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Como ser feliz no Brasil?

Como ser feliz no Brasil?

Já no meu apartamento novo, um predinho bem velhinho e charmoso com fachada rosa terra, em um lugar bastante movimentado na cidade São Paulo, escuto alguns senhores lá embaixo tocando forró para aqueles que passam deixarem uma moeda. Eu, na sala, sentada no sofá olhando para janela, penso que quis alugar este apartamento apenas para escrever olhando para janela, afinal, essas são as duas coisas que eu mais amo no mundo: escrever e janelas.

Janelas sempre me confortaram. Desde a infância me sentia parte do mundo quando olhava para fora e via que todos ainda estavam ali, de um lado para o outro e, embora muitas vezes eu me sentisse sozinha, sempre preferia achar companhia na janela do que na TV, talvez essa seja a razão para o filme argentino Medianeras ser um dos meus favoritos. Em Londres, nos dias mais frios e escuros do ano eu costumava sentar perto da janela com um copo de chá e tentar achar alguém na rua para me encorajar a sair também. Hoje, em uma janela nova, penso que quero esquecer o mundo lá fora e escrever até o fim da vida, apenas olhando, literalmente, a banda passar.

Depois de dias alucinantes de mudança, uma vez que não tínhamos mais nada para chamar de nosso, apenas roupas de inverno e uma ou outra peça que ficou por aqui e que costumávamos usar no verão de 2013, confesso que quase peguei o primeiro voo para Londres e fugi de tudo isso. Odeio mudanças, embora essa informação possa parecer contraditória pra você que lê a minha coluna, afinal, eu basicamente só falo sobre mudanças e adaptações por aqui, hoje você vai ter que dormir com essa bomba que vou confessar: eu não sei lidar com mudanças e demora muito mais que a média mundial para me adaptar com elas.

Se existe uma pessoa que pode ser considerada um fiasco com relação às mudanças, essa pessoa sou eu. Mas, enfim, as coisas parecem estar se ajeitando e agora posso começar a enxergar a luz da paz no final desse furacão (colunistas e leitores de Miami e região, me perdoem pela analogia, sei que minha vida e meus pequenos problemas não podem nem em sonho ser comparados com o sofrimento de quem passou pela devastação de um furacão).

Não foi fácil: esses meses passei a sentir coisas estranhas, dores de cabeça por conta do calor que me desacostumei, medo de andar na rua e ser assaltada, o triplo de ansiedade do que o normal (me peguei com a cara grudada na porta do elevador como se isso fosse fazer ele ir mais rápido para eu sair logo. Grave, né?), pois é, tenho estado bem confusa, um pouco perdida, ainda com aquela sensação de estar no limbo, sem pátria, sem mátria e sem me sentir parte nem de cá, nem de lá.

Mas o que está me deixando tão confusa, ansiosa e perdida?

Bom, eu diria que é a possibilidade de recomeçar. É isso mesmo! Quantas pessoas não queriam ter a possibilidade de fazer tudo de novo? De começar outra vez já tendo experiência e maturidade para escolher? Ou de simplesmente ter tempo para repensar na vida e fazer novas escolhas com mais calma? Não sei números e nem busquei pesquisas de credibilidade para dizer, mas acho que poderíamos chutar que quase todo mundo em algum momento desejou ou deseja fazer isso. E eu, uma simples mortal confusa, estou tendo esta oportunidade privilegiada na vida e, ao invés de agradecer e ficar feliz, estou me sentindo mais perdida do que o Eduardo Suplicy no show do Racionais.

Em uma entrevista de trabalho esses dias, a entrevistadora me disse que pessoas ansiosas não eram bem vindas na empresa, e me perguntou se eu estava de acordo em ter um ritmo de trabalho mais calmo e respeitar o tempo das coisas. Eu, claro, com toda sinceridade que poderia existir dentro de um ser humano, disse: Sim, é isso que eu quero! Mas aí lembrei de como ando apressando até os elevadores por aí e saí de lá me questionando. Com uma Avenida Rebouças inteira de trânsito para pensar, me dei conta de que eu realmente havia respondido com sinceridade, e na verdade eu estava ansiosa para achar algo que me permitisse ter uma vida mais calma e sem ansiedade. Confuso, né? Pois bem, bem vindo, essa é a minha cabeça.

Cheguei em casa e me vi na janela outra vez, pensei que quando alugamos o apartamento eu me imaginei tomando um café e escrevendo de frente para a janela, e magicamente eu teria dinheiro pra viver assim todos os dias da minha vida. Porém, naquele momento eu me dei conta de que, mais uma vez, idealizar coisas só nos deixa mais perdidos e com uma sensação eterna de fracasso. Pensei que talvez eu devesse parar de definir o que quero e usar minha energia para fazer uma lista do que não quero mudar na minha vida. Pensei, e decidi fazer uma lista de coisas que eu não abriria mão por nada, por nenhum trabalho, sonho ou por ninguém.

Chovia muito e a janela fazia barulho, e eu decidi levantar e de frente para ela e para o mundo ler em voz alta aquilo que eu escrevi…

– Dormir bem

– Comer em todas as refeições (incluindo lanchinhos no meio da manhã e tarde)

– Fazer balé

– Correr com meu marido

– Conversar todos os dias, muito tempo, com meu marido

– Escrever pra mim, pra vocês e pra quem eu quiser

– Estar com meus os amigos

– Estar com meus pais e sogros

– Ter um animal de estimação e ter tempo de cuidar dele

– Ser respeitada

Minha lista me mostrou que pouco importa o que eu busco de trabalho ou idealizo para minha vida, o que importa mesmo é todo o resto que deixo pra lá enquanto me ocupo demais tentando prever o futuro.

Hoje acredito que mais importante do que ser feliz no trabalho é ser feliz fora dele, a ponto de não precisar desesperadamente dele para dar um sentido à minha vida, afinal, felicidade não é um estado constante, é um sentimento, que como os outros, vem e vai, mas que com bons alicerces e valorizando as coisas simples da vida, pode permanecer por mais tempo e aparecer mais vezes ao dia.

E foi assim, quase que sem querer, que descobri que não vai existir uma formula para eu ser feliz no Brasil, a felicidade é justamente o oposto, a ausência de formulas, métodos e regras, ela é simples, solta e leve, assim como aquela fração de segundo de quem sorri enquanto olha mais uma vez pela janela antes de enfim pontuar o final deste texto.

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15 comentários

Adriana Novembro 19, 2017 at 4:17 pm

Simplesmente amei o texto!
Palavras lindas e de alma! Vai dar tudo certo! 🙂

Resposta
Johana Quintana Novembro 22, 2017 at 2:48 pm

Que bom que gostou, Adriana!!! Fico feliz em ler seu comentário, isso é muito importante pra mim. 🙂
Beijos

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Mércia Nazario Novembro 19, 2017 at 5:43 pm

Adorei o texto , sua siceridade e como a descreveu. Acho que seu futuro é na literatura.

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Johana Quintana Novembro 22, 2017 at 2:47 pm

É tudo que eu mais quero, Mércia. 🙂
Esse é um sonho que não vou desistir nunca. Tenho projetos de começar em 2018 meu livro.

Beijos

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Marilda Jardim Novembro 19, 2017 at 6:37 pm

Oi Johana ! Me identifiquei muito muito . Eu ainda na Inglaterra mas acordando todos os dias e pensando em voltar embora , mesmo sabendo que no meu caso isso não funciona (já voltei por duas vezes) mesmo assim penso e idealizo e sonho .
Difícil ! AMO aqui, amo aí , canso daqui , não me acostumo mais aí, às vezes acho que basta ser paciente e esperar os tais dois anos que o povo diz ser necessário para readaptação. Na vez passada consegui quase atingir isso , mas não sei .
Desejo a você melhor sorte na sua janela . Mas sabe que qualquer coisa sempre dá pra voltar , apesar do BREXIT . Beijo

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Johana Quintana Novembro 22, 2017 at 2:46 pm

Sei bem como é, Marilda! Meu próximo texto falará exatamente sobre isso! Não sou de dar teasers, mas nesse caso acho bem legal você ficar ligada no meu texto de dezembro.
Desejo que se encontre nesses desencontros e seja sempre leve. 🙂
Beijos

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carol Novembro 19, 2017 at 6:44 pm

Belo texto! Tô acompanhando esses seus textos sobre a adaptação ao Brasil. Estou feliz por estar se encontrando. P.S.: Medianeras tbm é um dos meus filmes favoritos. 🙂

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Johana Quintana Novembro 22, 2017 at 2:45 pm

Fico feliz que esteja acompanhando essa fase da minha vida, Carol! 🙂
Adorei saber que gostamos do mesmo filme, aliás, sempre aceito dicas de filmes legais, viu!

Bjs

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Vera Novembro 19, 2017 at 10:06 pm

Johanna, sou bem mais velha que voce e voltei pro Brazil depois de 30 anos em Londres. Estou aqui há quase 7 anos mas, indo e vindo, porque simplesmente não consigo ficar! Suponho que sempre quis sair e voltar, só confirmou que aqui não é meu lugar. Tento e, tento muito, ser grata por poder ir e vir e, curtir as muitas coisas boas que há por aqui, mas, não é meu lugar.
Boa sorte pra você. Esta com a atitude correta.

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Johana Quintana Novembro 22, 2017 at 2:44 pm

Que delicia ter a possibilidade de ir e vir, né Vera? Aproveite esse privilégio e esteja aonde seu coração mandar. Tenho certeza que tratando as mudanças de forma leve tudo irá ficar bem, sempre.

Beijos!

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Carolina Ely Novembro 27, 2017 at 8:46 pm

Johana adoro seus textos e me identifico muito..entro sempre para conferir se você já postou o próximo..aguardo ansiosa pelo texto de dezembro!

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Johana Quintana Dezembro 3, 2017 at 4:28 pm

Que delicia saber disso! Pode deixar que caprichei no texto de dezembro! 🙂

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Amy-Carole Diene Novembro 30, 2017 at 10:37 pm

Ahh, sabe que adoro seus textos né? rsrs <3

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Johana Quintana Dezembro 3, 2017 at 4:27 pm

Que bom que gosta!!! Fico muito feliz em saber. Beijos

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Juraci pike Dezembro 8, 2017 at 10:12 pm

Johana, eu sou meio desordenada qdo se trata de leitura. Excluindo livros, começo de trás pra frente, volto e vou com o rabo entre as pernas para o início, principalmente qdo me delicio com o que leio. Os seus textos são cativantes, tem um quê de enfrentamento dos sonhos com a realidade, em suma desafiadores. Parabéns!.

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