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Chegadas e partidas na China

Sempre escrevemos aqui que existem prós e contras de se morar fora do Brasil. Que a adaptação e o choque cultural são enormes e, muitas vezes, nos deixam sem ação.

Para quem vive na China, a questão cultural é bem intensa e passamos por fases em que dá vontade de largar tudo e voltar correndo para nossa zona de conforto. Inevitavelmente nos perguntamos: onde estava com a cabeça quando resolvi mudar para a China (ou que país for)? Ou por quê? Ou ainda: Como fiz isso?

Acredito que isso é normal em qualquer período de adaptação. Só que há peculiaridades na vida do estrangeiro na China: a zona de conforto nunca se forma novamente. Um dos principais fatores para essa “não estabilidade emocional” é o perfil do expatriado, o que os trazem, os tipos de contrato. Geralmente, as pessoas já chegam com data marcada para retornar ao seu país ou mudar para outro.

Então vivemos, a cada seis meses mais ou menos, a hora das “chegadas e partidas” ou dos “encontros e despedidas” (parodiando na cara dura Milton Nascimento). E não tem jeito… isso é inevitável.

Tem épocas que são em numero menor, mas o período de junho a agosto é, sem sombra de dúvidas, o maior desafio emocional que podemos passar aqui. E aí, o tamanho da dor, do sentimento de perda, depende do quanto se é aberto às novas amizades, aos “encontros”. Porque esteja certo: se houve o encontro, haverá a despedida.

Claro que, uma pessoa que vem aqui e obedece rigorosamente o padrão estipulado pelo contrato inicial, sofrerá menos. Agora, os teimosos e aventureiros, que sempre estão abertos a uma extensão de contrato (no caso da minha família, já se vão 13 anos de China), aí sim perdemos as contas de quantas vezes já organizamos, participamos e choramos em festas de despedidas, conhecidas aqui como farewell party.

Reconheço que com o passar dos anos, a gente vai ficando mais “duro” para esses momentos. Afinal, já tive algumas provas de que as amizades verdadeiras que fazemos na situação de expatriados, aquelas que chamamos de  família chinesa, jamais acabam. Até brincamos que “o que a China uniu, o mundo não separa”. Mas que dói, dói!

Teve um período nessa minha vida chinesa que decidi (e depois mudei de ideia, claro) que não iria conhecer mais ninguém, cultivar amizades, apresentar a cidade, contar da minha vida, escutar o outro. Estava cansada desse trabalho todo e quando a coisa chega no ponto certo, você houve: fomos transferidos, vamos embora no verão…

Ah, o verão…

Olha, vou contar uma coisa para vocês: apesar de ter nascido na praia, nunca gostei de verão. O calor me incomoda, minha pressão fica muito baixa, não tenho disposição. Aí, aqui na China, descobri que o verão é vinculado ao maior número de despedidas do ano. Pronto. Só aumentou minha indiferença a esssa estação do ano!

Como lidar com isso

Mas, se é assim, vamos aprender a conviver com isso, certo? Então, para quem chega agora por essas terras, ou está em um país em que o fluxo de expatriação, de chegadas e partidas, também é intenso, dou minhas sugestões para facilitar a vida e minimizar o sofrimento:

– Tenha em mente que você terá muitos novos conhecidos e alguns se tornarão seus melhores amigos, o seu suporte nesse país. E é com esses que o tema “despedida” não pode ficar escondido numa caixinha no fundo da gaveta.

– Procurem conversar sempre sobre a vida futura, os planos, como vão manter essa amizade após o período que vivem no mesmo lugar. Pode parecer besteira, mas ajuda muito na hora do adeus.

– Não se prenda a um só amigo. Tenha alguns bons amigos, pessoas com que pode contar sempre e a cada ano renove sua seleta lista. Lembre-se que não somos mais adolescentes e a vida real bate na porta a cada segundo, temos que ter um lado racional nos ajudando a enfrentar nossos “dragões”, nossos medos, incertezas e, bem… a vida continua.

– Isso é muito importante, principalmente se você é a parte que fica no país. Pois a que vai, estará tão atarefada em se adaptar ao que vem pela frente, à mudança, à procura de casa, de escola, do que fazer e de como se encontrar, que vai demorar uns meses para ela perceber o buraco que ficou, a falta que sua companhia faz nas coisas do dia a dia. Se bem que hoje em dia, com tudo ao alcance do teclado do nosso celular, as coisas ficaram bem mais fáceis.

– Viva seu luto, sua perda, mas não deixe isso ser o seu guia no dia a dia. A vida continua, lembre-se!

– Para quem tem crianças, converse muito com seus filhos (mesmo os pequenos) a respeito dessas “perdas”. Muitas delas têm dificuldade em lidar com isso. E, em especial os adolescentes, cuidem para que não tenham “O” amigo inseparável, mas sim “a turma” de amigos inseparáveis. Assim, a experiência é em grupo e fica mais leve.

E, para finalizar:

A lista de conselhos poderia ser mais longa, mas não adianta “chover no molhado”.

Guardem com vocês as lembranças boas, lembrem dos momentos divertidos que passaram juntos e das dificuldades que se ajudaram a superar.

Isso é o que vale de toda essa experiência maravilhosa que é abrir seu coração e sua mente para as experiências do mundo.

Já pensou que muitos dos seus amigos de hoje você não teria conhecido se tivesse ficado na sua cidade, se não tivesse se arriscado a ser cidadão do mundo?

Aqui só coloquei um pouco da minha vivência, do que tenho aprendido nesses últimos anos. Não é receita pronta, não tem fórmula. Só acredito que essa experiência possa ajudar outras pessoas na mesma situação.

E, mesmo com todos os “senões”,  garanto a todos vocês que vale à pena! Os amigos que fiz aqui, hoje são minha família chinesa, espalhada pelo mundo, mas para sempre no meu coração.

Até a próxima!

Tallenna

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