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Os italianos da Bélgica

A imigração italiana na Bélgica.

Charleroi é uma cidade no sul da Bélgica, na província do “Hainaut”, e hoje é uma das cidades mais pobres deste país.

Quando cheguei aqui, morei lá por alguns meses, pois meu marido é da região e já tinha uma casa nesta cidade.

A paisagem do centro é um misto de lindas casas de estilo “art nouveau“, de usinas e de miséria social de todos os tipos nas ruas. 

Sempre me lembrou um pouco Cubatão no litoral paulista, mas sem as casas burguesas.

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Infelizmente, percebe-se a decadência dos espaços, a letargia e morosidade das pessoas, em grande parte desempregadas.

Mas nem sempre foi assim.

Houve um momento da história em que o “Hainaut” foi muito próspero, devido às mineradoras de carvão que geravam muitos empregos e oportunidades no país.

Grandes empresas belgas como Delhaize e Solvay nasceram em Charleroi.

Após a Segunda Guerra Mundial, as minas de carvão da Bélgica precisaram de mão-de-obra para fazer o serviço que os próprios belgas não queriam fazer. 

Ao mesmo tempo, a economia da Itália encontrava-se em situação difícil. Começou assim a história da imigração italiana relativamente recente na Bélgica.

Em 1946, a Itália assinou um “acordo de carvão” com a Bélgica para enviar 50 mil trabalhadores italianos para as minas belgas. Em troca, a Itália poderia comprar o carvão belga, que era o mais caro da Europa.

Entre Junho de 1946 e dezembro de 1949, mais de 77.000 italianos entram na Bélgica para trabalhar, superando as expectativas do acordo.

Esse “escambo” de mão-de-obra em troca de matéria-prima, deixou para muitos a impressão de terem trocados suas vidas por alguns sacos de carvão.

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Nesse contexto, muitos italianos vieram trabalhar e trouxeram suas famílias para uma nova vida neste país. O bisavô dos meus filhos foi um deles.

O trabalho duro na extração desse mineral, tinha por consequência um impacto na saúde dos mineradores, que morriam prematuramente ou nos acidentes por falta de segurança.

Além das más condições de trabalho, os alojamentos fornecidos pelos empregadores eram péssimos. 

Eles eram alojados em construções chamadas “Nissen huts“,  que tinham sido utilizadas para abrigar antigos prisioneiros de guerra.

Com uma cobertura em semicírculo em cima de um contra piso, sem água corrente, os “nissen huts” eram insalubres, frios no inverno e quentes no verão.

Muitos trabalhadores queriam alugar casa para terem melhores condições de vida, mas os belgas não alugavam seus imóveis a “estrangeiros”.

Aliás, não apenas encontrar casa era difícil. A integração em seu todo era quase impossível numa época em que existiam placas com a frase “Proibido cachorros e italianos” ou “Proibido animais e estrangeiros”.

Parece um filme de horror!

Alguns italianos voltaram para o seu país após alguns anos, mas a maior parte deles ficou por aqui. 

Seus filhos tiveram filhos, e todos tiveram a sua parcela de contribuição com a economia do país para ele ser o que é hoje.

Também podemos dizer que muita coisa mudou e que hoje os descendentes estão totalmente integrados.

Estamos na quarta geração. O Senhor Matteo, bisavô dos meus filhos, veio do Sul da Itália para trabalhar nas minas de carvão em Charleroi nos começo dos anos 50. 

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Teve uma vida muito dura, mas deu oportunidade e uma nova perspectiva de vida à sua família e por consequência à seus descendentes.

Imagine sair da linda Puglia para trabalhar literalmente em um “buraco negro” que estava a vários metros abaixo da superfície, em um espaço mínimo e respirando poeira de carvão.

O seu filho, avô dos meus filhos, tinha 14 anos quando fez essa viagem, nasceu na Itália, cresceu e pode fazer os estudos mínimos na Bélgica.

O seu filho, meu marido, nasceu na Bélgica e transmite aos nossos filhos, que são também brasileirinhos, a herança dessa história.

A imigração em busca de melhores condições sempre existiu e nunca foi tarefa fácil. 

Existe um ditado chinês que diz: “É preciso uma geração para plantar uma  árvore, e outra geração para ter sombra”.

No nosso mundo globalizado, não sei onde meus filhos irão ancorar, mas que eles e todos nós possamos nos lembrar que as escolhas que fazemos hoje terão sempre um impacto nas gerações futuras.

No que concerne à minha história, agradeço ao Senhor Matteo por todo o seu esforço! 

A decisão dele lá atrás, tem um impacto positivo na vida do meu marido, na minha e na dos nossos filhos, seus descendentes, que finalmente e metaforicamente são os que estão na “sombra” dessa “árvore” que ele plantou.

Para quem está na Bélgica ou estiver de passagem e tiver interesse no assunto, recomendo a visita do Bois du Cazier em “Marcinelle“, antiga mina de carvão que sofreu um grande acidente em 1956.

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2 comentários

angela Dezembro 7, 2019 at 6:19 pm

Sou descendente de Italianos e escolhi trabalhar com isso e tenho como missão, chorei ao ler sua matéria e me emociona cada historia que eu descubro nas minhas pesquisas, todas rodeadas de muita dor e sofrimento. Acho muito relevante voce frisar que devemos honrar e agradecer a eles que com o sofrimento nos proporcionaram uma vida melhor seja onde for.<3

Resposta
Gina Salazar Dezembro 7, 2019 at 8:19 pm

Oi Angela, obrigada pelo seu comentário! Também fico feliz em saber que a matéria despertou as suas emoções, apesar de você já estar acostumada com as histórias que seu trabalho com a imigração italiana traz. Com certeza, apesar do sofrimento, o esforço deles valeu a pena para as gerações futuras.:)

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