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Bélgica

Coisas que aprendi morando na Bélgica

Essa é a continuação do texto O que aprendi em 12 anos morando na Bélgica.

7. Nem todo mundo gosta de contato físico e está tudo bem

Apesar de os belgas se cumprimentarem com um beijo quando já se conhecem ou quando são apresentados por alguém (os homens também se beijam no rosto quando se encontram), esse é um gesto social que pode ser relativamente distante. Há pessoas (eu diria muitas) que não apreciam nenhum tipo de contato físico e a linguagem corporal deixa isso bem claro. Conheço uma pessoa, faz seis anos que nossos filhos vão juntos na mesma escola todos os dias, já nos vimos em diversas ocasiões inclusive as de extrema confiança, quando nos vemos se eu dou um passo para cumprimentar com um beijo ou abraço ela dá um passo para trás.
Aprendizado: respeitar a bolha do outro faz parte do “savoir être” (competência social).

8. Nem todo mundo quer dividir assuntos da própria vida e está tudo bem

Os belgas, apesar de serem amigáveis, sinceros, fiéis às suas amizades e muito cordiais nas situações sociais, se você acabou de entrar na vida dele vai precisar de (muito) tempo e paciência se quiser conhecer mais sobre ele. Socialmente eles regularmente perguntam “tudo bem?” como a gente, mas isso não quer dizer que quem perguntou quer realmente ouvir todos os problemas da sua vida, nem que ele vai dividir assuntos da própria vida com você. A resposta esperada é “tudo bem” e ponto, eles são bastante reservados nesse sentido e vão se abrir para os assuntos superficiais como o clima, o trânsito, o trabalho, etc. Se o assunto começa a tomar uma direção que pode criar algum laço de intimidade talvez ele já vá se despedindo e saindo de fininho. Assuntos da vida privada e o compartilhamento de problemas estão reservados aos amigos de longa data ou aos terapeutas.

Aprendizado: entender e respeitar o modo de funcionamento do outro favoriza o convívio social.

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9. A Burocracia está presente em abundância

Talvez a Bélgica seja um dos mais países mais burocráticos que eu já vivi (os estrangeiros no Brasil dirão o mesmo do sistema brasileiro). Coisas simples podem levar meses, ou se complicarem facilmente. O serviço público é como qualquer serviço público e as respostas variam de uma comuna (prefeitura) para outra, de uma região para outra e às vezes a regra muda. Quando olhamos de fora e vemos que a Bélgica é a sede de muitas empresas internacionais, capital da Europa, cosmopolita, etc., podemos pensar que o país já tem tudo organizado para receber os estrangeiros ou pelo menos facilitar, mas não. O estrangeiro é um dos que vai se confrontar rapidamente com a burocracia chegando aqui, mesmo para estrangeiros europeus.
Aprendizado: burocracia pode dificultar as coisas, mas não necessariamente impedir de conseguir o que é seu de direito, desde que seja de fato um direito. Paciência e persistência são as palavras-chave.

10. Mentalidade conservadora e sistema hierarquizado nas empresas são uma tendência

Além da burocracia, também penso que na Bélgica há muitas empresas com uma vontade enorme de serem mais abertas principalmente ao progresso, mas na prática existe um conservadorismo e uma mentalidade fechada que sabotam esse progresso, pois também ainda há abusos por parte de algumas pessoas. Por exemplo, em algumas empresas flexibilidade de horário e “home office “podem ser mal vistos, há uma dificuldade em confiar nos funcionários, que, por consequência, faz com que as regras sejam reforçadas para “manter a ordem” e faz com que fiquem presos a um sistema de management ultrapassado. Percebe-se também a tendência de comunicação vertical nas empresas, favorecendo uma hierarquia ao contrário dos países nórdicos aonde a tendência é mais horizontal, de igual para igual, inclusive a igualdade de gênero, o progresso, principalmente o relacionado com inovações tecnológicas, se concretiza mais na prática.
Aprendizado: Home office e video call são as novas tendências já faz algum tempo. É difícil mudar a mentalidade de uma pessoa, de uma empresa inteira ou de um sistema, mas é possível medir a
satisfação e provar o aumento na produtividade de um funcionário, consultor ou mesmo profissional autônomo que recebe a confiança e a liberdade para fazer o seu trabalho, talvez os altos números de casos de burnout (esgotamento. Há muitos na Bélgica) ajude também a fazer uma revisão “nessa mentalidade”.

Leia também: como tirar carta de motorista na Bélgica

 

11. O sistema é forte e generoso

Levando-se em consideração que os impostos são super altos para os contribuintes (depende do salário, digamos que a média é de quase 50% de imposto) é normal ter um retorno visível em vias públicas, hospitais, escolas, parques, etc. Os assalariados podem se beneficiar entre 20 e 30 dias de férias pagas, seguro desemprego caso seja necessário, “mesadinha” de acordo com o número de filhos, licença por doença, além de muitas ajudas sociais e subsídios. Há subsídios de diferentes ordens e que variam de uma região para outra, de uma comuna para outra, de um ano para outro.
Indo desde um subsídio para você trocar as janelas da sua casa para consumir menos energia, até subsídio para quem é profissional autônomo fazer um curso que possa ajudar profissionalmente, tem subsídio até para quem se questiona profissionalmente e quer fazer um processo de coaching (na Flandria).

Há tantos que eu me perco! Só para ilustrar, o dia da mentira é levado a sério aqui e até a imprensa participa, eu não sabia. Certa vez, ouvi no noticiário da rádio que o governo daria um subsídio para quem saísse de férias! Acreditei (já que são tantos e tão variados) e achei absurdo! Era apenas uma piadinha do 1º de abril, uma maneira belga de criticar com humor o sistema.

Aprendizado: manter-se sempre informado pode ajudar na realização dos seus projetos. Não é necessariamente fácil conseguir, tem a famosa burocracia que, com tempo, paciência e
persistência, tudo é possível. No entanto abusar do sistema é extremamente mal visto.

12. Pouco se constrói tudo se reforma

Desde que me mudei para Bruxelas, como arquiteta, percebi que se construía pouco com relação a outros países. Percebi que a necessidade era de reabilitar os edifícios existentes para atender a demanda de habitação, mas também por respeito ao patrimônio. Há casas lindíssimas do estilo art nouveau que merecem ser conservadas! Uma antiga e típica casa burguesa pode ser dividida (e reformada), por exemplo, em 3 apartamentos pequenos e um comércio. O mercado da construção civil, ou melhor, de reformas, é muito próspero. Ao longo dos anos percebi que além de reabilitar a casa, alguns belgas sentem enorme prazer em reformar, em reutilizar coisas e comprar de segunda mão: faca de 2 gumes! Às vezes esse comportamento também revela a dificuldade em se desapegar.
Aprendizado: lavou está novo!

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