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China – Voluntariado: mais que doação, uma razão para estar aqui

Apesar de hoje em dia o número de mulheres estrangeiras que vêm para a China com seu próprio contrato de trabalho estar aumentando, ainda é grande o número das que vêm acompanhando o marido. E isso implica, em muitos casos, largar carreira, mudar o rumo da vida, adiar planos de ter seu próprio negócio, ou mesmo passá-lo adiante.

O senão de tudo isso é que a mudança para um país como a China já é difícil pelas diferenças culturais e de idioma. A adaptação requer bastante esforço por parte das pessoas. Ainda mais uma mulher que tinha sua própria carreira e se vê, de repente, sem nada para fazer, sem a rotina, o objetivo da vida.

Não vou dizer que isso é de todo ruim, mas no início pode trazer um grande desconforto – e falo por experiência própria. Eu passei por isso: trabalhava há 23 anos na mesma empresa, tinha uma vida super agitada e de repente… Me vi com os dias monótonos e sem objetivo. Cuidar de casa nunca foi meu forte. E acordar pela manhã e não saber o que fazer foi bem complicado.

As primeiras semanas são cheias de novidades, compras, adaptação na casa, ajeitar as coisas, reconhecer a área. Mas depois desse período, o que fazer com a sua vida?  As que têm filhos possuem mais atividades, mas mesmo assim, no período que eles estão na escola, o que fazer? Como utilizar esse tempo livre de maneira produtiva?

Mas como anjos existem, na época uma vizinha americana me perguntou se gostaria de conhecer uma instituição que ela ajudava, se queria ir a um almoço para angariar fundos para a ‘Baobei Foundation’. Fui e conheci algumas pessoas, tentei me inteirar um pouco do trabalho. Chequei em casa e entrei no website da instituição. Adorei e cliquei no link de voluntários. Para minha surpresa recebi uma resposta em menos de 15 minutos e marquei minha primeira visita.

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Depois disso, elegi a terça-feira de manhã para ir visitar o hospital e ajudar com o que podia dar: afeto aos bebês e um descanso às cuidadoras.

Ainda achava muito pouco, pois nada era comparado ao ritmo maluco que eu tinha no Brasil trabalhando com cultura e eventos! Mas mesmo assim não desisti; era o que eu poderia fazer naquele momento, já que meu mandarim era zero e meu inglês, sofrível.

Naquela época não conhecia muitos brasileiros em Xangai. E para meu espanto, descobri que essa instituição recebia ajuda da comunidade brasileira, com doações em dinheiro. Acredito que nada nessa vida é por acaso, e que sempre temos uma mão guiando nossos passos, nosso caminho.

Depois de um ano visitando o hospital religiosamente toda semana, recebi o convite para fazer parte do grupo como coordenadora de voluntários. Na realidade fazia o trabalho de introduzir o novo voluntário ao trabalho no hospital, explicar o que a BAOBEI fazia e organizar o agendamento de visitas.

Hoje tenho plena consciência de que a BAOBEI fez muito mais por mim do que eu por eles. Aqueles bebês tão indefesos, muitos com dias de vida e já tendo que lutar pela vida, pela própria sobrevivência, tendo sido abandonados pelos pais após o parto, com graves problemas de saúde, me mostraram que eu não tinha do que me lamentar.

Hoje não sou tão presente, mas continuo ajudando no que é possível e me juntei ao grupo de brasileiras que arrecadam fundos para doar à instituição.

Trabalho da comunidade

Como já citei, depois que iniciei meu trabalho na Baobei, tomei conhecimento de um grupo de brasileiras que realizam um bazar anual e promovem mais alguns eventos para angariar fundos para a BAOBEI custear as cirurgias.

Existem vários núcleos que fazem algum trabalho artesanal, como costura e patchwork, mosaico, bijuterias e pedrarias, enfeites para a casa; enfim, coisas que são confeccionadas durante o ano e vendidas nesse grande bazar que acontece, anualmente, em novembro.

Bandejas de mosaico confeccionadas pelas brasileiras que vivem em Shanghai.
Bandejas de mosaico confeccionadas pelas brasileiras que vivem em Shanghai.

O interessante que há uma rotatividade muito grande de pessoas aqui, mas a organização sempre se mantém, e quando uma das ‘mentoras’ se vai, outra que já tem bastante entrosamento com a comunidade assume. As voluntárias que produzem e doam as peças também vão e vêm, já que essa é a característica da vida do estrangeiro na China.

Mas o ponto principal é que esse trabalho proporciona para muitas dessas mulheres uma razão a mais para estar aqui, como um objetivo. Nada mais compensador do que nos sentirmos úteis e produzindo algo de bom para esses bebês órfãos, com um futuro tão incerto.

Fazer o trabalho de visita ao hospital é conviver com a doença, com a dor, inúmeras cirurgias e cuidados com os bebês. Nem todas gostam disso. Já esse trabalho prazeroso, que é o de produzir peças artesanais, que muitas vezes não são valorizadas no Brasil, aqui geram ocupação; amizades se formam e vidas são salvas através dele.

Mais do que isso, as pessoas se sentem úteis, vivas e integrantes da comunidade.

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Grupo reunido numa das edições do bazar. M8uitas das que estão aqui, já deixaram a cidade.

Quando comecei meu trabalho na Baobei, um dos motivos que me impulsionavam era o fato de eu poder estar, de alguma forma, retribuindo o que esse país proporcionou para mim e minha família. E no grupo temos várias histórias de mulheres que estavam entrando em depressão por estarem tão sem rumo aqui; outras, sem ânimo de continuar a vida na China, contando os dias para o término do contrato do marido. E outras, que apesar de estarem lidando bem com a situação de expatriada, queriam algo mais no seu dia a dia.

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Um reconhecimento da instituição ao trabalho desenvolvido pelas brasileiras.

Esse trabalho realmente mudou a vida de todas, fortificou amizades e nos desafia a cada ano a superar a nós mesmas na arrecadação final. Quanto mais arrecadarmos, mais vidas serão salvas!

Sobre a Baobei

Baobei Foundation é uma instituição sem fins lucrativos, fundada por quatro americanas (que hoje já não vivem mais na China) para arrecadar fundos para custear cirurgias de bebês órfãos chineses com anomalias físicas. A maior parte dos bebês atendidos possui ‘espinha bifada’ ou ‘spina bifida’, uma má formação congênita que leva a hidrocefalia, problemas motores e gastrointestinais.

BAOBEI em mandarim pode ser traduzido como ‘preciosa criança’.

Você pode saber um pouco mais a respeito no site www.baobeifoundation.org

A comunidade brasileira é considerada pela diretoria da instituição como uma pessoa física e, assim, é um dos mais importantes doadores nessa categoria.

website Baobei Foundation.
website Baobei Foundation.

No ano de 2014 o valor total arrecadado foi de 115 mil renminbis (cerca de 60 mil reais) e isso pôde custear 4 cirurgias básicas.

O valor das cirurgias vai de 30 a 70 mil renminbis, dependendo da gravidade do caso. Alguns bebês precisam de 3 a 4 cirurgias e cuidados médicos constantes para poderem ter uma vida normal.

A maioria desses bebês vão para a adoção internacional, e quase todos conseguem um lar.

Outras opções de trabalho voluntário

Escrevi mais sobre a Baobei por estar envolvida com a instituição desde 2009 e, assim, ter mais propriedade para falar sobre o trabalho, tanto deles como das mulheres brasileiras que trabalham em pról da fundação.

Mas existem outras entidades em Xangai que aceitam trabalho voluntário, como:

Heart to Heart Shanghai – esse grupo custeia cirurgias cardíacas para crianças das comunidades carentes da China.

Shanghai Healing Homeatende crianças chinesas para fornecer cuidados pré e pós-cirúrgicos para órfãos que sofrem de deformidades cirurgicamente corrigíveis. Profissionais de saúde e voluntários são treinados para cuidar desses bebês, atendendo a ambas as suas necessidades físicas e emocionais até que o objetivo final de adoção seja atendido.

Stepping Stones – os voluntários ensinam inglês nas comunidades de baixa renda, seja na periferia de Xangai ou mesmo em locais mais afastados dos centros urbanos.

Também há fundações de defesa do meio ambiente e de resgate de animais abandonados. Nesse link há mais informações para quem se interessar (em inglês).

No final sempre podemos fazer o bem e levar esperança para os que precisam, basta querer.

Tenho certeza que o retorno é muito maior para quem dá do que para quem recebe.

Seja em que parte do mundo isso acontece.

Até a próxima!

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2 comentários

Julia Setembro 28, 2015 at 12:45 pm

Olá Christine, sou mais uma brasileira, recém chegada em Xangai. Cheguei há uma semana e meia, tal como você: para acompanhar meu esposo, sem nada de mandarim e um inglês beem mais ou menos. Estou super interessa em trabalho voluntário, como que funciona para eu me inscrever? Estou tentando fechar aulas de mandarim e/ou inglês para estrangeiro, por isso não tenho como te confirmar ainda quais dias terei vago.. mas queria as informações dos primeiros passos, como faço?

Att.,
+86 185 2140 7101
Julia

Resposta
Christine Marote Setembro 30, 2015 at 3:11 pm

Olá Julia! Bem vinda a Shanghai e a China. Espero que sua estada no país seja tranquila.
Vou entrar em contato com você diretamente e te passo as referências para esse trabalho.
Abraço.

Resposta

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