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Como eu auto sabotava o aprendizado do francês?

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Como eu auto sabotava o aprendizado do francês?

A Bélgica tem três línguas oficiais, dependendo da região fala-se francês, neerlandês ou alemão. Comecei o estudo do francês bem antes de me mudar para cá, pois na época tinha uma grande motivação (namorado belga francófono), tinha pouquíssimo tempo disponível e poucos recursos para investir em um curso formal.

Tinha colocado na minha cabeça que aprenderia francês com um belga e não com um francês. Nada contra os franceses, eu só queria aprender exatamente como os belgas. Lembro-me de ter pensado: “A Bélgica é um país tão pequeno que talvez não tenham muitos belgas aqui em São Paulo, mas se tiver o Consulado deve saber!”

Liguei no Consulado e me indicaram uma professora particular de francês, Agnes, uma senhora linda e simpática, vinda da Antuérpia, que tinha imigrado para o Brasil com a família há quase 40 anos. Fiz apenas 4 aulas com ela, comprei todos os livros que ela recomendou e logo depois voei para novos destinos.

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Naquele momento o destino era a Suécia, aonde eu viveria apenas por alguns meses, mas continuava com o objetivo de aprender francês. Encontrei uma escola que tinha curso de francês, mas sem turma aberta. Semanas depois a escola me ligou para avisar que não haveria curso por falta de gente suficiente. Pensei: “não vai ter jeito, vai ter que ser autodidata mesmo, com a ajuda do namorado”.

Perto de onde eu morava tinha uma biblioteca enorme e adivinhem, tinha livros em francês! Meu namorado na época me dizia: “Se você pensar, uma criança de 3 anos não sabe ler nem escrever, mas sabe falar! Ela apenas ouve e repete!”. Concordei e resolvi adotar esse modelo ao invés de focar em decorar a gramática e ortografia.

Emprestava os livros infantis na biblioteca, alguns tinham áudio, então escutava e lia ao mesmo tempo. Estamos falando do princípio dos anos 2000, já tínhamos internet, mas não tínhamos “google translator” nem as facilidades que temos hoje.

Também assistia TV, filmes e ouvia músicas em francês e anotava tudo o que não entendia para perguntar depois para o “professor-namorado”. No começo, falava os verbos no infinitivo e ele me corrigia com amor (muito importante nesse processo!) e fui memorizando. Depois de 3 meses de prática diária, já tinha bom vocabulário, fluência verbal, entendimento de 95%, mas não sabia escrever.

Segundo o modelo que eu usei era o momento de começar a “alfabetização” e foi aí que a coisa começou a complicar. Em português, escrevemos praticamente como falamos, com algumas exceções. Em francês, além de não se escrever como se fala, a exceção parece que é a regra. Até então estava usando uma parte do meu cérebro que permitia: divertir-me, sentir-me livre e ver essa experiência como um novo desafio, afinal meu primeiro objetivo era falar.

Quando comecei a escrever, meu cérebro começou a não aceitar as informações, era uma briga diária. O objetivo de memorizar a ortografia das palavras e a gramática era muito difícil e eu simplesmente não conseguia memorizar e repetir. Meu cérebro me dizia o tempo todo: “Por que se escreve assim?” seguido do julgamento “Isso não faz sentido”.

Lembro-me de receber respostas com as explicações ortográficas e de pensar: “Hello! Pra quê escrever com PH se já inventamos o F? A palavra que mais detestava nessa fase era: “professionnelle” que é profissional no feminino, “Pra quê tanta consoante dupla? Só falta o duplo F e P!”.

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Para tudo tinha uma explicação gramatical que meu cérebro não concordava e pensava “Desde que me conheço por gente, o português (do Brasil) vem sendo modernizado, por que o francês parece parado no tempo?” Fazia muitas comparações, vivendo uma fase de conflito, meu cérebro e eu. Até que meu namorado, que já tinha virado esposo, disse: “Se você não está contente, manda uma carta para a Academia Francesa de Letras!” e ponto.

Então percebi que não conseguia memorizar a ortografia por conta desse conflito interno e dessa reação rebelde que estava sabotando meu aprendizado, que querer entender a raiz de cada palavra não estava me ajudando em nada, e que eu teria que aprender latim para responder todas as minhas perguntas mais profundas.

Percebi que para aprender a escrever, não precisaria memorizar todas as regras gramaticais, pois já tinha as construções na memória. Mas, focar em memorizar cada palavra apenas como se fosse uma imagem que já foi criada e que, mesmo que eu não entendesse naquele momento, elas fazem sentido dentro do seu contexto e que as comparações e questionamentos que eu estava fazendo é que não fazia sentido. No final era só usar uma combinação de “imagens” (palavras) e criar uma nova imagem (frase).

Isso é o que funcionou para mim:

  • motivação forte que gere a necessidade de aprender;
  • ter um contexto sempre e aplicar o que aprendeu sem tardar;
  • usar mais o sentido auditivo e visual (filmes, músicas e leitura) como principais recursos;
  • ter o desprendimento de construir frases como uma criança em fase de aprendizado e;
  • ter um mentor para corrigir e ajudar a ter resultados de acordo com o seu objetivo.

A tantôt! (até breve em “francês belga”)

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