

No Brasil, conhecemos alguém, namoramos e casamos. Na Índia, os casamentos são geralmente arranjados, os noivos casam primeiro para depois se conhecerem e, com sorte, se apaixonarem.

Vim para Nova Délhi, na Índia, de casamento arranjado. Não, não com um marido, porque já era casada há sete anos quando chegamos aqui. Meu casamento arranjado foi com o país. Vim para cá, pela primeira vez, já para morar.

Eu, como qualquer noiva indiana, estava muito ansiosa por conhecer o meu “noivo”. Saber se ele era bonito o suficiente, se ia me tratar bem, se me ofereceria segurança ou se seria ameaçador… E acima de tudo, queria muito que essa relação desse certo. Para isso, eu achava que deveria conhecer a alma da Índia, apreender a sua essência e, assim, tentar fazer parte dela.

Do meu primeiro dia em Délhi, lembro de muros altos e de árvores escondendo as casas, de ruas largas e de poucas pessoas circulando por elas. Nós havíamos chegado à noite na cidade, e o caminho do aeroporto até o hotel revelara pouco na escuridão.

Quando acordei na manhã seguinte, no coração de Nova Délhi, me vi em um bairro de estrangeiros, esterilizado, que me falava de uma Índia de exuberância e mimos capazes de amortecer qualquer desconforto. Logo pensei que aquela não era a verdadeira Índia. Eu ansiava por mais, por experiências, por aquilo que eu chamava de “autenticidade”, de “gente de verdade”, como se as pessoas ali não o fossem…

Mas, na primeira visita ao mercado próximo, a pobreza estancada vazou no semáforo – crianças batiam nas janelas do carro, pedindo dinheiro. Elas me pareciam tão pequenas! O lixo contido escapava pelas sarjetas ao redor, e as alamedas estreitavam-se com pessoas disputando espaço. Ali, eu reconheci melhor o “noivo” que me haviam descrito.

Mesmo assim, o tempo que se passava andando por entre pessoas era pouco. Talvez pelo calor do mês de junho, saíamos do carro e logo subíamos alguma das inúmeras escadas emergindo em um dos vários restaurantes e cafés instalados sobre as lojas: bonitos, modernos, aconchegantes, com boa comida e gente animada. Era como se eu transitasse por universos paralelos, passando de um a outro como uma corrente de ar que atravessa cômodos de uma casa.

Um mês depois, eu abria as primeiras caixas da nossa mudança, na sala de um apartamento no primeiro andar de um prédio em Jor Bagh. As árvores que eu via pelas amplas janelas acortinavam o mundo lá fora. Eu estava protegida, talvez demais, pensava…. Mas não demorei muito a notar que alguém me observava da rua.

Olhos atentos, sobrancelhas serradas, o homem esticava o seu pescoço medindo cada movimento que eu fazia. Fiquei assustada. Mudei de cômodo. As janelas sem cortinas do lado de dentro, me mostravam que o estranho me seguia do lado de fora.

As inúmeras histórias ouvidas sobre a violência contra a mulher na Índia não ajudaram muito naquela hora. E depois de uns vinte minutos nesse jogo, assustada, resolvi reagir saindo à sacada e encarando meu perseguidor – ele me acenou e sorriu.

Voltei para dentro do apartamento desconcertada, confusa, ainda com o coração disparado. Não havia tido tempo de me recuperar quando ouvi a campainha tocar. Abri a porta, e quem estava lá? Ele mesmo! O estranho ainda sorria e não dizia nada, ficava olhando para mim, mexendo a cabeça em direção aos ombros como quem diz não, ou talvez, em resposta às minhas tentativas frustradas de me comunicar com ele em inglês. Perdi a paciência e acabei fechando a porta na cara dele – ainda sorridente.

A campainha tocou de novo. Mas, desta vez, três homens a pedido do dono do apartamento estavam ali para instalar o gás. Foi o tempo de chegarmos à cozinha para a campainha tocar novamente. O rapaz da máquina de lavar, também mandado pelo proprietário! E mais uma: a vizinha do andar de cima dando as boas-vindas. Tive que abandoná-la no sofá recém-desembalado pois, agora, uma jovem indiana, trajando um sári verde e laranja, estava à porta em busca de emprego como faxineira.

Depois da jovem veio um senhor se oferecendo para passar nossas roupas. Outro querendo ser porteiro do prédio, me dizendo que se eu não o contratasse minha campainha não iria parar de tocar com tanta gente podendo entrar e sair quando quisesse – Será que era obra dele tudo isso?

E veio também o administrador do prédio que não falava inglês, mas que, mesmo assim, insistia em gritar comigo. Com ele, mais quatro ajudantes para checar o gerador e a instalação elétrica.

Naquela manhã, vinte e três pessoas passaram pelo apartamento – ou mandadas pelo proprietário, ou em busca de emprego, ou simplesmente para se apresentarem, ou para me verem de perto.

Eu pensei então, que os muros de Nova Délhi não eram altos o suficiente. E que mais árvores deveriam ser plantadas e ruas ainda mais largas abertas… Chorei feito criança, a vida ali de repente havia se tornado autêntica demais para mim!

Dois dias depois, o rapaz que queria ser vigia estava todo orgulhoso em seu novo uniforme na porta do prédio. E ao andar pelas ruas do bairro, rostos conhecidos surgiam me lembrando daquela primeira manhã. Eles mal olhavam para mim. Não estavam mais curiosos, já sabiam quem eu era.

Meu esforço para conhecer a Índia logo de cara foi tanto que, esqueci que todo bom casamento pressupõe um conhecimento mútuo. Eu só precisava dar tempo ao tempo, e tempo à Índia, para que ela me conhecesse também.

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Nione Cristina Claudino

18 comentários

Daniela Março 2, 2017 at 2:14 am

Nione, adorei ler sua coluna. Assim como você, também nasci com asinhas nos pés e já vivi na África e na Ásia. Hoje vivo no Canadá. Iremos (eu, marido e filha de 8 anos) pra Índia de férias em junho/julho e adoraria trocar umas figurinhas com você!

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 2, 2017 at 4:09 am

Obrigada, Daniela!
Que delícia de aventura passar as férias na Índia!
Podemos trocar mensagens pelo Facebook.

Grande abraço!

Resposta
Anelise Março 2, 2017 at 9:57 am

Nione, adorei seu relato. O jeito como você descreve tudo é maravilhoso, me senti aí. Um casamento arranjado com a Índia não deve ser nada fácil, estou ansiosa pelos próximos artigos!! Parabéns!!

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 2, 2017 at 10:49 am

Obrigada, Anelise!
Fico feliz em poder dividir minhas histórias.

🙂

Resposta
Marcia Março 2, 2017 at 3:40 pm

Como é bom “viajar” com você!! Um abraço forte, querida! Bjs

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 2, 2017 at 3:51 pm

Obrigada, Marcia!
🙂

Resposta
Juraci pike Março 2, 2017 at 4:07 pm

Gostei demais da maneira como vc descreve as tuas emoções e impressões sobre o ” just married place”. Senti uma sensação gostosa de expectativa e mistério no decorrer de todo texto e ficou aquele gostinho de quero mais. Confesso que nunca me senti atraída a conhecer qualquer parte da Índia, penso que não saberia como lidar com o misticismo impregnado. Porém, fiquei curiosa com a sabedoria, com a qual voce projetou o desconhecido, a um outro nível, onde os receios e temores ficaram em segundo plano. Um ruidoso viva para vc e ao seu texto.

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 2, 2017 at 4:47 pm

Muito obrigada, Juraci!
A Índia está longe de ser um lugar fácil. Tenho a impressão de que a minha zona de conforto ficou presa na alfândega, nem chegou a entrar no país! Tudo é intenso, e cada experiência parece me colocar em um lugar novo. E acabei chegando aqui, no BPM! E estou adorando a interação e crescendo com cada comentário.

Grande abraço! 🙂

Resposta
Flavia Março 4, 2017 at 6:59 pm

Uau! Outro mundo. Conheço muitos indianos porque há muitos onde eu moro, mas este outro lado da Índia, dos helpers etc. é novo para mim. Seu texto é muito bom, me levou para lá por alguns minutos. Um beijo.

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 5, 2017 at 6:56 am

Obrigada, Flávia!
Logo conto mais e espero continuar trazendo vocês um pouquinho pra Índia!

🙂

Resposta
Roberta Março 6, 2017 at 2:25 pm

Ola. Sou do Rio de janeiro. Adorei lrer seu blog. Eatou com planos de ir pra india dheli. Mas tenho um filho de cinco anos. Estou esperando ele se alfabetizar primeiro. Isso ocorre no proximo ano. Entao meus planos seriam para dezembro de 2018. Gostaria de saber onde posso procurar informaçoes sobre escola particular para estrangeiros ou para brasileiros se tiver. E quanto custa. Agradeço desde ja.

Resposta
Nione Cristina Claudino Março 7, 2017 at 3:53 am

Olá, Roberta!

Que bom que gostou do texto!
Infelizmente não sou a pessoa ideal para te ajudar: não tenho filhos e meus amigos na Índia também não têm filhos em idade escolar.
Mas o Google me recomendou o guia Delhi Schools Guide, do site Expat Arrivals. 🙂
Espero que ajude.

Grande abraço!

Resposta
Aline Abril 27, 2017 at 8:39 pm

Na verdade eu não tenho tanta vontade de conhecer a Índia, pesquiso pouco o lugar(ou nada).
Mas esse texto… Que delícia de ler!!!
Amei!!!

Resposta
Nione Cristina Claudino Abril 28, 2017 at 1:12 pm

Que bom que gostou, Aline!
Há várias formas de se viajar. A Índia é um país complexo e difícil, cheio de maravilhas e coisas que deixam qualquer um com os cabelos em pé!
Escrevo sobre a minha Índia, a minha experiência e o meu olhar. Se gostou, seja bem-vinda e venha sempre viajar comigo – quanto mais gente melhor! 🙂
Grande abraço!

Resposta
Rosângela assis Maio 2, 2017 at 6:13 pm

Adorei sua história muito engraçada, me deu muita vontade de conhecer essa índia exótica ,se Deus quiser um dia irei vê de perto esse colorido.

Resposta
Nione Cristina Claudino Maio 3, 2017 at 1:58 pm

Obrigada, Rosângela!
Fico feliz que tenha gostado. E venha mesmo, quando se fala em lugares exóticos, a Índia não deixa a desejar! 🙂
Grande abraço!

Resposta
Camila Schmitt Agosto 30, 2018 at 11:13 am

Olá Nione, tudo bem?

Você mora em Nova Deli ainda?
Estou indo morar por alguns meses, seria um prazer encontrar você ou trocar msgs.
Qual seu contato?

Obrigada
Abs, Camila

Resposta
Liliane Oliveira Agosto 30, 2018 at 9:52 pm

Olá Camila,
A Nione Cristina Claudino, infelizmente parou de colaborar conosco.
Obrigada,
Edição BPM

Resposta

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